21/07/14

PROTEGER OS OLHOS DA LUZ SOLAR


Com a chegada do verão e o aumento dos índices de raios ultravioleta (UV), a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia deixa o alerta: é fundamental proteger devidamente os olhos da luz solar, que está na origem de patologias graves como a degenerescência macular da idade e o melanoma da coroideia.

“O sol atua diretamente sobre diferentes elementos do olho: atinge a córnea e a mácula por ação dos raios UV e o cristalino e retina por ação dos raios infravermelhos. A luz solar também atua por efeito acumulativo dos raios UV podendo levar a lesões da retina e área macular” explica o oftalmologista Dr. Fernando Bivar.

Este especialista afirma também que “de acordo com alguns autores, a ação continuada do sol sobre o olho ao longo dos anos está na origem da Degenerescência Macular da Idade que é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a principal causa de cegueira a partir dos 50 anos de idade, nos países desenvolvidos. A exposição prolongada e desprotegida à luz solar pode também originar melanoma nas pálpebras e no interior do olho – melanoma da coroideia. Este é o tumor intraocular primário mais frequente nos adultos. Tal como os melanomas da pele, surge com maior frequência nas pessoas de pele e olhos claros, com tendência para as queimaduras solares. Muitas vezes cresce sem dar sintomas e tem risco de metastização para o fígado, pulmão e pele”.

Relativamente à proteção, o Dr. Fernando Bivar refere: “é essencial que quem está mais sujeito à exposição solar proteja os olhos com óculos com filtros para os raios UV. A lente pode não ser necessariamente escura, mas deve ter este tipo de filtro. Isto significa que quem usa óculos de lentes escuras mas sem filtros para raios UV está tão exposto aos efeitos nocivos da luz solar como quem não os usa”.

Fonte: Sociedade Portuguesa de Oftalmologia

17/07/14

PREVENÇÃO DO CANCRO

“Os diversos estudos que avaliaram os benefícios que se podem obter através de medidas de prevenção primária – e que se traduzem numa redução da incidência e/ou mortalidade por cancro – apontam quase todos para os ganhos quantitativos a seguir descritos.
 
Nas sociedades ocidentais, seria possível reduzir a ocorrência de cancro e a mortalidade a ele associada em cerca de 80-90 % através da adoção das seguintes medidas de prevenção: a) a eliminação do tabaco levaria a uma redução daqueles valores na ordem dos 30 %; b) a modificação do estilo de vida, com alteração substancial da dieta (maior consumo de vegetais e frutas, menor consumo de açúcar, carne vermelha e gorduras saturadas), combate ativo à obesidade e aumento da prática de exercício físico regular, conduziria a uma redução de 30-40 %; c) a eliminação do álcool, por seu turno, traduzir-se-ia numa redução de cerca de 10 %.
Estes estudos referem também, embora sem uma quantificação tão precisa, que a vacinação contra o HBV e o HPV, bem como a redução da exposição a carcinogéneos ambientais (p. ex. radiação solar e radiações ionizantes) e a carcinogéneos ocupacionais, permitiria alcançar uma redução da mortalidade por cancro da ordem dos 10 %.

Os 10-20 % restantes correspondem à susceptibilidade genética (cancros hereditários e cancros com elevada agregação familiar) e à influência de fatores individuais, em parte também geneticamente condicionados”.
Pequeno excerto do recente livro O Cancro, do Prof. Manuel Sobrinho Simões (pp. 89-90). Pode encomendar aqui.

14/07/14

EFICÁCIA DOS PROTETORES SOLARES

Os protetores solares são importantes na prevenção das queimaduras solares e do cancro da pele, apesar de nem todos serem eficazes. Segundo o Environmental Working Group, dos EUA, a utilização de protetores em forma de spray, com índice de proteção acima de 50 ou com vitamina A não são aconselháveis.

Mesmo com o uso de um protetor solar adequado, a única proteção realmente eficaz é limitar o período de exposição ao sol.
 

