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18/02/13

VACINAÇÃO E SAÚDE

Encontrei há dias um sítio com informação bem documentada e cientificamente credível acerca de algumas terapias alternativas. Chama-se Concept – Comunidade Céptica Portuguesa. Pode ler um artigo sobre “vacinas” homeopáticas, publicado recentemente neste sítio, aqui.

O Prof. António Vaz Carneiro, no vídeo seguinte, alerta para a importância de se vacinarem as crianças de acordo com o Plano Nacional de Vacinação e explica a relação infundada entre o autismo e a vacinação.


28/01/13

HOMEOPATIA: QUE VERDADE?


Edzart Ernst é um homem invulgar. Concluiu a licenciatura em Medicina em 1978 na Alemanha, seu país natal, e praticou a homeopatia durante alguns anos. Porém, a sua honestidade intelectual levou-o a investigar em profundidade a validade científica desta terapia alternativa. As suas conclusões são semelhantes às de centenas de estudos científicos realizados nas últimas décadas, que afirmam que os efeitos benéficos que alguns pacientes referem na sequência de tratamentos com produtos homeopáticos se baseiam exclusivamente no conhecido efeito placebo. Este efeito traduz a ação de um produto não ativo, do ponto de vista farmacológico, que em determinadas situações, em alguns doentes, produz um efeito real benéfico para a situação clínica em causa. Para isso contribuem diversos fatores, nomeadamente do foro psicológico, tais como a confiança do paciente no produto, a convicção do médico ou uma boa relação médico-paciente.
 
Ernst emigrou em 1993 para o Reino Unido e é Professor Emérito da cadeira de Complementary Medicine da Universidade de Exeter e um dos maiores especialistas mundiais sobre terapias alternativas. Todos os que se interessam por este tema deveriam visitar o seu blogue: http://edzardernst.com
 
O médico escritor português do século XIX Júlio Dinis alude num dos seus poemas (Similia Similibus) à “nova seita” e “novo sistema” que a homeopatia representava nessa época.

Nova seita proclamaram
De Esculápio os descendentes;
Dão vivas os boticários,
Estremecem os doentes.

Mas que achado! Os velhos médicos
Vêem o passado com mágoa;
Estes, de novo sistema,
Aquecem água com água.

O fogo apagam com fogo,
Dão vista aos cegos, cegando,
E até p'ra coroar a obra,
Curam da morte... matando.

24/10/11

TERAPIAS ALTERNATIVAS: O TRIUNFO DA ILUSÃO

As terapias alternativas têm vindo a aumentar de popularidade, nos últimos anos, à medida que a medicina científica ocidental se vai tornando mais tecnicista e impessoal. São também chamadas terapias holísticas, para realçar a sua alegada preocupação pelo ser humano como um todo (corpo, alma e espírito). Isto inclui muitas vezes um componente espiritual, geralmente baseado na filosofia religiosa de cada terapia particular. Ao contrário da medicina convencional, que se fundamenta em critérios lógicos e racionais, descobertos através de uma observação rigorosa e aplicação do método científico, os princípios em que se baseiam as terapias alternativas contrariam o senso comum, as leis da natureza e os conceitos subjacentes à ciência moderna.

Razões do Fenómeno
 
No nosso entender, são várias as razões que explicam a popularidade destas terapias. Por um lado, a reconhecida crise do Serviço Nacional de Saúde, caracterizada pela falta de recursos humanos e materiais para satisfazer as necessidades dos doentes. Esta situação conduz, entre outras coisas, ao aumento insustentável das listas de espera dos que pretendem uma consulta de especialidade, exames subsidiários ou que aguardam determinadas intervenções cirúrgicas nos Hospitais do Estado. Existe também uma gritante falta de privacidade na maior parte dos Serviços de Urgência e enfermarias dos Hospitais. Há muitas vezes falta de diálogo, quer com os pacientes quer com os seus familiares, em certa medida devido ao elevado número de doentes, não sendo explicada a situação clínica de forma adequada e compreensível. Na relação médico-doente, o contacto físico (uma palmadinha no ombro, um abraço amigo) é também pouco frequente, em parte devido ao desejo do médico manter alguma distância  emocional com o paciente.
Outros fatores incluem a existência de doenças crónicas ou incuráveis, para as quais a medicina convencional ainda não encontrou solução definitiva - não obstante os enormes progressos científicos das últimas décadas - a existência de efeitos laterais dos medicamentos, a iatrogenia de certos atos médicos, a maior divulgação nos media de casos de negligência médica, assim como a atração da população pelas filosofias orientais e pelo “natural”.
Na opinião do Prof. H. Gounelle de Pontanel, membro da Academia de Medicina Francesa, “a voga atual destas terapêuticas parece resultar de um certo mal-estar induzido  na  população  pela  rapidez  dos  progressos  científicos.  Esta situação abre caminho à charlatanice, a maior parte das vezes praticada por não médicos, hábeis na exploração da crendice pública e/ou do desespero resultante da patologia clínica de base”.

