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17/07/14

PREVENÇÃO DO CANCRO

“Os diversos estudos que avaliaram os benefícios que se podem obter através de medidas de prevenção primária – e que se traduzem numa redução da incidência e/ou mortalidade por cancro – apontam quase todos para os ganhos quantitativos a seguir descritos.
 
Nas sociedades ocidentais, seria possível reduzir a ocorrência de cancro e a mortalidade a ele associada em cerca de 80-90 % através da adoção das seguintes medidas de prevenção: a) a eliminação do tabaco levaria a uma redução daqueles valores na ordem dos 30 %; b) a modificação do estilo de vida, com alteração substancial da dieta (maior consumo de vegetais e frutas, menor consumo de açúcar, carne vermelha e gorduras saturadas), combate ativo à obesidade e aumento da prática de exercício físico regular, conduziria a uma redução de 30-40 %; c) a eliminação do álcool, por seu turno, traduzir-se-ia numa redução de cerca de 10 %.
Estes estudos referem também, embora sem uma quantificação tão precisa, que a vacinação contra o HBV e o HPV, bem como a redução da exposição a carcinogéneos ambientais (p. ex. radiação solar e radiações ionizantes) e a carcinogéneos ocupacionais, permitiria alcançar uma redução da mortalidade por cancro da ordem dos 10 %.

Os 10-20 % restantes correspondem à susceptibilidade genética (cancros hereditários e cancros com elevada agregação familiar) e à influência de fatores individuais, em parte também geneticamente condicionados”.
Pequeno excerto do recente livro O Cancro, do Prof. Manuel Sobrinho Simões (pp. 89-90). Pode encomendar aqui.

07/07/14

A QUÍMICA DO DIA-A-DIA



Uma apresentação magistral, em língua inglesa, sobre o papel da química no dia-a-dia e, em particular, na alimentação humana. O Doutor Joe Schwarcz é  professor de Química na Universidade McGill em Montreal, no Canadá. É autor de vários livros sobre estes temas, um dos quais (O génio da Garrafa) foi publicado pela Gradiva em 2005.

02/07/14

MEDICINA E LITERATURA (3.ª parte)

Pelo que acabo de muito sucintamente expor, facilmente se entenderá que não concebo a relação entre Medicina e Literatura na base da eventual evasão ou do mero lazer (embora, claro, a leitura de textos literários faça parte para maioria dos seus tempos livres), nem tão pouco como uma espécie de complemento de erudição opcional e decorativa. O que está em jogo quando se cruzam estas duas áreas do conhecimento e respetivos quadros epistémicos e retóricos, é tão importante e complexo quanto a compreensão e representação da vida humana nas suas diferentes e complementares vertentes, pelo que não se deverá ficar por um simples voluntarismo de horas vagas ou de vagas afinidades.

De resto, o aturado estudo do Doutor Jorge Cruz a partir da obra de Edmund Pellegrino, mostra bem que não bastam nem ideias imprecisas, vulgo preconceitos, nem legislações muito sofisticadas - por muito bem intencionadas que umas e outras possam ser - para que estejamos perante uma Medicina radicada em valores humanistas e éticos.

Em primeiro lugar, importa que saibamos exatamente o que está em causa por detrás dos princípios, modelos e termos, expressos ou subjacentes a diferentes práticas de Medicina. Depois, importa ter em conta as dificuldades que se apresentam na passagem das teorias às práticas. Nesse sentido, enquanto leitora e cidadã, (e até agora pelo menos, pontualmente paciente ou familiar de pacientes), a explicitação do chamado “paradigma das virtudes” foi para mim muito esclarecedora. Não que eu não tivesse já intuído que um médico deverá ter certos traços de carácter como a prudência ou a justiça, mas o enquadramento e explicitação dessas e outras “virtudes” permitiu-me tomar consciência de diferentes pressupostos e consequências na formação dos médicos e no decurso do exercício da sua atividade; permitiu-me encontrar termos mais adequados e fundamentados para dirimir argumentos e para me envolver naquela pergunta que dá título ao livro de Jorge Cruz - “Que médicos queremos?” - fazendo-o não de uma forma mais ou menos emotiva e volátil, como tantas vezes se assiste na praça pública, mas de um modo mais consciente e consistente.

Julgo que este acesso às palavras adequadas (como aquelas a que a Literatura também tantas vezes dá acesso), esta consciência de valores estruturantes de uma prática tão nobre como a prática médica, pode vir a reunir quer pacientes e sociedade em geral num propósito comum traduzível no completar do título com o verbo ter - “que médicos queremos ter?” –, quer aqueles que, pelas suas funções, a completarão com o verbo ser – “que médicos queremos ser?”. Parece-me evidente que só quando houver, ou sempre que houver, essa conjunção de vontades e de expetativas, existirá uma verdadeira relação clínica em prol do humano. Tanto da humanidade do paciente como da humanidade do médico.

Prof. Doutora Ana Paula Coutinho
Professora Associada do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorada em Literatura Comparada. 

01/07/14

MEDICINA E LITERATURA (2.ª parte)

Num tempo tão paradoxal como aquele que nos está a ser dado viver, tanto se assiste a uma desvalorização das Humanidades, desde logo em termos curriculares nos diferentes níveis de ensino, desinteresse sumariamente sustentado na sua fraca rentabilidade ou empregabilidade nas sociedades contemporâneas, como se depara também com a chamada de atenção, em várias frentes, para a urgência de complementar as formações cada vez mais específicas e tecnológicas com uma formação humanista, no sentido mais abrangente, nobre e consistente do termo, que colmate graves lacunas de formação noutras áreas culturais como a Filosofia, a História, as Línguas, a Literatura e/ou outras expressões artísticas.

Algumas universidades – e desde logo universidades estrangeiras consideradas de topo, mas também entre nós, registe-se, a Universidade do Minho, com os chamados “domínios verticais” no seu curso de Medicina - têm apostado nessa associação de saberes que se não é de modo nenhum nova, aponta para um paradigma outro de conhecimento, onde o grande desafio não é (ou não deverá ser) a simples adição de informações, mas sim a pesquisa e o ensaio cada vez mais sólidos da articulação complementar de saberes com um propósito comum e nuclear: o conhecimento e a preservação do mundo, da vida ou da criação em todas as suas formas.

Assim, em boa hora, seguindo a lógica do próprio pensamento de Edmund Pellegrino, o Doutor Jorge Cruz dedicou os últimos capítulos do seu livro Que médicos queremos? às temáticas da “Medicina e Humanidades” e da “Relação médico-paciente na Literatura”.

