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21/07/14

PROTEGER OS OLHOS DA LUZ SOLAR


Com a chegada do verão e o aumento dos índices de raios ultravioleta (UV), a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia deixa o alerta: é fundamental proteger devidamente os olhos da luz solar, que está na origem de patologias graves como a degenerescência macular da idade e o melanoma da coroideia.

“O sol atua diretamente sobre diferentes elementos do olho: atinge a córnea e a mácula por ação dos raios UV e o cristalino e retina por ação dos raios infravermelhos. A luz solar também atua por efeito acumulativo dos raios UV podendo levar a lesões da retina e área macular” explica o oftalmologista Dr. Fernando Bivar.

Este especialista afirma também que “de acordo com alguns autores, a ação continuada do sol sobre o olho ao longo dos anos está na origem da Degenerescência Macular da Idade que é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a principal causa de cegueira a partir dos 50 anos de idade, nos países desenvolvidos. A exposição prolongada e desprotegida à luz solar pode também originar melanoma nas pálpebras e no interior do olho – melanoma da coroideia. Este é o tumor intraocular primário mais frequente nos adultos. Tal como os melanomas da pele, surge com maior frequência nas pessoas de pele e olhos claros, com tendência para as queimaduras solares. Muitas vezes cresce sem dar sintomas e tem risco de metastização para o fígado, pulmão e pele”.

Relativamente à proteção, o Dr. Fernando Bivar refere: “é essencial que quem está mais sujeito à exposição solar proteja os olhos com óculos com filtros para os raios UV. A lente pode não ser necessariamente escura, mas deve ter este tipo de filtro. Isto significa que quem usa óculos de lentes escuras mas sem filtros para raios UV está tão exposto aos efeitos nocivos da luz solar como quem não os usa”.

Fonte: Sociedade Portuguesa de Oftalmologia

19/03/14

ENVELHECER COM SENTIDO

Há que descobrir o sentido do envelhecimento. Muitos pretendem a todo o custo minimizar as marcas do envelhecimento, sobretudo da senescência corporal, às vezes à custa de procedimentos que carecem de prova científica e que até podem ser prejudiciais. São de louvar os estilos e práticas de vida que, sendo saudáveis, podem reduzir a marcha do processo de senescência, mas a procura de uma juventude permanente, além de irracional, faz do envelhecimento um tabu, quando afinal devemos acolher a velhice enquanto processo que leva a uma realização mais plena da pessoa. Como bem refere Andrew Weil, o envelhecimento e, com ele, a perspetiva mais aguda da própria mortalidade podem e devem suscitar um importante aprofundamento espiritual.
 
O envelhecimento será então sentido não como um fardo, mas como uma oportunidade. Será tempo de olhar para diante com confiança e, na minha mundividência, com esperança, aquela que levou Michel Renaud a dizer: “até ao seu último momento, a vida humana está aberta ao seu futuro”. Mas para todos, com ou sem esta mundividência cristã, a velhice é tempo de viver com atitude positiva, colhendo na anciania o que ela nos dá de muito bom e que levou o poeta Robert Frost a afirmar: “A tarde conhece aquilo que a manhã nunca suspeitou”. O segredo desvelou-o Albert Schweitzer quando disse: "Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo enruga a alma."
 
Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

17/03/14

QUALIDADE DE VIDA E VALOR DA VIDA


A qualidade de vida é hoje um tema que concita grande interesse dos investigadores sociais e de muitos outros, mas a sua ponderação terá de respeitar sempre o valor primeiro e inviolável da própria vida. É obviamente desejável assegurar a melhor qualidade de vida possível a todo o ser humano. Porém, esta preocupação legítima pode levar, e tem levado, a um desvio ético que põe em causa o respeito pela vida humana, denominador comum a todas as culturas, aliás consagrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Como assinala Ciccone, a teoria da qualidade de vida já levou muitos à iníqua distinção entre vida com valor e vida sem valor, numa distorcida visão antropológica em que “a vida só goza de valor se estiver na posse, ou puder recuperar, certas condições de eficiência, de produtividade e de bem-estar: sem essas condições, a vida apresentar-se-ia carecida de sentido e de valor”.
  