Algumas Virtudes

Apesar da validade científica dúbia das “medicinas" alternativas, os naturologistas têm a virtude de dedicarem, em média,  mais tempo aos seus pacientes que a maior parte dos médicos. Para muitos pacientes, a simpatia e disponibilidade do profissional de saúde são mais importantes que a sua preparação científica. Os naturologistas dão também grande importância ao contacto físico, de reconhecido valor terapêutico, o que pode levar as pessoas a sentirem-se melhor. Por outro lado, as explicações relativamente bizarras que transmitem aos pacientes e a confiança que transmitem na eficácia de determinado tratamento, a par de esquemas posológicos invulgares, ajudam a reforçar a crença nos pacientes do sucesso da terapêutica. Trata-se do conhecido efeito placebo.
Não nos podemos também esquecer que muitas maleitas de pouca importância, e por vezes algumas de maior gravidade, curam-se por si com o decorrer do tempo, sem qualquer intervenção médica.

Perigos Potenciais

Contudo, as terapias alternativas, embora muitas vezes sejam simplesmente inúteis e desnecessárias, podem ter consequências nefastas e mesmo fatais. Por um lado, podem mascarar o diagnóstico de determinada doença, atrasando ou impedindo o seu tratamento convencional, cientificamente comprovado. Podem também ter efeitos tóxicos e, muitas vezes, são perversamente dispendiosas. As terapias relacionadas com a filosofia “New Age” podem por vezes envolver práticas mágicas ou ocultas. Concordamos, assim, com a opinião do Professor J. Martins e Silva, antigo Diretor da Faculdade de Medicina de Lisboa, que refere que “as medicinas alternativas, no seu conjunto, constituem um risco potencial para a saúde das populações”.

Conclusão

A Ordem dos Médicos de Portugal e todas as organizações médicas representadas no Comité Permanente dos Médicos  Europeus “opõem-se em absoluto ao reconhecimento de métodos de diagnóstico ou de terapêutica de doentes e doenças, que não possuam a necessária validação científica”.
O crescimento explosivo das terapias alternativas desafia os médicos a exercerem a sua profissão com maior integridade e dedicação, na linha da tradição hipocrática, reconhecendo as suas limitações, mas procurando a solução mais adequada a todos os níveis para cada paciente. Só assim poderão contrariar as práticas primitivas, incongruentes e fraudulentas, da maior parte das terapias alternativas.

02/03/11

HOMEOPATIA: CURAR O MAL COM O MAL

O Prof. António Vaz Carneiro, Diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa, em entrevista recente à revista Visão, é categórico em afirmar não haver qualquer evidência científica da eficácia da homeopatia, apesar da popularidade destes pseudo-medicamentos. Pode ver essa entrevista aqui.

17/06/10

HOMEOPATIA: DO MITO À REALIDADE


Quando, em 1995, fui chamado a cumprir o Serviço Militar, na altura ainda obrigatório, aproveitei a interrupção laboral forçada para fazer uma pesquisa bibliográfica sobre a homeopatia. Desse estudo, realizado com espírito aberto e sem preconceitos, resultou o artigo que hoje publico, cuja versão integral com as respetivas referências bibliográficas poderá ser encontrada na revista Arquivos de Medicina (11: 59-61, 1997), onde foi originalmente publicado:

Na era do laser e da telemedicina, assistimos a um crescente interesse pelas chamadas medicinas alternativas, sendo a homeopatia uma das mais populares, embora relativamente desconhecida entre a classe médica. Pretendemos neste artigo fazer uma reflexão séria e isenta acerca desta prática, tendo em conta a aprovação, em Maio de 1995 (contrariando a posição defendida pela Ordem dos Médicos), do decreto-lei nº94/95, que legaliza a comercialização, no nosso país, de produtos homeopáticos para uso humano.
 