Se é verdade que a Medicina é a mais humanista das ciências e a mais científica das humanidades, como defende Pellegrino (note-se, aliás, que o radical indo-europeu “med-“, que significa cuidar, é comum à palavra meditação, ou ao verbo meditar), importa defender a inclusão das Humanidades na formação dos estudantes de Medicina, como o fez Pellegrino, médico e pioneiro da Bioética. E eu diria até mais: essa formação inclusiva deveria acontecer não apenas na formação inicial dos médicos como na sua formação (obrigatória) ao longo da vida, (co)respondendo assim à consideração tão sábia quanto oportuna do conhecido médico português, escritor e pintor, Abel Salazar: “ o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”.

Correndo o risco de ser a este nível suspeita, não posso deixar de sublinhar a importância da Literatura nessa formação humanística dos médicos, uma vez que ela representa já, em si mesma, um vasto domínio onde confluem muitos outros saberes, por vezes também de natureza científica, e onde são trabalhadas as grandes questões existenciais que ocupam e atravessam igualmente outras áreas do conhecimento.

Quando se pensa nas relações entre Medicina e Literatura, imediatamente vêm à ideia os muitos casos de médicos-escritores, não só ao longo dos tempos, como em diferentes quadrantes geográficos e culturais, facto esse que levou à fundação, em 1959, da Union Mondiale des Écrivains-Médecins. A existência de tantos casos de complementaridade de ação ou de “identidade dupla” é já em si mesma bastante sintomática, supondo por conseguinte várias afinidades entre esses dois tipos de “intérpretes de signos”, cuja observação radica e se transforma em narrativa.

No entanto, de modo nenhum o estudo desses exemplos de “identidade dupla” esgota as virtualidades das relações entre Medicina e Literatura. Que puderam (ou podem) aproveitar todos os restantes - os que são médicos e que não são escritores, os que não são nem uma coisa nem outra, mas que um dia já foram ou serão doentes - do contacto com a Literatura e até muito em especial do contacto com a Literatura atravessada pelos universos da Medicina e da doença? Eu diria que uns e outros têm a ganhar com a leitura e a análise dos textos literários (tanto contemporâneos como antigos), na medida em que eles preparam (ou podem preparar) para a observação, para a interpretação, para a reflexão e para a comunicação, em suma, para o reconhecimento e uso cada vez mais ajustado das palavras, não exatamente, claro, de termos científicos, mas das palavras que concorrem para discursos de reflexão e de comunhão; palavras que ressoam conhecimento do passado, que se adaptam ao presente e que imaginam futuro.

Muitas vezes se tem justificado alguma manifesta deterioração da relação médico-paciente com a falta de tempo, com o excesso de burocracia e com o aumento exponencial de exames complementares de diagnóstico. Sabemos bem que essas são razões muito verídicas, mas convir-se-á que, por vezes, existe também, ou quiçá sobretudo, uma falta de sensibilidade ou de compreensão por parte dos médicos (bem como de outros profissionais de saúde) das múltiplas formas de que se revestem o sofrimento, a doença, a angústia, o desespero ou a morte. Por outras palavras, existe incompreensão perante tentativas indiretas do dizer ou mesmo de silêncios na declaração de doença por parte do próprio doente, o que tantas vezes compromete irremediavelmente a sintonia na relação fundadora do encontro entre médico e paciente, e que é, ela própria, ocasião de biografia.

Quer isto dizer que existindo, por parte do médico e/ou de outros profissionais da saúde, falhas no conhecimento do humano – um conhecimento que extravasa de tabelas e nomenclaturas anatómicas ou fisiológicas - instala-se já aí uma incapacidade de comunicação porque incapaz de aceder a uma efetiva individuação. Ora, esta individuação é fundamental para o diagnóstico, prognóstico e terapêutica, concebidos não só em si mesmo, ou seja, em abstrato, mas sobretudo adaptados a uma relação com um outro específico, aberta à singularidade do seu rosto, da sua linguagem verbal e corporal, portanto resistente a (se não mesmo incompatível com) consultas no mundo virtual ou à chamada e-medicina

O convívio com a boa Literatura, portuguesa ou estrangeira, e chamo aqui boa Literatura àquela que se foi mostrando ao longo dos tempos exigente do ponto de vista estético, isto é, do trabalho com a linguagem, não exatamente apenas com a linguagem como um valor em si mesma, mas enquanto meio de representação e construção da densidade antropológica e de questionação do mundo, esse convívio - dizia - não significa um mero conhecimento livresco, como muitas vezes é pejorativamente apontado, mas confere ao leitor (ou pode conferir, se a leitura for aprofundada pela suscitação e discussão de questões antropológicas, filosóficas, estéticas, históricas ou mesmo religiosas) uma experiência maturada de vida.

Através de processos de exposição e de identificação, a leitura de textos literários constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento dessa experiência refletida, fazendo com que cada um, e no caso concreto, cada médico se torne mais humano, no sentido em que o humano é um processo sempre em aberto. Com efeito, nunca será demais lembrar que mais do que nascermos humanos, vamo-nos tornando humanos.
  
Prof. Doutora Ana Paula Coutinho

30/06/14

MEDICINA E LITERATURA (1.ª parte)

O seguinte texto, escrito pela Professora Ana Paula Coutinho a propósito do lançamento do meu livro Que Médicos Queremos? – Uma abordagem a partir de Edmund D. Pellegrino, foi agora publicado na revista Mirabilia Medicinae (2:70-76, 2014):

Quando, há uns meses atrás, o Doutor Jorge Cruz teve a amabilidade de me contactar a pretexto da alegada revisão linguística do seu livro Que médicos queremos?, a leitura das suas páginas, redigidas de forma clara e concisa, num estilo acessível a um público alargado, embora sem concessões a um qualquer simplismo didático-comercial, logo me tornou evidente que a razão mais importante desse seu ato de confiança tinha outro nome, a saber: a Literatura na sua relação com a Medicina, ou vice-versa.

Foi no contexto do Curso de Doutoramento em Bioética na Universidade Católica que tive a oportunidade de conhecer o Doutor Jorge Cruz, tal como outros profissionais da saúde que constituíam a maioria dos participantes da pós-graduação. Fora com grande satisfação que tomara conhecimento do propósito da Direção desse Curso, promovido pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica, em integrar um módulo de reflexão a partir de textos literários, em cuja componente letiva viria a ter o privilégio de colaborar num módulo sobre a representação da doença, e da morte em particular. Para mim, não se tratava de uma mera questão de orgulho pessoal (como continua a não ser), ver reconhecida aquela que é a minha área de formação e de trabalho.
 
Na realidade, estava e está em causa algo muito mais forte do que isso: uma arreigada convicção da necessidade de intervenção do cruzamento de áreas de conhecimento que foram sendo afastadas entre si por interesses vários, e que a evolução histórica da sociedade como do conhecimento tanto explica como nos obriga a relativizar e a questionar, justamente porque nos leva a ver que a confluência dos saberes não só esteve na origem do conhecimento humano, como também o acompanhou durante muitos e muitos séculos.