A qualidade de vida pode ser afetada por fatores de vária ordem: a saúde, as condições económicas, etc. Mas, se para a satisfação pessoal conta, obviamente, o modo como cada um encara as eventuais limitações verificadas nesses campos, não pesam menos as relações interpessoais, a manutenção de interesses, a convicção de que ainda se é útil e, de um modo geral, as emoções positivas. Afinal, mais do que a situação de doença e as suas limitações, são outros os fatores que fazem toda a diferença. A velhice, envolvida numa boa rede de relações interpessoais e alimentada com pensamentos positivos, é afinal um período que será vivido como uma fase bem agradável do nosso percurso de vida.

Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

13/03/14

QUALIDADE DE VIDA NA VELHICE

O tema do estilo de vida introduz um outro: o da qualidade de vida na velhice. Será que podemos afirmar que a velhice significa má qualidade de vida? Se considerarmos que a senescência progressiva traz consigo restrições que podem atingir a capacidade de comunicação visual e verbal, afetar o desempenho intelectual ou prejudicar o estado geral, através de múltiplas noxas, teremos tendência a dar resposta positiva àquela pergunta. De facto, aquele cortejo de restrições é responsável pela perceção negativa que se tem do envelhecimento, sobretudo numa sociedade onde os valores dominantes são o culto da juventude, do belo, do vigor e do brilho intelectual. Porém, a imagem que se tem dos idosos está longe de coincidir com a que eles têm de si próprios: a sua autoimagem é quase sempre melhor. Na verdade, muitos idosos que têm algumas limitações desfrutam, apesar disso, de um estado de saúde razoável e conseguem conviver bem com as restrições que elas lhes impõem. Alguns até referem uma melhoria de vida com a idade e não uma pioria. É exemplo disso um estudo finlandês sobre cerca de 250 mulheres pós-menopáusicas, analisadas em duas épocas separadas de dez anos, revelando que a satisfação com a saúde foi idêntica nos dois momentos, isto apesar do estado de saúde de muitas ser pior no segundo (a percentagem das que padeciam de angina de peito subiu de 6 para 20%). Curiosamente, a avaliação que estas mulheres pós-menopáusicas fizeram da sua capacidade física (capacidade de corrida) melhorou, apesar de objetivamente ela se ter reduzido. Isto mostra até que ponto a avaliação da qualidade de vida é mais dependente de fatores subjetivos que dos objetivos.
                       
Grande parte da bibliografia sobre a qualidade de vida assenta na avaliação da qualidade de vida dos outros. Ora, a qualidade de vida só pode ser corretamente avaliada na primeira pessoa. A vida é um valor universal, mas é vivido na singularidade de cada um. Só o próprio pode dizer como é a sua vida. Não surpreende, por isso, que a visão dos outros seja muito distinta de quem vive a situação em causa. Neste contexto, é preferível falar de satisfação de vida que de qualidade de vida, pois se torna mais evidente o seu carácter subjetivo. Frequentemente, grandes limitações que aos nossos olhos, de observador externo, deveriam ser insuportáveis, são vividas pelo sujeito delas com espantosa aceitação.
 
A minha mãe teve uma vida centenária. Faleceu um mês depois de ter celebrado os 100 anos e até aos 90 esteve bem. Além de problemas cardíacos sérios, várias mazelas se foram acumulando depois, a começar pela perda de audição, continuando com a cegueira total e terminando com a falência de forças que a levou a estar acamada nos últimos anos. Reduzida ao leito, sem ver e quase não ouvindo, a sua vida de relação estava de tal modo comprometida que quem a via poderia pensar: não tem qualidade de vida. No entanto, ela considerava-se feliz. Às vezes dizia: “Deus nosso Senhor esqueceu-se de mim”. Mas logo acrescentava: “Enquanto me quiser cá, eu estou bem”.
 
Como vemos, limitações muito graves, parecendo a quem vê de fora que deviam levar o idoso a lamentar a sua qualidade de vida, são frequentemente aceites com surpreendente tolerância, considerando ele que tem uma qualidade de vida bastante satisfatória. Por isso, deve ser encarada com a maior reserva a avaliação da qualidade de vida feita por outros, ainda que sejam os seus próximos ou o pessoal de saúde. Em circunstâncias deste teor, nem é raro que a compaixão mal direcionada leve pessoas que amam o idoso a julgar que a morte lhes seria desejável.
 
Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

10/03/14

SOLIDARIEDADE DE ESTILOS DE VIDA

A questão da solidariedade entre diferentes camadas populacionais surge também noutra área, a da solidariedade de estilos de vida. É sabido que há toda uma série de condições que dependem de nós e que se ligam com os nossos comportamentos nas várias décadas que precedem a velhice. Dizia La Bruyère que “a maioria dos homens emprega a melhor parte da sua vida a tornar a outra miserável”. Com efeito, boa parte do que é o envelhecimento decorre do estilo de vida que cada um assume no seu percurso. Este facto levou a que se levantasse a questão da chamada solidariedade de estilos de vida que corresponde à solidariedade dos que levam uma vida regrada para com os que comprometeram a sua saúde pelo modo como viveram. Ora, há quem defenda que a sociedade não tem de ser solidária para com os que se conduzem de tal sorte que se transformam num encargo maior para a comunidade.
 
Este é um tema que se tornou mais visível nos últimos anos, mas que é criticável no plano científico e no plano ético. No campo científico porque as doenças que podem ser causadas por um comportamento de risco podem reconhecer também outras causas. Por isso, quando surge a doença num indivíduo concreto, não é fácil garantir que ela se deva necessariamente ao seu comportamento. No plano ético são de ponderar vários aspetos. Desde logo o facto de, na base de atitudes perigosas para a saúde, poderem estar envolvidas causas genéticas ou mentais que condicionam as ações da pessoa e pelas quais ela não é verdadeiramente responsável. É também de ponderar que as limitações resultantes de um estilo de vida inapropriado são já um ónus pesado para aqueles que lhe vão sofrer as consequências. Além disso, é também um critério de justiça, porque todos podem precisar, mesmo aqueles de vida regrada, pois isso não os torna imunes às doenças habitualmente associadas a comportamentos de risco. Mas a razão mais importante é que, qualquer que seja a pessoa e por maior que seja a sua degradação física ou mental, ela conserva íntegra a sua dignidade original, a dignidade inerente a todo o ser humano, dignidade que terá sempre de ser respeitada.
 
Finalmente, os que põem em causa aquela solidariedade não tomam em consideração um curioso paradoxo. É que os que levam uma vida regrada são geralmente mais longevos, andarão por cá muitos anos, eventualmente gozando, durante muito tempo, de reformas e outros benefícios distribuídos pela sociedade. Em contrapartida, os que põem em risco a sua saúde, viverão menos e até poderão nem chegar à idade da reforma, assim sobrecarregando menos a comunidade ou tendo sido mesmo contribuintes líquidos.

Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

06/03/14

A PROGRESSÃO DA ESPERANÇA DE VIDA

Face ao progressivo aumento da esperança média de vida, podemos perguntar se esta linha ascendente se vai manter e até quando? Extrapolando a partir dos dados existentes, iremos ultrapassar os 100 anos antes do fim deste século. Mas há motivos para duvidar que assim seja. É que a civilização, que nos trouxe a melhoria das condições responsáveis pela atual longevidade, vai provavelmente cobrar o seu preço.
 
Refiro-me especialmente à obesidade, verdadeira epidemia das sociedades evoluídas que hoje já invade a própria idade juvenil e pode constituir um poderoso travão do aumento da expectativa de vida, quiçá a sua redução, pois é bem sabido que a obesidade constitui um importante fator de risco de diversas patologias. Mas à obesidade juntam-se outros elementos deletérios, como os comportamentos de risco (a praga das drogas, os hábitos alcoólicos desde a juventude, o sexo promíscuo e desprotegido, etc.) e também fatores de stress emocional, cada vez mais numerosos na nossa sociedade, a ponto de se considerar que este será o século das patologias de fundo emocional, como sejam: a escassez de postos de trabalho, característica das sociedades evoluídas, geradora de uma competição impiedosa e de sujeição a ritmos de trabalho excessivo que transmudam o trabalho numa forma de desumanização  ou então lançam a pessoa no flagelo do desemprego de longa duração que é outra forma, ainda mais grave, de desumanização; o fenómeno da urbanização de camadas populacionais cada vez mais vastas, com a correspondente tensão das grandes colmeias humanas e a formação de guetos sociais e de paradoxal isolamento, a desestruturação das famílias que aumenta o número das pessoas em solidão  e que leva a que “as poucas crianças, a quem hoje é permitido nascer”, sejam “educadas numa precariedade familiar… difícil de imaginar”. Todos estes fatores fragilizam o homem moderno e comprometem a sua saúde, pondo em risco a linha de progressão contínua que temos vindo a registar.
 
