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06/05/14

CELEBRANDO A DIFERENÇA

Nascem cada vez menos crianças com trissomia 21 na maioria dos países ocidentais, devido às políticas agressivas de diagnóstico pré-natal e abortamento. Estou certo que a sociedade ficará mais pobre.


30/04/14

O VOLUNTÁRIO DE AUSCHWITZ

Witold Pilecki, capitão do Exército do Estado clandestino polaco, fez algo que mais ninguém teve a coragem de repetir: voluntariar-se para ser preso em Auschwitz, o mais violento e mortífero campo de concentração nazi, e, dessa forma, relatar os horrores ali praticados pelo Terceiro Reich.

A missão, realizada entre 1940 e 1943, tinha dois objetivos: informar os Aliados sobre as práticas nazis nos seus campos de concentração, dos quais se conheciam, então, apenas algumas informações esparsas, mas muito preocupantes; e organizar os prisioneiros em grupos de resistência contra as forças alemãs, na tentativa de controlar o campo. Sobrevivendo a muito custo a quase três anos de fome, doença e brutalidade, Pilecki foi bem-sucedido na sua missão, conseguindo evadir-se do campo de concentração em abril de 1943.

O Voluntário de Auschwitz é o relatório mais extenso do capitão Witold Pilecki, completado em 1945, no exílio. Escondido pela ditadura comunista na Polónia durante mais de 40 anos, este documento único na história e na literatura sobre Auschwitz, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto é agora publicado pela primeira vez em português.


20/03/14

A SAÚDE NA PINTURA


Alfredo Roque Gameiro foi um pintor e ilustrador português, especializado na arte da aguarela. Nasceu em 1864 em Minde, no concelho de Alcanena, e faleceu em 1935 em Lisboa. Estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Manuel de Macedo, Enrique Casanova e José Simões d’Almeida. Frequentou de 1893 a 1895 a Escola de Artes e Ofícios de Leipzig, como bolseiro do Estado português. De regresso a Portugal, assumiu a Direcção artística da Companhia Nacional Editora e posteriormente exerceu actividade docente na Escola Industrial do Príncipe Real. Considerado “Mestre insigne da aguarela”, deixou um vasto legado de obras de grande beleza e requinte, tendo obtido diversos prémios e distinções, nacionais e internacionais.
 
Iniciou a sua actividade como ilustrador em 1888, pintando ao longo da sua vida inúmeras aguarelas para diversas publicações, tanto de carácter histórico e etnográfico como literárias. A maior parte do seu espólio encontra-se no Museu de Aguarela Roque Gameiro, que inclui obras do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em depósito.
 
 “Este cavalheiro era João Semana” é uma das várias aguarelas que Roque Gameiro concebeu, entre 1904 e 1905, para ilustração do romance de Júlio Dinis As Pupilas do Senhor Reitor. Representa, de forma realista, a personagem João Semana, médico de aldeia, montado no seu inseparável ginete, que até meados do século XX era o meio de locomoção privilegiado dos médicos que exerciam clínica no meio rural, nas frequentes visitas domiciliárias.
 
Júlio Dinis, pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), concluiu o curso de Medicina com distinção em 1861 na Escola Médico-Cirúrgica do Porto e integrou o corpo docente desta instituição a partir de 1865. A tuberculose pulmonar de que padecia desde a juventude (teve a primeira hemoptise no 2.º ano do curso), foi responsável pela sua morte prematura aos 31 anos. A doença levou-o a procurar climas mais propícios ao repouso e convalescença. Deslocou-se algumas vezes por esse motivo à vila de Ovar, donde era natural seu pai, e ao Funchal, escrevendo algumas das suas obras durante os curtos períodos em que permaneceu nestes locais. É considerado um dos maiores romancistas da literatura portuguesa do século XIX.
 