Vindo eu do domínio da Literatura Comparada, entendida esta como área de investigação e ensino das relações entre a Literatura e outros discursos epistemológicos ou artísticos, a relação entre Literatura e Medicina impõe-se-me antes de mais como uma evidência histórica, inscrita já nos textos da Antiguidade Clássica, raízes de todo o nosso conhecimento e cultura ocidentais, onde ressalta a profunda afeição ao conhecimento ou à chamada filosofia, atravessada por saberes de medicina, botânica, astrologia, retórica ou poesia, entre outras formas de abordagem do Homem e do mundo que o rodeia.

Essa, digamos, convivência de saberes que virá a conhecer ainda como ícone o Homem do Renascimento ou genericamente conhecido como “Humanista” (e que, já agora, deu origem a uma fascinante personagem, Zenão, no inesquecível romance de Marguerite Yourcenar A Obra ao Negro), essa estreita convivência, dizia, viria a sofrer um golpe profundo com a divisão entre Ciências e Humanidades que se consuma, sobretudo, a partir do século XVIII, em grande medida por influência da chamada Filosofia das Luzes.

Os séculos seguintes encarregar-se-iam de cavar ainda mais essa separação de águas, desenhando “ilhas” e “ilhotas” disciplinares em cada um dos caudais (se me é permitido continuar com essa alegoria topográfica), criando especializações cada vez mais restritas, onde a celebração de um saber mais específico e aprofundado se tem tantas vezes perigosamente confundido com uma delimitação possessiva de território, ou seja, com a sinalização de mais um pequeno domínio de poder…

Chegados que estamos a um novo século e a um novo milénio, passada que está, aliás, a sua primeira década, vão crescendo os sinais e as vozes que apontam para a necessidade de rever este divórcio secular entre Ciências, umas chamadas “exatas” ou “duras”, outras “sociais” e “humanas” (e quanto haveria aqui a acrescentar sobre os pressupostos desses qualificativos!), sendo este segundo grupo aquele que engloba áreas e disciplinas anteriormente designadas como “Humanidades”.

Prof. Doutora Ana Paula Coutinho
Professora Associada do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorada em Literatura Comparada. 

23/06/14

MEDICINA E HUMANIDADES

O texto seguinte foi escrito pelo Professor Silveira de Brito a propósito do lançamento do meu livro Que Médicos Queremos? – Uma abordagem apartir de Edmund D. Pellegrino (Almedina, 2012). Foi agora publicado na prestigiada revista da Universitat Autónoma de Barcelona Mirabilia Medicinae (2:77-80, 2014):
 
Até ao século XVII as pessoas cultas tinham um domínio dos diversos saberes que ia da Filosofia e Teologia a todas as ciências. Homens como Platão, Aristóteles, Averróis, Tomás de Aquino e mesmos os pensadores da escolástica tardia espanhola, por exemplo Francisco de Vitoria, Francisco Suárez, e, em geral, os pensadores da Escola de Salamanca, discutiam todas as matérias porque dominavam todo o saber, Filosofia, Teologia, Direito, Economia, Política, etc. Nesses tempos não havia a distinção entre letras e ciências e, por isso, no início da Idade Moderna, Descartes tanto estudava anatomia como discutia os problemas mais intrincados de Filosofia e Teologia.

O último grande espírito enciclopédico, no genuíno sentido do termo, foi Blaise Pascal. Dominava as ciências, quer as hoje chamadas ciências formais, como a Matemática, quer as empírico-formais, como a Física, quer as questões filosóficas e teológicas. No século XVIII já não encontramos intelectuais tão enciclopédicos, embora tenhamos que reconhecer que os grandes filósofos, os que deixaram obra verdadeiramente importante para a História da Filosofia, sabiam imenso de ciências, como foi o caso de Immanuel Kant, professor em Königsberg, que, sendo filósofo, também ensinava a Física de Newton.

A separação entre letras e ciências, iniciada nos séculos XVII e XVIII, foi extremamente empobrecedora para as duas áreas. E o que se verificou na evolução do conhecimento foi que a lógica que preside à evolução das ciências, sendo de uma natureza muito própria – é um pensamento que assume uma racionalidade científica, isto é técnico-experimental, axiologicamente neutra – permitiu um avanço imenso neste tipo de conhecimentos. Unanimemente consideramos que sabemos hoje muitíssimo mais que há 50 anos e enormemente mais do que há dois séculos. Pelo contrário em Filosofia – pensamento que procura o sentido e a razão de ser do que se pensa e faz –, o progresso não é evidente e, como escreveu Karl Jaspers, médico e filósofo alemão, no seu livro Iniciação Filosófica, não sabemos se estamos mais adiantados ou mais atrasados do que Platão ou Aristóteles, o que origina a grande tentação de importar para a Filosofia o tipo de raciocínio das ciências, na esperança enganadora de assim se alcançar um pensamento mais seguro de si e que progrida.

Esta distinção entre letras e ciências teve implicações na preparação dos médicos e outros profissionais de saúde. A investigação e o ensino da medicina centraram-se na doença e acabou por se perder um pouco de vista a pessoa doente, e isto de um modo especial com os progressos verificados na segunda parte do século passado. Dantes os meios de diagnóstico e a capacidade de tratamento de que a medicina dispunha eram reduzidos. A prática profissional exigia olhar o doente, ler nele os sinais e esse olhar evitava, porventura, que a atenção se concentrasse apenas na doença. Hoje, o recurso à parafernália de meios auxiliares de diagnóstico à disposição, leva os médicos a lerem atentamente análises, relatórios baseados em dados obtidos por meios que a tecnologia pôs à disposição, o que muitas vezes tem como consequência que o doente/utente enquanto pessoa, fica um pouco esquecido, se não mesmo ignorado. Temos aqui, provavelmente, a principal causa da desumanização dos cuidados de saúde: olha-se para as doenças e seus sintomas e esquecem-se os doentes.

Em meu entender, a primeira grande virtude do livro do Doutor Jorge Cruz, é que, na companhia de Edmund Pellegrino, mostra como não se pode separar a prática da Medicina do estudo da Filosofia, isto é da reflexão filosófica sobre o sentido do humano, humano de que faz parte a Medicina. Só se pode exercer Medicina digna desse nome se temos uma Filosofia da Medicina. Durante os seus estudos de Medicina, Pellegrino estudou, durante quatro anos, Filosofia e Teologia, matérias que faziam parte do programa de licenciatura, o que o preparou de um modo privilegiado para o estudo e exercício da Medicina. Sem uma antropologia filosófica como referência última do agir, não se exerce medicina digna desse nome, porque esta deve estar ao serviço do ser humano. Se não sabemos o que é o ser humano, questão filosófica, como podemos     tratá-lo? Como disse o Professor Abel Salazar: “O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe!”.