11/07/14

O ENFARTE NÃO PODE ESPERAR

CONHEÇA OS SINTOMAS

Os sintomas mais comuns de um enfarte do miocárdio são dor no peito, por vezes com irradiação para o braço esquerdo, costas e pescoço, podendo ser acompanhada de suores, náuseas, vómitos, falta de ar e ansiedade. Por vezes, sobretudo nas mulheres, os sintomas podem manifestar-se por falta de ar, fraqueza, sensação de indigestão e fadiga. Os sintomas normalmente duram mais de 20 minutos mas também podem ser intermitentes

NÃO PERCA TEMPO

Conhecer e compreender os sinais de um enfarte permite agir rapidamente e procurar ajuda médica. A rapidez é fundamental para o sucesso do tratamento. A cada minuto que passa o risco de morte aumenta.

Em caso de enfarte, não deve tentar chegar a um hospital pelos seus próprios meios. Em Portugal e na Europa, ligue o número 112.
 

09/07/14

SEJA ATIVO NA PREVENÇÃO DIÁRIA DO CANCRO


Faça uma alimentação saudável. Um terço das mortes por cancro é atribuído a hábitos alimentares errados e à inatividade física. 75 a 80% da maior parte dos cancros são causados por fatores associados ao estilo de vida. 30% dos cancros estão direta ou indiretamente relacionados com a nutrição. 40% dos cancros podem ser evitados com mudanças no estilo de vida.
 
Recomendações para a prevenção

Limite o consumo de gorduras saturadas e de alimentos ricos em açúcares e sal. Reduza o consumo de carnes vermelhas - prefira as carnes brancas (aves, coelho) e o peixe. Os peixes gordos (sardinha, cavala, salmão) são fontes de ómega-3, que protegem contra o cancro.

Não coma alimentos pré-confecionados pois contêm muito sal. Utilize ervas aromáticas e especiarias para temperar os seus pratos.

Não reutilize as gorduras - use pouca gordura na confeção de alimentos e prefira o azeite.

Aumente os produtos hortícolas e fruta nas suas refeições. Inclua leguminosas na sua alimentação - os legumes de cor vermelha e roxa (tomate, beringela, beterraba) são ricos em licopeno (potente antioxidante). Contêm também fibras, vitaminas e minerais.

Consuma cereais integrais, pelo seu alto teor em fibra.

Tenha especial atenção na preparação dos alimentos - não consuma alimentos total ou parcialmente carbonizados. Prefira cebola e alho para temperar.

Modere o consumo de bebidas alcoólicas - o consumo excessivo de álcool aumenta o risco de desenvolvimento de cancro. Prefira água.

Leia os rótulos dos alimentos. Combata a obesidade. Pratique atividade física regular.

Fonte: Liga Portuguesa Contra o Cancro

07/07/14

A QUÍMICA DO DIA-A-DIA



Uma apresentação magistral, em língua inglesa, sobre o papel da química no dia-a-dia e, em particular, na alimentação humana. O Doutor Joe Schwarcz é  professor de Química na Universidade McGill em Montreal, no Canadá. É autor de vários livros sobre estes temas, um dos quais (O génio da Garrafa) foi publicado pela Gradiva em 2005.

02/07/14

MEDICINA E LITERATURA (3.ª parte)

Pelo que acabo de muito sucintamente expor, facilmente se entenderá que não concebo a relação entre Medicina e Literatura na base da eventual evasão ou do mero lazer (embora, claro, a leitura de textos literários faça parte para maioria dos seus tempos livres), nem tão pouco como uma espécie de complemento de erudição opcional e decorativa. O que está em jogo quando se cruzam estas duas áreas do conhecimento e respetivos quadros epistémicos e retóricos, é tão importante e complexo quanto a compreensão e representação da vida humana nas suas diferentes e complementares vertentes, pelo que não se deverá ficar por um simples voluntarismo de horas vagas ou de vagas afinidades.

De resto, o aturado estudo do Doutor Jorge Cruz a partir da obra de Edmund Pellegrino, mostra bem que não bastam nem ideias imprecisas, vulgo preconceitos, nem legislações muito sofisticadas - por muito bem intencionadas que umas e outras possam ser - para que estejamos perante uma Medicina radicada em valores humanistas e éticos.