Egas Moniz, no seu livro notável Júlio Dinis e a sua obra, identificou em Ovar as gentes e os lugares que terão servido de inspiração para As Pupilas do Senhor Reitor, o primeiro romance publicado do escritor. Para o distinto professor, “o João Semana das Pupilas é o retrato fiel do cirurgião João José da Silveira, que, ao tempo da estadia de Júlio Dinis em Ovar, exercia a profissão médica com grande sucesso, naquela região”. Segundo Egas Moniz, o Dr. Silveira “era um clínico dedicado aos seus doentes como mais se não podia ser. Fosse a que hora fosse, em noite tempestuosa de inverno, ou à hora dos frugais repastos, estava sempre pronto a interromper o sono reparador ou a refeição principiada para acudir às chamadas dos doentes”.
 
Maria José Oliveira Monteiro, em Júlio Dinis e o enigma da sua vida, considera que muitas figuras das obras dinisianas correspondem a pessoas reais da povoação de Grijó, onde o escritor passou grande parte da infância, após o falecimento da sua mãe, também vítima de tuberculose. Na opinião da autora, o celebrado João Semana apresenta afinidades com o Dr. Joaquim Silvestre Correia da Silva, estimado pela população local pela sua personalidade alegre e divertida, bem como pelo seu carácter de benfeitor dos mais desfavorecidos. Nas suas palavras, “sendo o único cirurgião formado de mais saber e fama que nesta época existia em Grijó e imediações, podia ter adquirido boa fortuna num tempo em que os médicos eram raros, porém era um mãos largas para todos, e à maior parte do povo não levava dinheiro nem avença”.
 
Seja como for, o que parece seguro é que a personagem João Semana, uma das mais conhecidas e apreciadas de toda a obra do escritor, não representa um ideal utópico e irrealista, mas foi concebida a partir de clínicos reais inteiramente dedicados ao serviço dos doentes. Numa época em que o tratamento da maioria das enfermidades era muito elementar e pouco eficaz, era ainda mais pertinente o aforismo dos médicos franceses Bérard e Gubler, “curar por vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre”.
 
João Semana reúne as virtudes da generosidade, altruísmo, beneficência e sentido de humor, essenciais na relação médico-doente ao longo da história da humanidade. Tal atitude contrasta com a de alguns clínicos, denunciada em outros clássicos da literatura, de paternalismo arrogante, avidez pelos bens materiais, competição feroz ou ambição desmesurada pelo poder e influência, que tem levado alguns profissionais a sacrificarem a nobre vocação médica no altar da fama, do lucro ou do poder.
 
A humanização dos serviços de saúde requer que os profissionais estejam conscientes da importância fundamental de virtudes como a empatia, o cuidado, a beneficência ou o altruísmo, na relação assistencial médico-doente.
 
A personagem João Semana, retratada nesta aguarela, representa uma justa homenagem a todos os clínicos portugueses que, ao longo dos tempos, consideraram o serviço dedicado aos doentes a razão suprema da sua profissão.
 
(Este artigo foi publicado na 1.º edição de 2014 da Acta Médica Portuguesa, a Revista Científica da Ordem dos Médicos. A versão original, com as referências bibliográficas, pode ser obtida aqui).

24/02/14

VIAGEM AO OUTONO DA VIDA



Os próximos posts serão dedicados à temática do envelhecimento. Solicitamos ao Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos autorização para reproduzir neste espaço o texto luminoso que escreveu sobre o assunto, que foi amavelmente concedida. O texto integral com as respetivas referências bibliográficas, baseado na sua comunicação à Academia Nacional de Medicina de Portugal (Coimbra, 13.04.2013), foi publicado na Revista Brotéria 176 (5/6) Maio/Junho 2013.

«O envelhecimento, que marca o outono da vida e a leva até ao seu fim último, é o destino inexorável de todo o ser humano que não foi ceifado antecipadamente pela gadanha impiedosa de uma morte prematura. Visitar o outono da vida é de inegável atualidade, não só por serem os velhos uma população cada vez mais numerosa em Portugal, mas também porque, sendo o envelhecimento uma questão velha, a velhice atual coloca problemas novos.

Temos cada vez mais pessoas idosas e idosos mais longevos, graças ao aumento da esperança média de vida que se deve à melhoria de condições como o saneamento básico, alimentação e abrigo, mas também, ainda que em menor grau, aos progressos nos cuidados médicos: prevenção, diagnósticos mais precoces, tratamentos e reabilitações mais eficazes.