A segunda grande virtude do livro é ser uma reflexão profunda sobre a ética dos profissionais da saúde. O autor não se fica, como acontece em muita Bioética que se ensina nas nossas escolas de medicina, por enunciar princípios éticos. Dão-se cursos intermináveis sobre os quatro princípios que devem estar presentes na relação médico/ doente-utente – autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça –, discutem-se os conflitos que podem surgir na aplicação desses princípios, mas esquece-se o fundamental: os princípios têm que ser vividos e não apenas estudados. Como já dizia Aristóteles: em Ética não chega saber; em Ética deve-se saber para viver. Diz-se que os princípios devem ser respeitados, porque só assim se respeita a dignidade humana, valor que deve pautar a atividade clínica.

Mas a vivência dos valores significa a sua interiorização, significa adquirir aquelas qualidades de carácter que levam o ser humano à procura habitual do bem; isto é, numa linguagem rigorosa, mas que hoje fere alguns ouvidos, na sua vivência o profissional deve praticar habitualmente o bem, isto é, deve ser virtuoso. As grandes declarações de princípios só têm interesse se forem levadas à prática e praticar os grandes princípios é, na linha já defendida por Aristóteles, na sua Ética a Nicómaco, praticar a areté, termo grego que significa virtude. Praticar as virtudes é praticar as excelências que distinguem, no ser humano, aquele que procura caminhar para a perfeição, daquele que não a procura.

E o que o Doutor Jorge Cruz faz no seu livro é apresentar uma bioética das virtudes, bioética essa indispensável para que a atividade do profissional de saúde não perca o sentido do humano, para que a atividade clínica não degenere numa atividade mercantil, embora também não se possa esquecer a dimensão económica que também tem e o prestígio social que dá.

Em síntese, hoje a atividade profissional dos médicos corre dois riscos: ser dominada por um neopositivismo que tudo sacrifica no altar da ciência, ou reduzir-se a mero mercantilismo, reduzindo a ser humano ao homo economicus.

O livro do Doutor Jorge Cruz leva-nos a descobrir que a atividade médica é humana: pauta-se pela vivência da dignidade humana, dignidade humana dos que tratam e dos que são tratados. Se a leitura do livro Que médicos queremos? levar os profissionais de saúde a viverem os valores humanos próprios dos profissionais de saúde, este livro, em minha opinião, terá feito tanto pela medicina portuguesa como todo o desenvolvimento técnico-científico que a tem acompanhado. Por tudo o que acabo de dizer, considero importantíssimo que os médicos, e os profissionais de saúde em geral, leiam este excelente livro.
 
Prof. Doutor José Henrique Silveira de Brito
Professor Associado com Agregação na Universidade Católica Portuguesa (Braga). Doutorado em Filosofia.

19/05/14

O ABAFADOR

 
Em algumas culturas, havia o costume pagão de acelerar a morte de pessoas com doenças graves supostamente incuráveis, por meio do estrangulamento ou da sufocação. Miguel Torga, no seu livro Novos Contos da Montanha, apresenta a personagem Alma Grande, também chamado de pai da morte ou abafador, que existia em algumas aldeias rurais de Portugal.
  
“Entrava, atravessava impávido e silencioso a multidão que há três dias, na sala, esperava impaciente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e pouco depois saía com uma paz no rosto pelo menos igual à que tinha deixado ao morto.” (M. Torga, «O Alma Grande», Contos. Lisboa: Dom Quixote, 2001)
  
Contudo, como este conto retrata de forma magistral, nem sempre as doenças eram fatais. Lemos mais à frente nesta narrativa: “o Alma Grande olhara pela primeira vez a escuridão do seu poço”.
  
Matar, mesmo por motivos altruístas, não dignifica ninguém.

30/04/14

O VOLUNTÁRIO DE AUSCHWITZ

Witold Pilecki, capitão do Exército do Estado clandestino polaco, fez algo que mais ninguém teve a coragem de repetir: voluntariar-se para ser preso em Auschwitz, o mais violento e mortífero campo de concentração nazi, e, dessa forma, relatar os horrores ali praticados pelo Terceiro Reich.

A missão, realizada entre 1940 e 1943, tinha dois objetivos: informar os Aliados sobre as práticas nazis nos seus campos de concentração, dos quais se conheciam, então, apenas algumas informações esparsas, mas muito preocupantes; e organizar os prisioneiros em grupos de resistência contra as forças alemãs, na tentativa de controlar o campo. Sobrevivendo a muito custo a quase três anos de fome, doença e brutalidade, Pilecki foi bem-sucedido na sua missão, conseguindo evadir-se do campo de concentração em abril de 1943.

O Voluntário de Auschwitz é o relatório mais extenso do capitão Witold Pilecki, completado em 1945, no exílio. Escondido pela ditadura comunista na Polónia durante mais de 40 anos, este documento único na história e na literatura sobre Auschwitz, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto é agora publicado pela primeira vez em português.


20/03/14

A SAÚDE NA PINTURA


Alfredo Roque Gameiro foi um pintor e ilustrador português, especializado na arte da aguarela. Nasceu em 1864 em Minde, no concelho de Alcanena, e faleceu em 1935 em Lisboa. Estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Manuel de Macedo, Enrique Casanova e José Simões d’Almeida. Frequentou de 1893 a 1895 a Escola de Artes e Ofícios de Leipzig, como bolseiro do Estado português. De regresso a Portugal, assumiu a Direcção artística da Companhia Nacional Editora e posteriormente exerceu actividade docente na Escola Industrial do Príncipe Real. Considerado “Mestre insigne da aguarela”, deixou um vasto legado de obras de grande beleza e requinte, tendo obtido diversos prémios e distinções, nacionais e internacionais.
 
Iniciou a sua actividade como ilustrador em 1888, pintando ao longo da sua vida inúmeras aguarelas para diversas publicações, tanto de carácter histórico e etnográfico como literárias. A maior parte do seu espólio encontra-se no Museu de Aguarela Roque Gameiro, que inclui obras do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em depósito.
 
 “Este cavalheiro era João Semana” é uma das várias aguarelas que Roque Gameiro concebeu, entre 1904 e 1905, para ilustração do romance de Júlio Dinis As Pupilas do Senhor Reitor. Representa, de forma realista, a personagem João Semana, médico de aldeia, montado no seu inseparável ginete, que até meados do século XX era o meio de locomoção privilegiado dos médicos que exerciam clínica no meio rural, nas frequentes visitas domiciliárias.
 
Júlio Dinis, pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), concluiu o curso de Medicina com distinção em 1861 na Escola Médico-Cirúrgica do Porto e integrou o corpo docente desta instituição a partir de 1865. A tuberculose pulmonar de que padecia desde a juventude (teve a primeira hemoptise no 2.º ano do curso), foi responsável pela sua morte prematura aos 31 anos. A doença levou-o a procurar climas mais propícios ao repouso e convalescença. Deslocou-se algumas vezes por esse motivo à vila de Ovar, donde era natural seu pai, e ao Funchal, escrevendo algumas das suas obras durante os curtos períodos em que permaneceu nestes locais. É considerado um dos maiores romancistas da literatura portuguesa do século XIX.
 