Mas há ainda outro elemento que poderá intervir negativamente. Para ilustrar isto ocorre considerar a nossa pirâmide etária que mostra uma redução drástica da população abaixo dos 25 anos. Ora, as necessidades da população idosa recaem, em larga medida, sobre as pessoas entre os 25 e os 64 anos, que hoje correspondem a 55,1% da nossa população. Quando se der a substituição da população ativa por esta população jovem, muito mais reduzida, será problemático manter os níveis de cuidados que hoje são prestados aos idosos, comprometendo assim a esperança de vida. Esta dificuldade advém da reduzida natalidade portuguesa.

A queda da natalidade em Portugal é progressiva desde há muitas décadas, pelo que a é já a mais baixa da Europa ocidental, de tal sorte que desde 2007 temos menos nascimentos do que óbitos. E não se diga que são as circunstâncias económicas que estão na base desta reduzida natalidade, pois que no mesmo período de vinte anos o nosso produto per capita cresceu para mais do dobro. É perturbador verificar que é nas sociedades marcadas pela abundância que se verifica a queda da natalidade. Não afirmo que haja uma relação necessária de causa e efeito entre estes dois factos, mas não se pode negar esta evidência: são as “sociedades opulentas” as que estão em risco por redução da sua população jovem. E se John Kenneth Galbraith dizia que na sociedade opulenta não se pode fazer nenhuma distinção válida entre os luxos e as necessidades, talvez possamos acrescentar, parafraseando, que na sociedade opulenta os filhos deixam de ser uma necessidade e passam a ser um luxo. Temos tendência a ver a árvore e não a floresta, o que nos leva a crer que os nossos maiores problemas residem na situação financeira, na estagnação da economia, no marasmo da justiça ou na educação deficiente que proporcionamos a muitos dos nossos jovens. Mas o grande problema nacional é, na verdade, esta bomba-relógio demográfica que já está nas nossas mãos descuidadas, que não sabemos como desativar e que nem estudamos seriamente para lhe encontrar soluções, talvez porque estas impliquem o desmontar de alguns preconceitos ideológicos, tarefa em si mesmo difícil e por muitos indesejada. O comentário adequado é a célebre frase “e pur si muove”, atribuída a Galileu. O risco da falta de solidariedade intergeracional só pode vir a agravar-se nessas circunstâncias, com os ainda ativos a perguntarem aos mais idosos como poderão ajudá-los se eles são tão poucos para tantos velhos.

Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

03/03/14

A IMORTALIDADE DO SER HUMANO


Há quem conceba o envelhecer como doença, daí decorrendo a marcha progressiva para a morte. A aceitar essa perspetiva, pode admitir-se que, do mesmo modo como temos vindo a tratar e curar cada vez mais doenças, também o envelhecimento será curável ou prevenível. Então, será o Homem potencialmente imortal? Os teólogos já sabiam da imortalidade do Homem, mas o que aqui se pondera é a imortalidade do corpo humano, a imortalidade biológica. Esta perspetiva vai ao arrepio do que é a experiência humana ao longo dos milénios. Isso mesmo vimos em Séneca que afirmava ser a velhice uma doença incurável. Neste contexto, poderíamos citar também  Heidegger e a sua famosa frase “Sein zum Tode”, exprimindo igualmente a ideia de que o Homem é um ser para a morte (ou que está à morte, segundo outra tradução). Também Galeno na Grécia, o chinês Ge Hong, que viveu no séc. IV, Roger Bacon, já do séc. XIII, e muitos outros antigos acreditaram na imortalidade do Homem. Mas como acentuou Olshansky, o que há de comum a todos eles é que estão mortos. Nos nossos dias, tornou-se célebre Aubrey de Grey, geneticista de Cambridge, porventura o mais mediático dos defensores desta potencial imortalidade, que afirmou: “a maioria das pessoas que hoje têm 40 anos ou menos, pode esperar viver séculos” e também “a primeira pessoa a viver 1.000 anos pode ter neste momento 60 anos”.

A nível celular a imortalidade não surpreende: aí a temos nas células tumorais, ainda que a prazo elas levem à morte da pessoa, embora não através de um mecanismo de envelhecimento. Contrapondo-se à ideia de que tudo no universo envelhece, há quem traga à colação argumentos colhidos em diferentes formas de vida. Na verdade, certas plantas têm uma longevidade de milhares de anos. Assim, na Tasmânia, descobriu-se uma espécie de azevinho, a lomatia tasmanica, com 43000 anos e nada indica que ela venha a morrer. Também nos vertebrados há longevidades surpreendentes. A tartaruga gigante, como é sabido,  vive centenas de anos e há especialistas que julgam poder ir até aos 5000 anos. Por sua vez, a lagosta nunca mostra sinais de envelhecimento e há especialistas que admitem ser ela intrinsecamente imortal  e que só morre porque algo exterior a impediu de viver.  Ela cresce sempre, o que complica a sua vida, pois torna-se mais visível aos predadores. A lagosta nunca perde a fertilidade; pelo contrário, torna-se mais fértil à medida que os anos passam.