No império romano, a esperança de vida era baixa, rondava os trinta anos, e no dealbar do século XX tinha subido para 45 anos. Em Portugal, a esperança de vida ao nascer é de 79,6 anos (homens, 76,5 e mulheres, 82,4). Isto é: em pouco mais de um século, ganharam-se cerca de 35 anos, quase dobrou a esperança de vida! Esta evolução levou alguém a dizer, com um humor desconsolado: “é verdade que acrescentámos mais anos à vida, mas o mal é que são os últimos”. Todavia, esta boutade não corresponde inteiramente ao que se passa, pois que, apesar de na fase última do processo de envelhecimento ser cada vez maior a incidência das doenças geriátricas, mercê desse importante aumento da longevidade, também é certo que o tempo de vida com boa saúde ou, pelo menos, com saúde regular é cada vez mais longo».
 
Prof. Doutor Henrique Vilaça Ramos
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Portugal

11/01/14

O SIGNIFICADO DOS SONHOS


Sigmund Freud (1856-1939), médico e pioneiro da psicanálise, escreveu a sua primeira obra sobre A Interpretação dos Sonhos em 1899. A partir da sua experiência pessoal e clínica, defende que “o sonho tem um significado e não é a expressão de uma atividade desconexa do cérebro”. Na sua opinião, o sonho seria “um fenómeno psíquico cuja razão de ser é a satisfação (dissimulada) de um desejo”. Com base nestes pressupostos, desenvolveu a teoria da psicanálise, com o objetivo de descodificar o sentido oculto dos sonhos, que seriam gerados ao nível do inconsciente.
  
Na psicanálise, a associação livre de ideias do paciente durante uma conversa com o terapeuta, bem como a interpretação do significado dos sonhos, constituíam a base do tratamento das doenças mentais. No processo de associação livre, o paciente é encorajado a partilhar tudo o que lhe vem à mente, por mais bizarros e estranhos que os seus pensamentos possam parecer.
  
As teorias freudianas nunca foram confirmadas nem foi demonstrada a sua eficácia e superioridade em relação a outros métodos terapêuticos. Quanto à função e significado dos sonhos, ainda há muita discussão no meio académico. Segundo a Teoria Contemporânea do Sonho, o fenómeno não é aleatório mas guiado pelas emoções que a pessoa experimenta na sua vida. Pode ser uma forma de adaptação do organismo para enfrentar melhor situações traumáticas e stressantes do dia-a-dia.
  
A psicanálise teve grande influência nas ciências sociais e humanas, assim como na arte e na literatura do século XX, embora na atualidade, com o grande desenvolvimento da psicofarmacologia e das neurociências, tenha um papel muito limitado no tratamento da doença mental.

11/12/13

UMA LIÇÃO DE VIDA

Há várias formas de comunicação entre pais e filhos, mas só uma é adequada – a comunicação com amor.
 

21/11/13

POEMA DE RUDYARD KIPLING

O poema seguinte, intitulado “Se” (If), do escritor inglês Rudyard Kipling (1865-1936), é considerado o poema mais conhecido e apreciado da literatura de língua inglesa.
  
Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objetivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam
tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!


07/10/13

IN MEMORIAM: EDMUND D. PELLEGRINO (1920-2013)


Edmund Daniel Pellegrino nasceu em Newark, no estado norte-americano de New Jersey, em 1920. Terminou a licenciatura em medicina em 1944, especializando-se em Medicina Interna. Interessou-se inicialmente pela investigação sobre fisiologia e patologia renal, publicando mais de 50 trabalhos científicos nesta área.

Na década de 80, assumiu a Direção do Kennedy Institute of Ethics, o primeiro centro universitário do mundo dedicado à Bioética, após o falecimento de Andre Hellegers, fundador e primeiro Diretor desta prestigiada instituição.