Egas Moniz, no seu livro notável Júlio Dinis e a sua obra, identificou em Ovar as gentes e os lugares que terão servido de inspiração para As Pupilas do Senhor Reitor, o primeiro romance publicado do escritor. Para o distinto professor, “o João Semana das Pupilas é o retrato fiel do cirurgião João José da Silveira, que, ao tempo da estadia de Júlio Dinis em Ovar, exercia a profissão médica com grande sucesso, naquela região”. Segundo Egas Moniz, o Dr. Silveira “era um clínico dedicado aos seus doentes como mais se não podia ser. Fosse a que hora fosse, em noite tempestuosa de inverno, ou à hora dos frugais repastos, estava sempre pronto a interromper o sono reparador ou a refeição principiada para acudir às chamadas dos doentes”.
 
Maria José Oliveira Monteiro, em Júlio Dinis e o enigma da sua vida, considera que muitas figuras das obras dinisianas correspondem a pessoas reais da povoação de Grijó, onde o escritor passou grande parte da infância, após o falecimento da sua mãe, também vítima de tuberculose. Na opinião da autora, o celebrado João Semana apresenta afinidades com o Dr. Joaquim Silvestre Correia da Silva, estimado pela população local pela sua personalidade alegre e divertida, bem como pelo seu carácter de benfeitor dos mais desfavorecidos. Nas suas palavras, “sendo o único cirurgião formado de mais saber e fama que nesta época existia em Grijó e imediações, podia ter adquirido boa fortuna num tempo em que os médicos eram raros, porém era um mãos largas para todos, e à maior parte do povo não levava dinheiro nem avença”.
 
Seja como for, o que parece seguro é que a personagem João Semana, uma das mais conhecidas e apreciadas de toda a obra do escritor, não representa um ideal utópico e irrealista, mas foi concebida a partir de clínicos reais inteiramente dedicados ao serviço dos doentes. Numa época em que o tratamento da maioria das enfermidades era muito elementar e pouco eficaz, era ainda mais pertinente o aforismo dos médicos franceses Bérard e Gubler, “curar por vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre”.
 
João Semana reúne as virtudes da generosidade, altruísmo, beneficência e sentido de humor, essenciais na relação médico-doente ao longo da história da humanidade. Tal atitude contrasta com a de alguns clínicos, denunciada em outros clássicos da literatura, de paternalismo arrogante, avidez pelos bens materiais, competição feroz ou ambição desmesurada pelo poder e influência, que tem levado alguns profissionais a sacrificarem a nobre vocação médica no altar da fama, do lucro ou do poder.
 
A humanização dos serviços de saúde requer que os profissionais estejam conscientes da importância fundamental de virtudes como a empatia, o cuidado, a beneficência ou o altruísmo, na relação assistencial médico-doente.
 
A personagem João Semana, retratada nesta aguarela, representa uma justa homenagem a todos os clínicos portugueses que, ao longo dos tempos, consideraram o serviço dedicado aos doentes a razão suprema da sua profissão.
 
(Este artigo foi publicado na 1.º edição de 2014 da Acta Médica Portuguesa, a Revista Científica da Ordem dos Médicos. A versão original, com as referências bibliográficas, pode ser obtida aqui).

17/02/14

MAIS VALE PREVENIR…

O Dr. David Agus, oncologista e autor do livro O Fim da Doença (Pergaminho, 2013) recomenda 10 formas de reduzir o risco de desenvolver uma doença grave como o cancro ou a demência:
 
1. Consuma alimentos naturais.
2. Evite tomar vitaminas e suplementos.
3. Fale com o seu médico sobre a necessidade de tomar aspirina e estatinas.
4. Participe em programas de rastreio de cancro.
5. Faça exercício regularmente e movimente-se ao longo do dia.
6. Mantenha um índice de massa corporal baixo.
7. Evite o tabaco.
8. Evite a exposição solar direta sem um protetor solar.
9. Evite fontes de inflamação.
10. Tome anualmente a vacina da gripe.
 
Já dizia o médico português Pedro Hispano (1215-1277) no seu Livro Sobre a Conservação da Saúde, “que é mais útil prevenir as doenças do que, uma vez contraídas, andar a pedir um auxílio, que provavelmente é impossível”.

05/02/14

A ATIVIDADE FÍSICA DEVE SER UM HÁBITO DIÁRIO


O Professor Manuel Carrageta, distinto cardiologista português e autor do livro Como Ter um Coração Saudável, refere que “se os benefícios do exercício pudessem ser vendidos sob a forma de comprimidos, a atividade física seria hoje certamente o medicamento mais prescrito pelos médicos” (p. 29). Como isso não é possível, devemos seguir as suas importantes sugestões de tornar a atividade física um hábito diário (p. 97):
 
Em vez de conduzir o automóvel, faça a pé os percursos mais pequenos.
Suba e desça as escadas em vez de tomar o elevador, sobretudo quando se trata de um a dois andares.
Desça do autocarro ou do metro uma estação antes do destino e complete o percurso a pé.
Quando for às compras, estacione o carro num lugar distante do parque.
Quando for possível, vá almoçar ou jantar a pé.
Faça um intervalo para exercício, em vez de intervalo para café.
Faça passeios a pé com a família ou os amigos.

09/08/13

A VIDA É UM BEM SUPREMO

“A vida é um bem supremo: porque o encanto dela reside no seu princípio mesmo, e não na abundância das suas manifestações”.

 Eça de Queirós (1845-1900), in O Mandarim

29/10/12

QUERO SER MÉDICO


Não conheço o Dr. João Magalhães, autor deste livro, mas felicito-o pela feliz e oportuna iniciativa de escrever este pequeno guia prático, de grande utilidade para os jovens portugueses que ponderam escolher a Medicina como sua futura profissão.
 
Aprecio também a forma como o autor responde à pergunta “que tipo de pessoa é um bom médico?” (p. 25):
 «Um bom médico é um bom comunicador e tem a capacidade de escutar com atenção os seus doentes. É uma pessoa com empatia e com a preocupação de informar os doentes, adequadamente, sobre o diagnóstico e tratamento da(s) doença(s) em causa, assegurando-se que os doentes entendem o que lhes foi comunicado.
Um bom médico é uma pessoa altruísta e, consequentemente, está sempre disposto a pôr as necessidades dos seus doentes em primeiro lugar.
Um bom médico tem um bom sentido de serviço (de saber servir com gosto e com vontade). Preocupa-se sempre em ajudar os outros a sentirem-se melhores e em aperfeiçoar o serviço de saúde prestado.
Acima de tudo, um bom médico tem um forte sentido de profissionalismo. Estima a sua honra e integridade, comprometendo-se a manter os valores eternos da Medicina».

01/10/12

QUE MÉDICOS QUEREMOS?