O gene FoxO tem sido relacionado com a capacidade de não envelhecer. Um dos dados mais recentes a sustentar esta relação foi encontrado na hydra, um animal da classe dos protozoários, considerado potencialmente imortal e que tem sido objeto de estudos sobre a senescência. Julga-se que a sua faculdade de manter células estaminais com permanente capacidade de proliferação ao longo da vida está na base dessa ausência de envelhecimento. Um estudo publicado no final do ano passado  mostrou relação entre a capacidade proliferativa das células estaminais e o gene FoxO. Ora, nos seres humanos centenários, têm sido encontrados altos níveis funcionais desse gene.

Os resultados que referi parecem sustentar a conjetura da potencial imortalidade do Homem, mesmo sabendo que não é possível transpor linearmente para a espécie humana o que se verifica noutras espécies, sobretudo nas mais afastadas no leque evolutivo. Mas ainda que se confirmasse esta muito discutida hipótese, a sobrevivência do Homem seria sempre limitada por causas externas – acidentes, condições ambientais, etc. – que, como postulou Medawar, atuariam determinando uma redução dos sobrevivos segundo um ritmo constante e inexorável (o chamado declínio exponencial), incompatível com uma existência perene.

Como sublinha Olshansky, que contesta o mito da imortalidade, “na gerontologia nada indica que se cumpra a promessa de uma vida extraordinariamente prolongada”   e, de facto, a idade máxima atingida pela vida humana tem-se mantido com muito pequena variação ao longo da história, com a francesa Jeanne Calment a atingir a idade de 122 anos e 5 meses, o máximo conhecido até hoje.

Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

27/02/14

O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

As várias teorias sobre a natureza do processo de senescência podem agrupar-se em dois tipos: as teorias do envelhecimento programado e as teorias do desgaste. A conceção do envelhecimento como fenómeno programado assenta na existência de um presumido relógio biológico a comandar a evolução de cada indivíduo. Segundo alguns, esta interpretação também colhe argumentos na perspetiva da evolução. Depois de ter passado os seus genes, termina o interesse do animal para a espécie: já fez o seu papel e por isso deixa de ser necessário. Portanto, não pareceria destituído de sentido admitir um mecanismo biológico que, após o período fértil, promovesse o declínio progressivo até surgir a morte, de que é exemplo extremo o salmão que sofre uma tempestade hormonal com produção de enormes quantidades de corticosteroides, sobretudo na altura da reprodução, seguida de morte rápida.
 
De facto, hoje poucos duvidam que o nosso capital genético esteja implicado no envelhecimento e, aparentemente, por vias idênticas às que se verificam em várias espécies animais. Uma das vias dessa ação genética traduz-se na propensão para sofrer de doenças relacionadas com a idade. Mais ainda, em vários animais de experiência foi possível aumentar a longevidade intervindo nos genes.
 
O envelhecimento programado seria pois um processo inscrito nos genes, semelhante ao programa que promove a elaboração dos vários órgãos e tecidos do feto e, depois, ao desenvolvimento da criança através das várias fases da vida extrauterina, até ao aparecimento da maturidade sexual. Mas o envelhecimento programado não explica tudo. Por exemplo: como perceber que o mecanismo que faz surgir todas as fases do desenvolvimento até à puberdade dentro de períodos precisos, com escassas variações temporais, explique as grandes diferenças do processo de envelhecimento de pessoa para pessoa?
 
Visão diferente é de o envelhecimento não resultar de qualquer determinismo genético, mas de um processo de desgaste que se situa na relação do meio ambiente com as células, processo de tipo estocástico, originado portanto em danos acidentais. A senescência resultaria, assim, de agressões celulares incidindo a nível molecular. O envelhecimento não seria então um processo fisiológico, antes o resultado de uma desregulação condicionada por fatores externos, uma doença, afinal.
 
Não é recente a conceção de que a velhice é uma doença. Públio Terêncio Africano, um dramaturgo latino que viveu no II século antes de Cristo, na sua comédia Phormio, pôs um homem a perguntar a um velho de que doença padecia, ao que este respondeu “Porque perguntas? A doença é a própria velhice” e Séneca foi mais longe ao dizer: a velhice é ela mesma uma doença incurável (senectus enim insanabilis morbus est).
 