Curar o mal com o mal
 
A palavra “homeopatia” engloba duas palavras gregas - homoios (semelhante) e pathos (doença). A noção fundamental da prescrição homeopática encontra-se resumida no aforismo latino “similia similibus curantur”, da autoria do seu fundador (Samuel Hahnemann), que significa: “o semelhante cura o semelhante”. É o chamado princípio da similitude, segundo o qual uma substância capaz de, no seu estado natural, provocar determinados sintomas num indivíduo saudável pode tratar, quando usada em doses reduzidas, aqueles mesmos sintomas num indivíduo doente.
 
Vamos procurar explicar este princípio recorrendo a alguns exemplos. É do conhecimento geral que a cebola é irritante para os olhos. Em pessoas sensíveis, estes podem ficar congestionados, produzindo abundantes lágrimas. Sendo estas manifestações idênticas às que se verificam nas vulgares constipações, o extrato de cebola é utilizado na preparação de produtos homeopáticos usados no “tratamento” das constipações.
 
Um outro exemplo: O manuseamento frequente de gasolina ou outros derivados do petróleo pode ocasionar, em indivíduos suscetíveis, um eczema cutâneo irritativo. Assim sendo, o produto homeopático mais usado para “tratar” este tipo de afeções é, precisamente, a gasolina.
 
A maior parte das substâncias utilizadas no fabrico de produtos homeopáticos é proveniente de plantas, minerais, ou mesmo venenos (p. e. arsénico, veneno de serpente, etc.). Se muitas destas substâncias fossem usadas no seu estado natural provocariam a morte. Assim, um segundo princípio fundamental da homeopatia é o da infinitesimalidade ou das doses mínimas. Contrariando o senso comum, afirmam que toda a substância que, em dose ponderal, é capaz de provocar determinada sintomatologia no indivíduo são, pode tratar esses mesmos sintomas quando usada em doses infinitesimais. Por outras palavras, quanto mais diluída a substância original (chamada tintura-mãe), maior a sua atividade e eficácia.
 
Para a obtenção do produto final, procede-se à diluição da tintura-mãe, a partir da qual é retirado um volume e misturado com 99 volumes de solvente (água pura ou álcool), obtendo-se uma primeira diluição centesimal (1C), também chamada primeiro centesimal hahnemanniano ou 1CH. Desta diluição inicial é retirado novo volume e misturado novamente com 99 volumes de água, obtendo-se uma segunda diluição centesimal (2C), que representa 1/100 da precedente. E assim sucessivamente, durante 12, 30 ou mais vezes. Uma diluição 12C, frequentemente usada, representa a mistura de um mililitro da substância original com 100.000.000.000 mililitros de solvente. Alguns homeopatas vão ainda mais longe, usando diluições de 30C, preferidas pelo próprio Hahnemann.
 
Se a substância natural de base for insolúvel, procede-se à sua trituração em pó de lactose também na proporção de 1 para 100. Todas as diluições são intercaladas pela agitação ritmada e vigorosa da solução, tendo em vista a sua “dinamização” ou “potenciação”.
 
Após a nona diluição centesimal (9C), mesmo as análises mais delicadas, utilizando produtos radioativos, não permitem já detetar qualquer molécula da substância natural de base no produto homeopático final. Confrontados com os resultados dessas pesquisas da Organização Mundial de Saúde, os homeopatas argumentam que “o efeito curativo não é material, mas envolve um outro fator - a energia”, a que também chamam “força vital”, resultante da agitação vigorosa das soluções.
 
Para chegar a alguma conclusão acerca de qual o produto mais indicado para determinada situação, o homeopata regista todos os sintomas e queixas referidos pelo doente, mesmo os mais triviais e incongruentes, tais como a recente aversão a um alimento, um sonho repetitivo ou mesmo as esperanças do paciente quanto ao futuro. Recorre então ao receituário homeopático, de modo a encontrar uma substância que produza os “sintomas” que mais se assemelhem aos transmitidos pelo doente. No entanto, a duas pessoas com os mesmos sintomas poderão não ser prescritos os mesmos produtos, que poderão também variar de ano para ano, ainda que a doença seja a mesma. Isto porque a personalidade individual do paciente e seu estado de espírito, na altura da consulta, são considerados essenciais na determinação da substância mais eficaz.
 