Em primeiro lugar, importa que saibamos exatamente o que está em causa por detrás dos princípios, modelos e termos, expressos ou subjacentes a diferentes práticas de Medicina. Depois, importa ter em conta as dificuldades que se apresentam na passagem das teorias às práticas. Nesse sentido, enquanto leitora e cidadã, (e até agora pelo menos, pontualmente paciente ou familiar de pacientes), a explicitação do chamado “paradigma das virtudes” foi para mim muito esclarecedora. Não que eu não tivesse já intuído que um médico deverá ter certos traços de carácter como a prudência ou a justiça, mas o enquadramento e explicitação dessas e outras “virtudes” permitiu-me tomar consciência de diferentes pressupostos e consequências na formação dos médicos e no decurso do exercício da sua atividade; permitiu-me encontrar termos mais adequados e fundamentados para dirimir argumentos e para me envolver naquela pergunta que dá título ao livro de Jorge Cruz - “Que médicos queremos?” - fazendo-o não de uma forma mais ou menos emotiva e volátil, como tantas vezes se assiste na praça pública, mas de um modo mais consciente e consistente.

Julgo que este acesso às palavras adequadas (como aquelas a que a Literatura também tantas vezes dá acesso), esta consciência de valores estruturantes de uma prática tão nobre como a prática médica, pode vir a reunir quer pacientes e sociedade em geral num propósito comum traduzível no completar do título com o verbo ter - “que médicos queremos ter?” –, quer aqueles que, pelas suas funções, a completarão com o verbo ser – “que médicos queremos ser?”. Parece-me evidente que só quando houver, ou sempre que houver, essa conjunção de vontades e de expetativas, existirá uma verdadeira relação clínica em prol do humano. Tanto da humanidade do paciente como da humanidade do médico.

Prof. Doutora Ana Paula Coutinho
Professora Associada do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorada em Literatura Comparada. 

01/07/14

MEDICINA E LITERATURA (2.ª parte)

Num tempo tão paradoxal como aquele que nos está a ser dado viver, tanto se assiste a uma desvalorização das Humanidades, desde logo em termos curriculares nos diferentes níveis de ensino, desinteresse sumariamente sustentado na sua fraca rentabilidade ou empregabilidade nas sociedades contemporâneas, como se depara também com a chamada de atenção, em várias frentes, para a urgência de complementar as formações cada vez mais específicas e tecnológicas com uma formação humanista, no sentido mais abrangente, nobre e consistente do termo, que colmate graves lacunas de formação noutras áreas culturais como a Filosofia, a História, as Línguas, a Literatura e/ou outras expressões artísticas.

Algumas universidades – e desde logo universidades estrangeiras consideradas de topo, mas também entre nós, registe-se, a Universidade do Minho, com os chamados “domínios verticais” no seu curso de Medicina - têm apostado nessa associação de saberes que se não é de modo nenhum nova, aponta para um paradigma outro de conhecimento, onde o grande desafio não é (ou não deverá ser) a simples adição de informações, mas sim a pesquisa e o ensaio cada vez mais sólidos da articulação complementar de saberes com um propósito comum e nuclear: o conhecimento e a preservação do mundo, da vida ou da criação em todas as suas formas.

Assim, em boa hora, seguindo a lógica do próprio pensamento de Edmund Pellegrino, o Doutor Jorge Cruz dedicou os últimos capítulos do seu livro Que médicos queremos? às temáticas da “Medicina e Humanidades” e da “Relação médico-paciente na Literatura”.

Se é verdade que a Medicina é a mais humanista das ciências e a mais científica das humanidades, como defende Pellegrino (note-se, aliás, que o radical indo-europeu “med-“, que significa cuidar, é comum à palavra meditação, ou ao verbo meditar), importa defender a inclusão das Humanidades na formação dos estudantes de Medicina, como o fez Pellegrino, médico e pioneiro da Bioética. E eu diria até mais: essa formação inclusiva deveria acontecer não apenas na formação inicial dos médicos como na sua formação (obrigatória) ao longo da vida, (co)respondendo assim à consideração tão sábia quanto oportuna do conhecido médico português, escritor e pintor, Abel Salazar: “ o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”.

Correndo o risco de ser a este nível suspeita, não posso deixar de sublinhar a importância da Literatura nessa formação humanística dos médicos, uma vez que ela representa já, em si mesma, um vasto domínio onde confluem muitos outros saberes, por vezes também de natureza científica, e onde são trabalhadas as grandes questões existenciais que ocupam e atravessam igualmente outras áreas do conhecimento.