Reconhecido como um dos pioneiros da Bioética e um dos mais brilhantes e aclamados dos seus cultores, foi um dos maiores apologistas de uma ética das virtudes no exercício da medicina. Foi também um dos principais responsáveis pela introdução do ensino das Humanidades nas Faculdades de Medicina dos EUA.

Edmund Pellegrino foi autor, co-autor ou editor de 23 livros e escreveu mais de 600 artigos em revistas científicas. As suas obras mais conhecidas e com maior influência na área da Bioética são: Humanism and the Physician (University of Tennessee Press, 1979), A Philosophical Basis of Medical Practice (Oxford University Press, 1981), For the Patient’s Good: Toward the Restoration of Beneficence in Health Care (Oxford University Press, 1988), The Virtues in Medical Practice (Oxford University Press, 1993), The Christian Virtues in Medical Practice (Georgetown University Press, 1996) e Helping and Healing: Religious Commitment in Health Care (Georgetown University Press, 1997). Todos os livros, com exceção do primeiro, foram escritos em co-autoria com o filósofo dominicano David C. Thomasma, falecido em 2002, que durante vinte e cinco anos foi o seu principal colaborador.

Numa época marcada por uma profunda transformação dos cuidados de saúde, em que se verifica a preponderância de modelos de relação médico-doente como o comercial e o contratual, centrados na autonomia do paciente, mas que encaram a medicina como um negócio e uma profissão como qualquer outra, Pellegrino e Thomasma propuseram um modelo de beneficência fiduciária. Este modelo promove a confiança entre médico e paciente, essencial para que a relação clínica seja uma relação terapêutica, e minimiza a assimetria de poder do encontro clínico protegendo o doente, que se encontra habitualmente num estado de vulnerabilidade e dependência de natureza ontológica, devido à doença.

Entre muitos cargos e funções que o Prof. Pellegrino desempenhou, destacaria o facto de ter sido membro da Academia Pontifícia para a Vida desde a sua instituição em 1994 pelo Papa João Paulo II, bem como do Comité Internacional de Bioética da UNESCO, para o qual foi convidado em 2004.  Edmund Pellegrino integrou o comité responsável pela redação da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, adotada pela UNESCO no ano seguinte.  

Em 2005, com 85 anos de idade, foi nomeado para presidir ao Conselho Presidencial de Bioética dos EUA. A um jornalista espanhol que o interrogou se a sua idade não seria um obstáculo para o desempenho deste importantíssimo cargo, respondeu: «porque iria deixar de pensar a partir dos 85?». Sob a sua Direção neste Conselho, foram concluídos e apresentados os seguintes documentos: Human Dignity and Bioethics: Essays Commissioned by the President's Council on Bioethics, The Changing Moral Focus of Newborn Screening: An Ethical Analysis by the President's Council on Bioethics, e Controversies in the Determination of Death: A White Paper by the President's Council on Bioethics.

No decurso da sua longa carreira académica, Edmund Pellegrino foi um exemplo e fonte de inspiração para várias gerações de estudantes de medicina, salientando o valor da honestidade intelectual e da centralidade do estabelecimento de uma relação de confiança entre o médico e o doente no exercício da profissão. Muitos dos seus antigos alunos e colaboradores, de várias universidades de diferentes estados norte-americanos, contribuíram com textos para o livro The Health Care Professional as Friend and Healer: Building on the Work of Edmund D. Pellegrino, editado por David Thomasma e Judith Lee Kissell em 2000. No ensaio que escreveu para esta publicação, Courtney Campbell considera Pellegrino «uma voz profética para a profissão médica, procurando chamar a comunidade de volta aos compromissos morais fundamentais da sua vocação».

Numa entrevista que tive o privilégio de fazer ao Professor Pellegrino em 2011, perguntei-lhe o que considerava ser o aspeto mais preocupante na evolução da Bioética na atualidade. Na sua opinião, sempre que a Bioética deixar de procurar a sua fundamentação na Ética, que é um ramo da filosofia, e procurar estabelecer normas e doutrinas a partir da sociologia, da psicologia ou da política, estará mais permeável à influência de opiniões pessoais, políticas ou ideológicas. Essas disciplinas podem dar importantes contributos à reflexão ética e bioética mas não devem constituir a base da filosofia moral.