Hoje é geralmente admitido que o envelhecimento é condicionado quer pelo capital genético, quer pelos fatores ambientais. Contudo, o papel dos genes, ainda que importante, não é o mais fundamental, pois se admite que eles só contam com 25% para o que será a velhice da pessoa, se bem que a importância relativa das várias causas varie de indivíduo para indivíduo. Mas além dos aludidos fatores genéticos e ambientais, devemos reconhecer que há outros capazes de condicionar o processo, podendo acelerá-lo ou retardá-lo. Neste contexto, têm sido avançadas várias teorias para o envelhecer que poderíamos designar teorias psicossociais. É sabido, por exemplo, que as pessoas envelhecem menos se se mantiverem ativas, ocupadas e igualmente as favorece se continuarem a ter na idade avançada os mesmos hábitos e estilo de vida que tinham nas décadas antecedentes (teorias da atividade e da continuidade). Exemplo oposto é a teoria da desvinculação (disengagement theory) de Henry e Cumming. Esta presume que é o afastamento das pessoas idosas no que se refere ao desempenho de funções ativas na sociedade (roleless role) a causa do envelhecimento, afastamento que seria da iniciativa do idoso. A teoria da desvinculação é objeto de críticas sérias. Admite-se mesmo que a maioria das pessoas que mostram desvinculação já antes apresentava um perfil psicológico de menor envolvimento social. Por outro lado, a desvinculação pode ser involuntária e até indesejada pela pessoa, sendo neste caso da iniciativa da sociedade, como sucede quando o velho é “depositado” num lar de idosos.
 
Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

25/02/14

O QUE É A VELHICE?

Mas de que falamos quando falamos de velhice? Muito na linha de Peter Medawar, de Alex Comfort e de Bernard Strehler, pode dizer-se que a senescência corresponde ao aumento progressivo da vulnerabilidade a todo o tipo de agressões que incidem sobre nós, de que resulta também, com o passar dos anos, o incremento da probabilidade de morte. Embora, segundo estes autores, a morte nunca seja “natural”, na prática pode considerar-se que ela resulta da senescência progressiva da pessoa e é o desembocar natural do seu percurso biológico. Um octogenário, cuja filha andava preocupada com a possibilidade de ele morrer de repente, comentou com perspicácia: “Depois dos 80 já ninguém morre de repente…”. Séneca, contemporâneo de Cristo, já tinha dito: a morte não se abate sobre nós repentinamente, avança lentamente (non repente nos in mortem incidere sed minutatim procedere). E acrescentou morremos diariamente (quotidie morimur).

Poderá perguntar-se: mas há alguma fronteira a partir da qual se entra na velhice? Obviamente que para ser velho não é preciso chegar à fase a que John Kenneth Galbraith chamou “síndrome do ainda” (still syndrome). Essa é a situação que se verifica quando a pessoa começa a ouvir dizer: “Então, ainda a dar o seu passeio?” ou “Ainda interessado na política?”... É um ainda que não consegue esconder a exclamação, não formulada, mas subentendida: “Afinal, ainda não morreu!”.

Para os demógrafos, a anciania é estabelecida geralmente nos 65 anos. Mas esta é uma convenção que pode vir a ser alterada, tendo em conta a nossa sobrevivência cada vez maior e o facto de nos mantermos de boa saúde até mais tarde. Já o Estado determina uma espécie de velhice oficial: a da idade da reforma.

No plano biológico, pode considerar-se que o processo de envelhecimento começa no zigoto, mas é obviamente um absurdo chamar velho a uma criança, ainda que na nossa língua digamos que uma criança de 2 anos é mais velha que uma de um ano, reconhecendo afinal que a velhice já está presente na infância. Mas não sendo no zigoto, onde situar a marca biológica a partir da qual se entra na velhice? Poderia dizer-se que, na mulher, a fronteira da velhice é a menopausa. E no homem? Nele não é aceitável a existência de uma andropausa, se a pensarmos como um processo rápido, semelhante ao que ocorre no organismo feminino, correspondente à perda da capacidade reprodutora. Por isso, não há no homem uma fronteira tão nítida em termos biológicos que permita situar nela o início do envelhecimento. É possível invocar outros indicadores biológicos do envelhecimento, como é o caso do declínio do sistema imunitário, em grande parte dependente da involução do timo que é total aos 60 anos, mas que também é progressiva a partir da juventude.