Quando se pensa nas relações entre Medicina e Literatura, imediatamente vêm à ideia os muitos casos de médicos-escritores, não só ao longo dos tempos, como em diferentes quadrantes geográficos e culturais, facto esse que levou à fundação, em 1959, da Union Mondiale des Écrivains-Médecins. A existência de tantos casos de complementaridade de ação ou de “identidade dupla” é já em si mesma bastante sintomática, supondo por conseguinte várias afinidades entre esses dois tipos de “intérpretes de signos”, cuja observação radica e se transforma em narrativa.

No entanto, de modo nenhum o estudo desses exemplos de “identidade dupla” esgota as virtualidades das relações entre Medicina e Literatura. Que puderam (ou podem) aproveitar todos os restantes - os que são médicos e que não são escritores, os que não são nem uma coisa nem outra, mas que um dia já foram ou serão doentes - do contacto com a Literatura e até muito em especial do contacto com a Literatura atravessada pelos universos da Medicina e da doença? Eu diria que uns e outros têm a ganhar com a leitura e a análise dos textos literários (tanto contemporâneos como antigos), na medida em que eles preparam (ou podem preparar) para a observação, para a interpretação, para a reflexão e para a comunicação, em suma, para o reconhecimento e uso cada vez mais ajustado das palavras, não exatamente, claro, de termos científicos, mas das palavras que concorrem para discursos de reflexão e de comunhão; palavras que ressoam conhecimento do passado, que se adaptam ao presente e que imaginam futuro.

Muitas vezes se tem justificado alguma manifesta deterioração da relação médico-paciente com a falta de tempo, com o excesso de burocracia e com o aumento exponencial de exames complementares de diagnóstico. Sabemos bem que essas são razões muito verídicas, mas convir-se-á que, por vezes, existe também, ou quiçá sobretudo, uma falta de sensibilidade ou de compreensão por parte dos médicos (bem como de outros profissionais de saúde) das múltiplas formas de que se revestem o sofrimento, a doença, a angústia, o desespero ou a morte. Por outras palavras, existe incompreensão perante tentativas indiretas do dizer ou mesmo de silêncios na declaração de doença por parte do próprio doente, o que tantas vezes compromete irremediavelmente a sintonia na relação fundadora do encontro entre médico e paciente, e que é, ela própria, ocasião de biografia.

Quer isto dizer que existindo, por parte do médico e/ou de outros profissionais da saúde, falhas no conhecimento do humano – um conhecimento que extravasa de tabelas e nomenclaturas anatómicas ou fisiológicas - instala-se já aí uma incapacidade de comunicação porque incapaz de aceder a uma efetiva individuação. Ora, esta individuação é fundamental para o diagnóstico, prognóstico e terapêutica, concebidos não só em si mesmo, ou seja, em abstrato, mas sobretudo adaptados a uma relação com um outro específico, aberta à singularidade do seu rosto, da sua linguagem verbal e corporal, portanto resistente a (se não mesmo incompatível com) consultas no mundo virtual ou à chamada e-medicina

O convívio com a boa Literatura, portuguesa ou estrangeira, e chamo aqui boa Literatura àquela que se foi mostrando ao longo dos tempos exigente do ponto de vista estético, isto é, do trabalho com a linguagem, não exatamente apenas com a linguagem como um valor em si mesma, mas enquanto meio de representação e construção da densidade antropológica e de questionação do mundo, esse convívio - dizia - não significa um mero conhecimento livresco, como muitas vezes é pejorativamente apontado, mas confere ao leitor (ou pode conferir, se a leitura for aprofundada pela suscitação e discussão de questões antropológicas, filosóficas, estéticas, históricas ou mesmo religiosas) uma experiência maturada de vida.

Através de processos de exposição e de identificação, a leitura de textos literários constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento dessa experiência refletida, fazendo com que cada um, e no caso concreto, cada médico se torne mais humano, no sentido em que o humano é um processo sempre em aberto. Com efeito, nunca será demais lembrar que mais do que nascermos humanos, vamo-nos tornando humanos.
  