Que verdade?
 
Até ao momento, não se encontrou qualquer evidência, cientificamente comprovada, do mecanismo de ação e eficácia da homeopatia. Os princípios em que se baseia contrariam o senso comum, as leis da natureza e os conceitos subjacentes à ciência moderna e à medicina convencional.
 
Refira-se, a este propósito, o veredicto da prestigiada Academia de Medicina Francesa, num relatório sobre as chamadas medicinas paralelas, feito a pedido do Ministério de Saúde desse país, em 1987. O Prof. H. Gounelle de Pontanel, sintetizando todos os estudos, realizados por especialistas de diferentes áreas, concluiu não terem sido encontradas quaisquer bases científicas válidas em favor da eficácia terapêutica dos produtos homeopáticos.
 
No ano anterior, a Associação Médica Britânica tinha já concluído que a única explicação plausível para o relativo sucesso, em algumas situações, dos produtos homeopáticos, se devia simplesmente ao chamado efeito placebo. Este efeito traduz a ação de um produto não ativo, do ponto de vista farmacológico, que em determinadas situações, em alguns doentes, produz um efeito real benéfico para a situação clínica em causa. Para isso contribuem diversos fatores, nomeadamente do foro psicológico, tais como a confiança do doente no produto, a convicção do médico ou uma boa relação médico-doente, assim como o próprio aspeto dos medicamentos ou um esquema posológico invulgar.
 
Vários estudos posteriores têm sido realizados e publicados em revistas médicas e científicas. Alguns deles, envolvendo homeopatas, concluíram ser a homeopatia terapêutica eventualmente eficaz de patologias como a febre dos fenos, asma ou diarreia aguda nas crianças. No entanto, estudos repetidos por outros autores em outros centros, não confirmaram os mesmos resultados favoráveis. A maioria das investigações têm sido inconclusivas ou negam claramente a eficácia da homeopatia no tratamento de diversas patologias. Algumas têm mesmo demonstrado que o recurso a esta forma de “medicina alternativa” pode ter consequências nefastas em patologias suscetíveis de tratamento médico ou cirúrgico, ao atrasar ou impedir uma atuação médica curativa eficaz, bem como pelo seu potencial tóxico.
 
Conclusões
 
Numa conferência da New York Academy of Sciences, ocorrida em Junho de 1995, várias dezenas de conceituados cientistas norte-americanos, apreensivos com o crescimento das “medicinas alternativas” e a atração das massas pelo esoterismo e irracional, fizeram a defesa da ciência contemporânea. Esta baseia-se em princípios racionais e interligados, descobertos através de uma observação rigorosa e aplicação do método científico.
 
A atuação dos fármacos convencionais é disso um exemplo bem característico. De um modo geral, conhecem-se os seus mecanismos de ação. Podem atuar em recetores específicos, modificar o transporte celular, atuar como inibidores enzimáticos, como substitutos de componentes endógenos em falta ou ainda como quelantes. Por outro lado, os efeitos farmacológicos dos medicamentos dependem das suas concentrações no seu local de ação. Dentro de certos limites, quanto maior for a sua concentração, maior o efeito farmacológico resultante.
 
A avaliação do efeito terapêutico dos fármacos não se pode basear apenas na experiência pessoal do médico, altamente falível e subjetiva, nem na acumulação de experiências individuais ao longo do tempo, mas deve ser o resultado de rigorosos ensaios clínicos repetidos, cientificamente controlados. Porém, muitos homeopatas afirmam que os efeitos dos seus produtos não podem ser objeto de investigação científica, alegando as características subjetivas da prescrição homeopática.
 
Em conclusão, a homeopatia é uma prática pseudocientífica que não resiste a uma avaliação séria, rigorosa e isenta, com base no método científico, não devendo nunca substituir uma correta prática médica. A legalização da comercialização de produtos homeopáticos, no nosso país, desde Maio de 1995, imposta por interesses puramente económicos, constitui um retrocesso face aos valores que estão na base da Medicina e Ciência modernas.