A verdade é que não se pode traçar uma fronteira precisa para o início da velhice, nem biológica, nem sociológica. A própria perceção da velhice tem variado ao longo do tempo. Se no império romano a expectativa de vida rondava os 30 anos, seria aceitável considerar anciãos os que atingiam os 40. Com a muito maior longevidade atual, também a fronteira da velhice se deslocou muito para diante, o que é um dos aspetos novos do envelhecimento na espécie humana. Hoje é comum ouvir-se dizer de alguém que faleceu: “era novo, só tinha 60 anos”. Este caráter subjetivo da perceção do início da velhice, verifica-se também em relação à idade da pessoa que fala. Desde sempre que, para os jovens, o conceito de velhice é diferente da opinião de uma pessoa mais avançada em anos. Foi nessa linha que Bernard Baruch pôde dizer: "Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa 15 anos depois da idade em que estiver".

Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos

24/02/14

VIAGEM AO OUTONO DA VIDA



Os próximos posts serão dedicados à temática do envelhecimento. Solicitamos ao Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos autorização para reproduzir neste espaço o texto luminoso que escreveu sobre o assunto, que foi amavelmente concedida. O texto integral com as respetivas referências bibliográficas, baseado na sua comunicação à Academia Nacional de Medicina de Portugal (Coimbra, 13.04.2013), foi publicado na Revista Brotéria 176 (5/6) Maio/Junho 2013.

«O envelhecimento, que marca o outono da vida e a leva até ao seu fim último, é o destino inexorável de todo o ser humano que não foi ceifado antecipadamente pela gadanha impiedosa de uma morte prematura. Visitar o outono da vida é de inegável atualidade, não só por serem os velhos uma população cada vez mais numerosa em Portugal, mas também porque, sendo o envelhecimento uma questão velha, a velhice atual coloca problemas novos.

Temos cada vez mais pessoas idosas e idosos mais longevos, graças ao aumento da esperança média de vida que se deve à melhoria de condições como o saneamento básico, alimentação e abrigo, mas também, ainda que em menor grau, aos progressos nos cuidados médicos: prevenção, diagnósticos mais precoces, tratamentos e reabilitações mais eficazes.

No império romano, a esperança de vida era baixa, rondava os trinta anos, e no dealbar do século XX tinha subido para 45 anos. Em Portugal, a esperança de vida ao nascer é de 79,6 anos (homens, 76,5 e mulheres, 82,4). Isto é: em pouco mais de um século, ganharam-se cerca de 35 anos, quase dobrou a esperança de vida! Esta evolução levou alguém a dizer, com um humor desconsolado: “é verdade que acrescentámos mais anos à vida, mas o mal é que são os últimos”. Todavia, esta boutade não corresponde inteiramente ao que se passa, pois que, apesar de na fase última do processo de envelhecimento ser cada vez maior a incidência das doenças geriátricas, mercê desse importante aumento da longevidade, também é certo que o tempo de vida com boa saúde ou, pelo menos, com saúde regular é cada vez mais longo».
 
Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Portugal

21/10/13

NÃO FUMAR: UMA QUESTÃO DE BOM SENSO


O tabaco sob a forma de cigarros, charutos, cachimbo ou cigarrilhas, é causa de milhares de mortes prematuras no nosso País, seja por doenças cardiocerebrovasculares seja por cancros do pulmão, laringe, bexiga e vários outros.

Muitas crianças e muitos jovens são também consumidores de tabaco por causas sociais ou comportamentais, ou por falta de informação concreta, sobre os perigos reais para a sua saúde e a sua vida.

O número de fumadores passivos (aqueles que só respiram o fumo dos outros) cresce a par do número de fumadores.

Muitos fumadores querem deixar de fumar e não conseguem, outros não querem mesmo. Mas outros ainda não têm alternativa senão fumar o tabaco dos colegas de trabalho, ou dos familiares fumadores, e também sofrem doenças ou morrem por isso.

Aqui ficam algumas regras que se aplicam a todos:

1. O melhor de tudo é não começar a fumar. Se pensa que, “todos os meus colegas fumam”, seja diferente, seja original, não fume e tente que os seus amigos venham também a ser não fumadores, esclarecendo-os se porventura ainda ignoram os perigos para a sua saúde e a sua própria vida.

É imperioso que aos mais novos tudo seja explicado e discutido atempadamente (em vez de proibir) para que eles não nos acusem mais tarde de não lhes termos dado o conhecimento prévio dos terríveis malefícios e das dificuldades em parar!