O Professor Pellegrino faleceu no passado dia 13 de Junho em Washington D. C., poucos dias antes de completar 93 anos. O seu legado será sempre uma referência obrigatória na história da Bioética norte-americana e mundial, e indispensável para todos os que quiserem refletir e aprofundar o seu pensamento bioético sobre a educação médica, a ética das virtudes, a relação médico-doente ou as humanidades na medicina.

Revista Portuguesa de Bioética 19:143-145, 2014.

12/08/13

POEMA DE CAMILO



Amigos

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quási rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

10/06/13

DILEMAS ÉTICOS NO FINAL DA VIDA

Há alguns anos atrás ouvi uma palestra de Lord Ian McColl no Reino Unido, onde me encontrava a realizar um estágio de Cirurgia Vascular. Já na altura fiquei cativado pela clareza da sua exposição.
Distinto cirurgião geral e Professor no Guy’s and St. Thomas’ Medical School, Lord McColl é atualmente Diretor do St. Christopher’s Hospice, em Londres, a primeira unidade de Cuidados Paliativos do mundo, fundada em 1967 por Dame Cicely Saunders.
Pode ver aqui uma palestra recente em que o Prof. McColl fala da sua longa experiência como médico, abordando algumas questões éticas controversas relacionadas com a suspensão de meios extraordinários de suporte vital em doentes terminais ou em estado crítico, assim como o problema da eutanásia e os cuidados paliativos.

03/06/13

CARTILHA DA SAÚDE

 
Nunca é demais relembrar os principais conselhos para uma vida mais saudável. Esta cartilha da saúde foi elaborada pelo Prof. Fernando de Pádua, distinto cardiologista português.
1. Faça uma atividade física todos os dias (pelo menos um bom passeio a pé, desporto quando possível);
2. Coma mais verduras (legumes ou fruta 4 vezes ao dia), menos gorduras (prefira o azeite e corte nos fritos) e menos doçuras (pouco açúcar e poucos doces);
3. Não fume (pare já, ou nunca comece);
4. Reduza o álcool (só 3dl de vinho ou 2 cervejas por dia, e zero se for conduzir);
5. Reduza o sal (tire o saleiro da mesa e use pouco na cozinha);
6. Controle o peso, o açúcar, as gorduras e a tensão arterial (porque a obesidade, a diabetes, as dislipidémias e a hipertensão arterial são “doenças silenciosas”).

24/04/13

JURAMENTO MÉDICO DE AMATO LUSITANO

 
O médico português João Rodrigues (1511-1568), natural de Castelo Branco e mais conhecido por Amato Lusitano, na sua obra Centúrias inclui um Juramento na linha do Juramento de Hipócrates do século IV a. C., que representa um manual de conduta que os médicos deveriam seguir:

Juro perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos mandamentos, dados no Monte Sinai ao povo hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro do Egito, que na minha clínica nada tive mais a peito do que promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros. Nada fingi, acrescentei ou alterei em minha honra ou que não fosse em benefício dos mortais. Nunca lisonjeei, nem censurei ninguém ou fui indulgente com quem quer que fosse por motivo de amizades particulares; sempre em tudo exigi a verdade;
Se sou perjuro, caia sobre mim a ira do Senhor e de Rafael, seu ministro, e ninguém mais tenha confiança no exercício da minha arte;
Quanto a honorários, que se costumam dar aos médicos, também fui sempre parcimonioso no pedir, tendo tratado muita gente com mediana recompensa e muita outra gratuitamente; muitas vezes rejeitei, firmemente, grandes salários, tendo sempre mais em vista que os doentes por minha intervenção recuperassem a saúde, do que tornar-me mais rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros;
Para tratar os doentes, jamais curei de saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei maometana; não corri atrás das honras e das glórias e com igual cuidado tratei dos pobres e dos nascidos em nobreza;
Nunca provoquei a doença; nos prognósticos disse sempre o que sentia; não favoreci um farmacêutico mais do que outro, a não ser quando em algum reconhecia, porventura, mais perícia na arte e maior bondade de coração, porque então o preferia aos demais;
Ao receitar sempre atendi às possibilidades pecuniárias do doente, usando de relativa moderação nos medicamentos prescritos; nunca divulguei o segredo a mim confiado, nunca a ninguém propinei poção venenosa; com minha intervenção nunca foi provocado o aborto; nas minhas consultas e visitas médicas femininas nunca pratiquei a menor torpeza; em suma, jamais fiz coisa de que se envergonhasse um médico preclaro e egrégio.
Sempre tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e de Galeno, os pais da Medicina, não desprezando as obras monumentais de alguns outros excelentes mestres na Arte Médica; fui sempre diligente no estudo e por tal forma que nenhuma ocupação ou circunstância, por mais urgente que fosse, me desviou da leitura dos bons autores; nem o prejuízo dos interesses particulares, nem as viagens por mar, nem as minhas frequentes deambulações por terra, nem por fim o próprio exílio, me abalaram a alma, como convém ao homem sábio; os discípulos que até hoje tenho tido em grande número e em lugar dos filhos tenho educado, sempre os ensinei muito sinceramente a que se inspirassem no exemplo dos bons;
Os meus livros de Medicina nunca os publiquei com outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade. Se o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros, na certeza de que tal foi sempre a minha intenção e o maior dos meus desejos.

(Redigido em Tessalonica em 1559)

04/04/13

NELSON MANDELA: O PRISIONEIRO 46664


Quando, no dia 11 de Fevereiro de 1990, assisti à libertação de Nelson Mandela em direto pela televisão, não me apercebi da verdadeira dimensão deste homem. Só nos anos seguintes comecei a apreciar profundamente o exemplo de coragem, perseverança, integridade, perdão e reconciliação deste grande estadista sul-africano, que muito contribuiu para a transição pacífica do abominável regime do apartheid para um sistema político mais justo e democrático.
 
Concordo totalmente com as palavras de Richard Stenzel, autor de uma das biografias de Mandela: «Ansiamos por heróis, mas os heróis são poucos. Nelson Mandela talvez seja o último dos heróis puros do nosso planeta».
O legado de Mandela. Quinze lições de vida, amor e coragem. Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009, p. 17.

30/01/13

INOVAÇÃO MÉDICA: ÓCULOS AUTO-REGULÁVEIS

Joshua Silver, um cientista inglês, inventou um tipo de óculos cuja graduação é regulada pelo próprio utilizador. Além de serem baratíssimos (cada par custa apenas uma libra esterlina), não requerem uma observação prévia por um oftalmologista ou optometrista, pelo que se destinam aos países em desenvolvimento, onde o acesso aos serviços de saúde é muito limitado.


28/01/13

HOMEOPATIA: QUE VERDADE?


Edzart Ernst é um homem invulgar. Concluiu a licenciatura em Medicina em 1978 na Alemanha, seu país natal, e praticou a homeopatia durante alguns anos. Porém, a sua honestidade intelectual levou-o a investigar em profundidade a validade científica desta terapia alternativa. As suas conclusões são semelhantes às de centenas de estudos científicos realizados nas últimas décadas, que afirmam que os efeitos benéficos que alguns pacientes referem na sequência de tratamentos com produtos homeopáticos se baseiam exclusivamente no conhecido efeito placebo. Este efeito traduz a ação de um produto não ativo, do ponto de vista farmacológico, que em determinadas situações, em alguns doentes, produz um efeito real benéfico para a situação clínica em causa. Para isso contribuem diversos fatores, nomeadamente do foro psicológico, tais como a confiança do paciente no produto, a convicção do médico ou uma boa relação médico-paciente.
 
Ernst emigrou em 1993 para o Reino Unido e é Professor Emérito da cadeira de Complementary Medicine da Universidade de Exeter e um dos maiores especialistas mundiais sobre terapias alternativas. Todos os que se interessam por este tema deveriam visitar o seu blogue: http://edzardernst.com
 
O médico escritor português do século XIX Júlio Dinis alude num dos seus poemas (Similia Similibus) à “nova seita” e “novo sistema” que a homeopatia representava nessa época.