No sábado passado, realizou-se uma sessão de lançamento do meu livro “Que Médicos Queremos? Uma abordagem a partir de Edmund D. Pellegrino” na Universidade do Minho, integrada no 17.º Congresso Nacional de Medicina Geral e Familiar. A obra foi apresentada pelos Professores Daniel Serrão, Silveira de Brito e Ana Paula Coutinho, tendo a sessão sido moderada pelo Dr. João Sequeira Carlos, Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.
 

 
Partilho hoje alguns extratos do prefácio, da autoria do Prof. Daniel Serrão:

“Vejo este livro de Jorge Cruz  como um esforço do seu Autor para ajudar os Cidadãos  a pensarem na resposta à questão sobre qual o tipo de médico que querem ter à sua volta quando a doença lhes bater à porta.
Jorge Cruz não se apresenta sozinho a realizar esta tarefa de ajudar os Cidadãos a construírem, cada um na sua cultura e na sua inteligência, o tipo de médicos que realmente querem que exista e ao qual possam, um dia, recorrer. Escolheu um bom companheiro de jornada na pessoa do grande internista americano, Edmund Daniel Pellegrino, cuja obra científica, profissional e humanista estudou e discutiu com invulgar sagacidade noutra obra.
Jorge Cruz reconhece, a abrir a sua exposição, que sempre houve uma reflexão filosófica sobre a natureza da medicina como relação privilegiada entre duas pessoas. Sendo um diálogo interpessoal, a prática de acolher e ajudar o outro tem de ocorrer, sempre, em contexto ético. Não é um mero exercício profissional apenas técnico; é técnico, mas é, necessariamente, ético. E esta é, para Jorge Cruz, a marca indelével da medicina, que, por isso, coloca ao médico responsabilidades particulares que ele terá de saber assumir.
E assumir estas responsabilidades é, para Jorge Cruz, comportar-se como um ser humano virtuoso.
Reconhece, contudo, que não é fácil elencar as virtudes que o médico deve possuir como estruturantes da sua atividade profissional. Até porque há um hiato entre virtudes pessoais e comportamento virtuoso.
Apoiado em Pellegrino, desenvolve o conteúdo das oito virtudes mais substantivas do médico como profissional. O capítulo V, onde é apresentado este tema é, a meu ver, uma espécie de código ético ao qual os leitores médicos terão o maior benefício em recorrer quando tenham de decidir em situações mais delicadas.
E onde os Cidadãos encontrarão o fundamento para responderem à questão inicial: que médicos querem eles, cidadãos, para serem seus cuidadores quando se sentirem doentes?
A resposta está neste livro: querem os que forem portadores das oito virtudes cardeais e as usem quando decidem sobre a pessoa doente que se entrega aos seus cuidados.
 
Jorge Cruz trata, ainda, de um aspeto, complementar mas importante, como é o do ensino das virtudes nas Escolas de Medicina. Salienta as dificuldades que este ensino defronta porque, a seu ver, e bem, o melhor ensino das virtudes é o da experiência de observar comportamentos virtuosos por parte dos profissionais em ação. Mas não é pessimista quanto à possibilidade de formalizar este ensino no quadro de um ensino das humanidades.
O tema das humanidades, que comenta na parte final deste seu livro, é pretexto para forragear em Pellegrino e colher ensinamentos que transmite com assinalável clareza. Sem esquecer que, no novo ensino médico praticado na Universidade do Minho, as humanidades têm já expressão curricular, por inspiração do saudoso Professor Joaquim Pinto Machado.
Em síntese, digo que este livro de Jorge Cruz aborda um tema da maior atualidade, como é o da formação do médico para a modernidade, e o seu conteúdo não interessa apenas aos profissionais de saúde mas a quantos, e somos todos, os que  virão um dia  a recorrer aos médicos como cuidadores da doença e promotores da saúde”.

02/07/12

RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE NA LITERATURA

Escrevi o artigo “A relação médico-paciente em algumas obras literárias”, publicado na edição atual da Revista da Associação Médica Brasileira. Poderá ser lido aqui.

I’ve written the paper “The doctor-patient relationship in selected literary works”. It was published on the current edition of Revista da Associação Médica Brasileira. Click here to read the paper.

16/04/12

SORRIR COM MEIA CARA NÃO BASTA

A Drª Rosalind Simpson, uma das principais formadoras da PRIME, escreveu o seguinte texto sobre a virtude da compaixão na prestação dos cuidados de saúde.

A Smile on One Side of his Face

Having worked in Russia recently I have become very interested in the wealth of Russian literature about medicine. In one of Chekhov’s medical tales, called ‘A Nervous Breakdown’, he describes an intense experience by a young law student with his friends. They observe and feel a situation of depravity, poverty and in particular poverty of spirit with vulnerable people being abused. He is so affected by this unexpectedly heart-rending experience that he empathises very strongly with the situation and has a personal and spiritual crisis, which showed itself in abject physical distress.

Chekhov writes, “It was clear to him that everything that is called human dignity, personal rights, the Divine Image and semblance, were defiled to their very foundations …”. He encouraged his imagination to picture himself as part of the scene he had witnessed, and it moved him to horror. Vassilyev, the hero of our story, writes that he could reflect in his soul the suffering of others. “When he saw tears, he wept; beside a sick man he felt sick himself and moaned; if he saw an act of violence, he felt as though he himself were the victim of it, he was frightened as a child and in his fright ran to help. The pain of others worked on his nerves, excited him, roused to a state of frenzy and so on.” These are the writings of an intense and sensitive young man developing his views of the world and in many ways are similar to those of a medical student progressing through medical training. They see all sorts of desperate situations, and their response and feelings are not necessarily discussed after the event.

We know that medical students tend to lose compassion as they progress through their training. The Dean in the ‘Patch Adams’ film speaks to his new students in American medical school, “We're going to drill the humanity out of you and make you into something better … We’re gonna make doctors out of you.”

So how is the healthcare professional to accommodate these two extremes of empathy and hardness? Is there a middle road where we can take on the sufferings and tragedy of the patients we serve and yet cope with them personally? Can we continue to set our face again for each new contact? How can healthcare professionals develop the robustness of emotion that allows them to be themselves compassionate, truly understand the feelings and distress of those they see and yet give a dispassionate medical opinion taking all these factors into account?

Returning to Vassilyev. In our story, he describes in detail the depth of his empathy: “His whole attention was turned upon the spiritual agony which was torturing him.  It was a dull, vague, undefined anguish akin to misery, to an extreme form of terror, and to despair. He could point to the place where the pain was, in his breast under his heart, but he could not compare it with anything. In the past he had had acute toothache, he had had pleurisy and neuralgia, but all that was insignificant compared with this spiritual anguish. In the presence of that pain life seemed loathsome… But he also knew by experience that this agony would not last more than three days.“

However, when his friends came to visit and saw him in this state of spiritual distress they took him to see a mental doctor. One of his friends, a medical student, almost shed tears, but considering that doctors ought to be cool and composed in every emergency said coldly, “It's a nervous breakdown. But it's nothing. Let us go at once to the doctor.”