Prof. Doutora Ana Paula Coutinho

30/06/14

MEDICINA E LITERATURA (1.ª parte)

O seguinte texto, escrito pela Professora Ana Paula Coutinho a propósito do lançamento do meu livro Que Médicos Queremos? – Uma abordagem a partir de Edmund D. Pellegrino, foi agora publicado na revista Mirabilia Medicinae (2:70-76, 2014):

Quando, há uns meses atrás, o Doutor Jorge Cruz teve a amabilidade de me contactar a pretexto da alegada revisão linguística do seu livro Que médicos queremos?, a leitura das suas páginas, redigidas de forma clara e concisa, num estilo acessível a um público alargado, embora sem concessões a um qualquer simplismo didático-comercial, logo me tornou evidente que a razão mais importante desse seu ato de confiança tinha outro nome, a saber: a Literatura na sua relação com a Medicina, ou vice-versa.

Foi no contexto do Curso de Doutoramento em Bioética na Universidade Católica que tive a oportunidade de conhecer o Doutor Jorge Cruz, tal como outros profissionais da saúde que constituíam a maioria dos participantes da pós-graduação. Fora com grande satisfação que tomara conhecimento do propósito da Direção desse Curso, promovido pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica, em integrar um módulo de reflexão a partir de textos literários, em cuja componente letiva viria a ter o privilégio de colaborar num módulo sobre a representação da doença, e da morte em particular. Para mim, não se tratava de uma mera questão de orgulho pessoal (como continua a não ser), ver reconhecida aquela que é a minha área de formação e de trabalho.
 
Na realidade, estava e está em causa algo muito mais forte do que isso: uma arreigada convicção da necessidade de intervenção do cruzamento de áreas de conhecimento que foram sendo afastadas entre si por interesses vários, e que a evolução histórica da sociedade como do conhecimento tanto explica como nos obriga a relativizar e a questionar, justamente porque nos leva a ver que a confluência dos saberes não só esteve na origem do conhecimento humano, como também o acompanhou durante muitos e muitos séculos.

Vindo eu do domínio da Literatura Comparada, entendida esta como área de investigação e ensino das relações entre a Literatura e outros discursos epistemológicos ou artísticos, a relação entre Literatura e Medicina impõe-se-me antes de mais como uma evidência histórica, inscrita já nos textos da Antiguidade Clássica, raízes de todo o nosso conhecimento e cultura ocidentais, onde ressalta a profunda afeição ao conhecimento ou à chamada filosofia, atravessada por saberes de medicina, botânica, astrologia, retórica ou poesia, entre outras formas de abordagem do Homem e do mundo que o rodeia.

Essa, digamos, convivência de saberes que virá a conhecer ainda como ícone o Homem do Renascimento ou genericamente conhecido como “Humanista” (e que, já agora, deu origem a uma fascinante personagem, Zenão, no inesquecível romance de Marguerite Yourcenar A Obra ao Negro), essa estreita convivência, dizia, viria a sofrer um golpe profundo com a divisão entre Ciências e Humanidades que se consuma, sobretudo, a partir do século XVIII, em grande medida por influência da chamada Filosofia das Luzes.

Os séculos seguintes encarregar-se-iam de cavar ainda mais essa separação de águas, desenhando “ilhas” e “ilhotas” disciplinares em cada um dos caudais (se me é permitido continuar com essa alegoria topográfica), criando especializações cada vez mais restritas, onde a celebração de um saber mais específico e aprofundado se tem tantas vezes perigosamente confundido com uma delimitação possessiva de território, ou seja, com a sinalização de mais um pequeno domínio de poder…

Chegados que estamos a um novo século e a um novo milénio, passada que está, aliás, a sua primeira década, vão crescendo os sinais e as vozes que apontam para a necessidade de rever este divórcio secular entre Ciências, umas chamadas “exatas” ou “duras”, outras “sociais” e “humanas” (e quanto haveria aqui a acrescentar sobre os pressupostos desses qualificativos!), sendo este segundo grupo aquele que engloba áreas e disciplinas anteriormente designadas como “Humanidades”.

Prof. Doutora Ana Paula Coutinho
Professora Associada do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorada em Literatura Comparada.