Nova seita proclamaram
De Esculápio os descendentes;
Dão vivas os boticários,
Estremecem os doentes.

Mas que achado! Os velhos médicos
Vêem o passado com mágoa;
Estes, de novo sistema,
Aquecem água com água.

O fogo apagam com fogo,
Dão vista aos cegos, cegando,
E até p'ra coroar a obra,
Curam da morte... matando.

19/12/12

A MAIS BELA HISTÓRIA



Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente. Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: "José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados".
 
Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: "A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel" que significa "Deus connosco". Ao acordar, José fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa. Mas não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus.
 
[S. Mateus 1, 18-25]

This is how the birth of Jesus the Messiah came about: His mother Mary was pledged to be married to Joseph, but before they came together, she was found to be pregnant through the Holy Spirit. Because Joseph her husband was faithful to the law, and yet did not want to expose her to public disgrace, he had in mind to divorce her quietly. But after he had considered this, an angel of the Lord appeared to him in a dream and said, “Joseph son of David, do not be afraid to take Mary home as your wife, because what is conceived in her is from the Holy Spirit. She will give birth to a son, and you are to give him the name Jesus, because he will save his people from their sins”.

All this took place to fulfill what the Lord had said through the prophet:  “The virgin will conceive and give birth to a son, and they will call him Immanuel” (which means “God with us”). When Joseph woke up, he did what the angel of the Lord had commanded him and took Mary home as his wife. But he did not consummate their marriage until she gave birth to a son. And he gave him the name Jesus.

[Matthew 1, 18-25]
 
 

28/11/12

ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) foi um diplomata português que durante a II Guerra Mundial salvou cerca de 30 000 judeus da perseguição nazi, quando a França foi invadida pela Alemanha em 1940. Contrariando as ordens do ditador Salazar, passou milhares de vistos em Bordéus e, posteriormente, em Bayonne. Segundo um historiador, foi “a maior ação de salvamento por um único indivíduo durante o Holocausto”.
 
O filme “Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus”, realizado em 2011, revela a humanidade e coragem deste português ilustre.


19/11/12

A VIDA E A ARTE DE ROBERT POPE

Robert Pope, natural do Canadá, faleceu com apenas 35 anos. Durante os últimos dez anos da sua curta vida, procurou combater o linfoma de Hodgkin que acabaria por o vitimar. Nesse período, devido à sua formação artística, representou inúmeras situações que presenciou como paciente. Algumas das experiências que vivenciou denotam falta de humanização na prestação dos cuidados de saúde, que as suas ilustrações representam de uma forma pungente.
 
Poderá conhecer mais acerca da sua vida e obra aqui.

17/09/12

DIETRICH BONHÖEFFER

No meu último livro (Que Médicos Queremos?) incluo duas citações do teólogo alemão Dietrich  Bonhoeffer (1906-1945), um dos meus autores preferidos. Era um homem de fé e de caráter, que os algozes nazis condenaram à morte. Escrevendo em 1940, resume com extraordinária lucidez e premonição os perigos de uma ética deontológica separada do caráter do agente moral, conforme se verificou na Alemanha do III Reich:
 
O caminho do dever parece ser o mais seguro para se eximir à mole desorientadora das decisões possíveis. Aqui, o que foi ordenado apreende-se como o mais certo; a responsabilidade pela ordem recai sobre aquele que a profere, não sobre aquele que a executa. Mas quem se restringe à medida do dever nunca chega à ousadia da ação livre, que acontece por responsabilidade própria, a única ação que consegue atingir o mal no centro e vencê-lo. O homem do dever acabará por cumprir ainda o seu dever, mesmo diante do diabo. In BONHOEFFER, D. (2007).  Ética. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 49.

22/08/12

SOBRE JESUS CRISTO

Jesus não é apenas um ou o melhor dos caminhos para se chegar a Deus. Ele é o único.

A. W. Tozer (1897-1963)

Jesus is not one of many ways to approach God, nor is He the best of several ways; He is the only way.