The medical student recommends the doctor he has chosen to see his friend, “He is a very nice man and thoroughly good at his work. He took his degree in 1882 and he has an immense practice already. He treats students as though he were one himself.”

This is very high praise and the way we as healthcare practitioners would like to be described.

The ensuing encounter is, however, very interesting…

“The stout fair-haired doctor received the friends with politeness and frigid dignity and smiled only on one side of his face.” The doctor addressed many questions to the medical student for twenty minutes – but not to the patient. “Vassilyev was annoyed by the way the doctor kept stroking his knees and talking of the same thing… Half the questions usually asked by doctors of their patients can be left unanswered without the slightest ill effect on the health, but it seemed that if he failed to answer one question all will be lost. As he received the answers the doctor for some reason noted them down on a slip of paper.” The doctor did not want to be interrupted, “‘Don't interrupt me, you prevent me from concentrating,’ said the doctor.” And he smiled on one side of his face.

Vassilyev becomes quite indignant about the lack of compassion from the doctor and his colleagues for the intense experience that he has just experienced. He says, ‘”It seems marvellous to me that I should have taken my degree in two faculties and you look upon that as a great achievement, that I have written a work which in three years will be thrown aside and forgotten. I am praised up to the skies for this, but because I cannot speak of this situation as unconcernedly as of these chairs, I am being examined by a doctor, I'm called mad. I am pitied!” Vassilyev felt unutterably sorry for himself, burst into tears and sank into a chair. The doctor, with the air of completely comprehending the tears and the despair, feeling himself a specialist in that line, went to the patient and without a word, gave some medicine to drink and then when he was calm, he undressed him and began to investigate the degree of sensibility of the skin, the reflex action of the knees and so on.’

Interestingly, our hero’s distress melted away and his heart grew lighter. He began to feel ashamed and he forced himself to continue his life. The problem was resolved for now, but the patient was not understood nor heard, and seeing the doctor was not a healing process.

As you can probably tell, this story written in Russia by a doctor a hundred years ago, made a great impression on me and it remains for me one of the most emotional descriptions of empathy I have read. It says a lot about understanding vulnerability and understanding darkness, man's position in the cause of this and his reaction to it.

There is a song I know which describes a healing relationship as “deep cries out to deep” and it is this level of spiritual intelligence that I hope one day to reach. I pray I never lose my empathy and compassion for people, but that I may be given strength to cope with the heaviness of it and that those I contact in my life as a healthcare practitioner may experience this compassion and empathy.

So when I go into work today, I will be smiling on both sides of my face.

04/07/11

O JURAMENTO HIPOCRÁTICO


Juro por Apolo médico, por Esculápio, Higeia e Panaceia, e tomando por testemunhas todos os deuses e deusas, que cumprirei com todas as minhas posses e em plena consciência os seguintes preceitos: respeitarei os meus mestres tanto como os meus progenitores, partilhando com eles os meus bens, se necessário for; cuidarei dos seus descendentes como meus irmãos e ensinar-lhes-ei esta arte, se assim o pretenderem, sem receber qualquer pagamento e sem restrições; deixarei participar das lições orais e da prática médica em primeiro lugar os meus filhos, os filhos dos meus mestres e depois aqueles que, por compromissos e juramentos, se declarem meus discípulos e acatem as regras da profissão, e a mais ninguém além deles. Prescreverei aos enfermos, segundo o melhor juízo e o meu saber, o regime conveniente para seu benefício, preservando-os de qualquer dano. Defender-me-ei das súplicas e dos agrados de quem quer que seja para lhes ceder venenos que possam causar a morte, nem tomarei a iniciativa de tal sugestão. Do mesmo modo, não fornecerei às mulheres meios de impedir a concepção ou o desenvolvimento da criança. Em todas as circunstâncias exercerei a minha arte com pureza e honestidade. Não ousarei praticar a operação da pedra, mesmo nos enfermos em que a doença seja manifesta, confiando-os aos que se ocupem especialmente dessa prática. Em qualquer lar em que entre, terei apenas em mira o proveito dos doentes, abstendo-me de toda a acção prejudicial e corruptora, sobretudo quanto a voluptuosidade nos contactos com homens ou mulheres, sejam livres ou escravos. Tudo do que tiver dado fé, durante a cura ou fora dela, na vida familiar, conservá-lo-ei secreto, se não me for permitido divulgá-lo. Se eu mantiver e observar este juramento com fidelidade, que me sejam concedidas vida afortunada e honra na profissão, e que a minha fama se propague entre os homens e perdure no tempo; mas se eu me desviar dele ou o violar, que a sorte me seja adversa.
 
[Fernando Namora, in Deuses e Demónios da Medicina. Vol. 1. Ed. Círculo de Leitores, 1977].

16/12/10

Rereading the Classics: The Death of Ivan IIych

The Death of Ivan IIych, by Leo Tolstoy, a masterpiece of Russian fiction and a classic of world literature, develops several themes of enormous relevance to health professionals. One of them is the doctor-patient relationship.

According to Edmund D. Pellegrino, one of the founding fathers of contemporary Bioethics, “literature has proven an effective way to teach empathy for the sick, suffering, and dying. Through the creative words of George Eliot, Tolstoy, Chekhov, Camus, or Thomas Mann, the experience of being ill, being a doctor, or dying can be powerfully evoked and vicariously felt.”

The description of the appointment of the patient Ivan IIych with a famous doctor, who IIych consulted pressed by his wife when the first symptoms of the disease that eventually killed him started, reveals the exacerbated paternalism of the clinician, lack of compassion and insensitivity to the patient's concerns. The physician was apparently more interested in his bright diagnosis than in the well-being and recovery of the patient's health. This attitude of unbearable superiority was no strange to IIych, as it was the same attitude he took before the defendants in his career as judge.

«Everything took place as he had expected and as it always does. There was the usual waiting and the important air assumed by the doctor, with which he was so familiar (resembling that which he himself assumed in court), and the sounding and listening, and the questions which called for answers that were foregone conclusions and were evidently unnecessary, and the look of importance which implied that "if only you put yourself in our hands we will arrange everything — we know indubitably how it has to be done, always in the same way for everybody alike." It was all just as it was in the law courts. The doctor put on just the same air towards him as he himself put on towards an accused person.