2. Pense nas vantagens dos não fumadores: poupam dinheiro, têm um hálito mais fresco, menos rugas e menos constipações; têm mais tempo de vida; têm menos probabilidades de vir a ter cancro no pulmão, nos lábios, na laringe, orofaringe, esófago, pâncreas, bexiga, rim, etc. e também de vir a ter alguma ou algumas doenças cardiocerebrovasculares (acidente vascular cerebral, angina de peito, enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca, morte súbita e isquemia dos membros inferiores), doenças pulmonares como a bronquite crónica ou o enfisema, com grave insuficiência respiratória. A própria osteoporose é agravada pelo tabaco. E não menos importante é ainda a maior frequência de acidentes de estrada e de incêndios por causa do tabaco!

3. Não pense “o tio José sempre fumou e durou até aos 90 anos”. Isso é a exceção, a regra geral não é assim, o fumador (ou a fumadora) morre 10 anos mais cedo do que os que não fumam.  Pense se vale a pena arriscar e sofrer, de que maneira!

4. Nunca é tarde para deixar de fumar. Vale a pena, tem tudo a ganhar. Tente sozinho, ou com a ajuda dos que o amam, mas se não conseguir peça ajuda ao seu médico, ou tente encontrar outro fumador que queira também parar de fumar e entreajudem-se! É mais fácil, e são dois a ganhar!

5. Deixar de fumar é duro e difícil, e alguns recaem: poderá tentar parar várias vezes antes de conseguir parar de vez. Arranje a vontade e acredite que vai valer a pena o esforço: a sua força de vontade é a chave do sucesso.

6. Não espere por começar a sentir-se mal, ou que o médico e as doenças o obriguem. Pare, assim que tomar consciência do que é ser fumador. Se precisar de ajuda há também medicamentos vários para ajudar a cessar de fumar! Desde os substitutos da nicotina, pastilhas, adesivos, e outros que só o médico pode receitar.

7. Ao fumar, pense no mal que isso lhe faz, e pense no mal que isso faz aos outros, os que não fumam, mas que junto de si inalam também o seu fumo: companheira(o), filhos, parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, etc. Esteja particularmente atento às crianças e às grávidas.

8. Se está grávida não fume, e convença o pai da criança a não fumar também: o pequeno ser que está dentro de si nem sequer se pode desviar do fumo que tanto mal lhe faz - é obrigado a fumar: fumador coercivo!

Aliás o que devem fazer ambos, é parar de fumar (e de beber) logo que planeiam ter um filho, para que os óvulos  e os espermatozóides sejam mais saudáveis!

9. Se é fumador passivo tenha a coragem de dizer ao seu mais próximo “Não fume por favor, porque isso me incomoda”. O seu direito à saúde e a respirar ar puro é muito importante e tem de ser respeitado – a liberdade dos outros acaba onde começam a nossa liberdade e os nossos direitos!

10. Comece a fazer valer os seus direitos: está a ajudar-se a si, e a ajudar outros fumadores passivos, e até ajuda os fumadores ativos (mesmo que eles o não reconheçam) porque fumarão menos.
 
E já agora ajude-os também a obter um lugar para fumar, quando já não aguentam mais!
 
Fonte: Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva (Prof. Fernando de Pádua)

06/02/13

EXERCÍCIO FÍSICO E LONGEVIDADE


Um estudo realizado pelo Departamento de Epidemiologia Clínica do Instituto IDI-IRCCS, de Roma, publicado em Dezembro de 2012, revelou que andar a pé ao ar livre, durante pelo menos 15 minutos, quatro vezes por semana, reduz em 40 % o risco de morte em pessoas com idade avançada (a idade média da população estudada era de 80 anos). Os mecanismos envolvidos nesta diminuição do risco de morte prematura incluem uma melhoria do sistema imunológico, tonificação muscular, melhoria da saúde mental e menor tendência para a depressão. Os resultados deste estudo recente corroboram outras investigações que comprovam as vantagens do exercício físico regular em todas as idades.

16/10/12

ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ATIVO

2012 foi designado pela União Europeia o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações. A noção de envelhecimento ativo refere-se à possibilidade de se envelhecer com saúde e autonomia, continuando a participar plenamente na sociedade enquanto cidadão ativo. Independentemente da idade, todos podem continuar a desempenhar um papel na sociedade e a usufruir de uma boa qualidade de vida. O desafio consiste em aproveitar da melhor forma o enorme potencial que cada um conserva até ao fim da vida.