The doctor said that so-and-so indicated that there was so- and-so inside the patient, but if the investigation of so-and-so did not confirm this, then he must assume that and that. If he assumed that and that, then...and so on. To Ivan Ilych only one question was important: was his case serious or not? But the doctor ignored that inappropriate question. From his point of view it was not the one under consideration, the real question was to decide between a floating kidney, chronic catarrh, or appendicitis. It was not a question the doctor solved brilliantly, as it seemed to Ivan Ilych, in favour of the appendix, with the reservation that should an examination of the urine give fresh indications the matter would be reconsidered. All this was just what Ivan Ilych had himself brilliantly accomplished a thousand times in dealing with men on trial. The doctor summed up just as brilliantly, looking over his spectacles triumphantly and even gaily at the accused. From the doctor's summing up Ivan Ilych concluded that things were bad, but that for the doctor, and perhaps for everybody else, it was a matter of indifference, though for him it was bad. And this conclusion struck him painfully, arousing in him a great feeling of pity for himself and of bitterness towards the doctor's indifference to a matter of such importance.

"I have already told you what I consider necessary and proper. The analysis may show something more." And the doctor bowed.

He said nothing of this, but rose, placed the doctor's fee on the table, and remarked with a sigh: "We sick people probably often put inappropriate questions. But tell me, in general, is this complaint dangerous, or not?..."

The doctor looked at him sternly over his spectacles with one eye, as if to say: "Prisoner, if you will not keep to the questions put to you, I shall be obliged to have you removed from the court."

Ivan Ilych went out slowly, seated himself disconsolately in his sledge, and drove home. All the way home he was going over what the doctor had said, trying to translate those complicated, obscure, scientific phrases into plain language and find in them an answer to the question: "Is my condition bad? Is it very bad? Or is there as yet nothing much wrong?" And it seemed to him that the meaning of what the doctor had said was that it was very bad. Everything in the streets seemed depressing. The cabmen, the houses, the passers-by, and the shops, were dismal. His ache, this dull gnawing ache that never ceased for a moment, seemed to have acquired a new and more serious significance from the doctor's dubious remarks. Ivan Ilych now watched it with a new and oppressive feeling.»
One of the most important elements for establishing a relationship of trust between doctor and patient is an effective communication, which includes listening with empathy to their history, let the patients express their real needs and concerns and provide them with words they can understand the diagnosis (if known) and possible treatment of their condition.

The great British physician Sir William Osler (1849-1919) is quoted as saying: "It is more important to know what kind of patient has the disease than to know what kind of disease the patient has." None of this has occurred in the several clinical encounters between Ilych and the doctors he consulted. They were more concerned about the accuracy of their diagnosis than in seeing the patient as a person with not only a body but also with a psychological, social and spiritual dimensions.

As John Coverdale (Acad Psychiatry 2007; 31: 354-357) reminds us, “the best part of being a doctor is the ability to listen to what patients have to say, to understand it, and to offer relief through compassion, knowledge, and humanity.”

[Texto que escrevi para o PRIME International E-mail de Setembro de 2010]

05/11/10

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Muitos apologistas do aborto e da eutanásia afirmam que, em última análise, a licitude destes atos tem a ver com a consciência de cada um. Por esse motivo, defendem que a lei deve ser permissiva, na medida em que “não obriga ninguém” a praticá-los.

Trata-se, porém, de um argumento perigoso, pois a consciência individual pode estar insensível, como testemunham as atrocidades cometidas nos regimes de ideologia comunista e nacional-socialista perante a indiferença e mesmo aprovação de muitos intelectuais.

Tolstoi, na sua obra magistral “A Morte de Ivan Ilitch” faz a seguinte descrição acerca do juiz Ilitch: «Na Faculdade de Direito cometera alguns atos que a princípio lhe pareciam vis e lhe causavam repugnância por si mesmo no momento em que os cometia; mas depois, vendo que os mesmos atos eram cometidos e altamente considerados por pessoas de elevada posição, e que não eram por elas considerados maus, embora não passasse a considerá-los bons, esqueceu-os por completo, ou deixou de se afligir ao recordá-los».

29/03/10

EU PARO QUANDO QUISER


Acaba de ser editado o livro “EU PARO QUANDO QUISER - Como lidar com vícios em crianças e adolescentes”, da Dr.ª Mena Casaleiro, cujo prefácio (que aqui publico) tive a honra de escrever:

O título do livro que tem entre mãos, «Eu Paro Quando Quiser – Como lidar com vícios em crianças e adolescentes», confronta-nos e desafia-nos. Alguns poderão considerá-lo excessivo e mesmo contraditório. Será possível as crianças, cuja candura e encanto tanto apreciámos, terem vícios?
Os dicionários definem «vício» como sendo qualquer «hábito ou costume prejudicial». A autora está consciente de que muitos dos comportamentos descritos no seu livro, sobretudo na infância, quando ocasionais ou até executados com uma certa regularidade, são relativamente inofensivos. Podem mesmo fazer parte do processo normal de crescimento e desenvolvimento da criança. O seu potencial destrutivo surge a partir do momento em que se tornam de tal maneira arreigados e compulsivos que constituem uma verdadeira adicção ou dependência, ou seja, se tornam autênticos vícios a combater.
Mena Casaleiro, com a sua sensibilidade de mulher e mãe, além de uma rica experiência clínica em terapia da fala e aconselhamento, escreve uma obra de referência sobre um assunto crucial e pertinente. Num estilo claro, fluente e bem estruturado, aborda com frontalidade e realismo uma preocupação de muitos educadores, nem sempre devidamente discutida e valorizada.
Na obra «Eu Paro Quando Quiser», a autora não se limita a identificar detalhadamente os hábitos e comportamentos nocivos mais comuns na infância e adolescência. Ao explicitar quais os “passos para a mudança” oferece a esperança de solução do problema e restauração integral da pessoa que se deixou controlar por ele. Por outro lado, tranquiliza os pais e encarregados de educação de crianças e adolescentes que apresentam algum dos vícios descritos no livro e acumulam sentimentos de culpa por esse motivo. A causa do aparecimento do vício é geralmente multifactorial e não por terem sido negligentes ou “maus pais”. No entanto, o seu contributo para a resolução do problema é essencial e inestimável. Ignorar o vício ou esperar que desapareça com o tempo é a pior atitude. O facto deste livro ter suscitado o seu interesse e ter iniciado a sua leitura demonstram o seu empenho e determinação em assumir o seu papel de formador consciencioso e esclarecido.
Para tirar o máximo proveito destes textos, a leitura deverá ser efectuada com espírito aberto e sem preconceitos, não se deixando influenciar pela atitude de permissividade e relativismo tão em voga nos dias de hoje.
Mena Casaleiro reconhece e valoriza a dimensão transcendente do ser humano, bem expressa nas palavras de Teilhard de Chardin, «Nós não somos seres humanos que têm uma experiência espiritual; somos seres espirituais que têm uma experiência humana». A sua fé cristã e conhecimento da Bíblia, conferem-lhe uma perspectiva ainda mais abrangente e completa na abordagem e tratamento dos vícios descritos no seu livro, até porque muitas vezes existem sentimentos de culpa envolvidos que não é possível escamotear.
Todos os pais e educadores que se preocupam com o desenvolvimento integral e saudável das suas crianças e jovens irão ser grandemente enriquecidos, esclarecidos e ajudados pela sua leitura.