29/10/10

EM MEMÓRIA DOS NÃO-NASCIDOS


     Não sou nada.
     Nunca serei nada.
     Não posso querer ser nada.
     À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

     I am nothing.
     I shall never be nothing.
     I can’t want to be nothing.
     Apart from this, I have in me all the dreams in the world.
   
             Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

[Entre Junho de 2009 e Julho de 2010, foram abortadas em Portugal 19.456 crianças!]

21/10/10

PREVENÇÃO DO ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL

O acidente vascular cerebral (AVC) é um dos principais problemas de saúde pública em Portugal. Como refere o Prof. José Ferro, da Faculdade de Medicina de Lisboa, “temos cerca de 25.000 novos AVCs por ano, ou seja 70 novos AVCs, 7 mortes e 25 novas pessoas dependentes devidas a AVC por dia. Embora a mortalidade por AVC tenha vindo a diminuir, não é de esperar que o mesmo aconteça à incidência, que deverá permanecer estável e até aumentar, num cenário previsível de envelhecimento e baixa fertilidade”.

A hipertensão arterial, o tabagismo (fumar duplica o risco de AVC isquémico), a obesidade e a diabetes são os principais fatores de risco desta doença.

11/10/10

O CONCEITO DE MORTE CEREBRAL E A TRANSPLANTAÇÃO DE ÓRGÃOS

Apesar de, atualmente, o diagnóstico de morte cerebral ser o principal requisito para a obtenção de órgãos para transplante, de dadores cadáveres, em todo o mundo, o problema da definição e diagnóstico da morte ultrapassa o campo restrito da colheita de órgãos para transplantação.
 
Nunca é demais salientar que o conceito de morte cerebral não apareceu por mera conveniência, de modo a satisfazer as necessidades de órgãos de cadáveres para transplantes, mas sim como resultado da evolução dos conhecimentos da Ciência e da Medicina, que permitiram identificar esta nova entidade clínica. A situação de morte cerebral, embora originalmente designada coma dépassé, foi descrita pela primeira vez por Mollaret e Goulon (1959), numa altura em que a transplantação renal era ainda um procedimento experimental, efetuada sobretudo entre irmãos gémeos (dadores vivos) e acompanhada da irradiação maciça do receptor do órgão. Se, no futuro, surgirem novas modalidades de transplantação, como a xenotransplantação de porcos transgénicos, a transplantação de órgãos clonados ou a utilização de dispositivos mecânicos (estes últimos em fase experimental), que tornem dispensável e obsoleta a colheita de órgãos de cadáveres humanos, irão continuar a existir casos de morte cerebral, em doentes internados em Unidades de Cuidados Intensivos, que serão desligados do ventilador após a confirmação do óbito.
 
O conceito de morte cerebral não deve, pois, ser entendido numa perspetiva utilitarista, pois as evidências científicas da validade dos critérios de morte cerebral são o único fundamento que legitima este novo paradigma de diagnosticar a morte de uma pessoa. Deste modo, numa perspetiva ética, o respeito pela dignidade de quem se encontre efetivamente morto, bem como pelos doentes que poderão necessitar de vaga numa Unidade de Cuidados Intensivos, requerem um diagnóstico atempado e correto de morte cerebral.
 
Por outro lado, embora respeitando a decisão do doente, manifestada em vida, quanto ao destino dos seus órgãos após a morte, concordamos com Hodelín-Tablada (2001), quando refere que «se se está morto, é um gesto altruísta e de altos valores éticos oferecer os nossos órgãos e tecidos para aqueles doentes que têm limitações na sua vida por mau funcionamento de um órgão ou tecido».

Uma outra área em que é necessário “separar as águas” consiste na necessidade das provas de morte cerebral serem efetuadas por médicos que não estejam diretamente envolvidos na atividade de transplantação de órgãos, de modo a assegurar maior independência e idoneidade, e evitar eventuais conflitos de interesses. Esta norma encontra-se claramente expressa em diversos códigos nacionais e internacionais de ética e deontologia médicas, desde a Declaração de Sydney (1968), da Associação Médica Mundial, bem como na legislação portuguesa (Diário da República, 1994). Nesta linha de raciocínio, defendemos que os médicos diretamente envolvidos na atividade de transplantação se devem abster de participar em comissões constituídas para tomarem decisões acerca do diagnóstico de morte. Infelizmente, tal não aconteceu com a Comissão de Harvard, sobre Morte Cerebral, na qual participaram cirurgiões envolvidos na transplantação de órgãos, como Joseph Murray e John Merril, pioneiros da transplantação renal, o que suscitou diversas críticas.

06/10/10

LISTA DE VERIFICAÇÃO DE SEGURANÇA CIRÚRGICA




Acabei de ler o livro "O Efeito Checklist. Como aumentar a eficácia", escrito por Atul Gawande, cirurgião e professor catedrático de Cirurgia em Harvard. É uma obra admirável, desenvolvida a partir da ideia original de se usarem listas de verificação ou controlo (checklists) nos procedimentos médicos e cirúrgicos, à semelhança do que acontece há muitos anos na aviação e em muitas outras áreas, com benefícios comprovados.
 
Conforme se pode ler na contracapa, «No best-seller "O Efeito Checklist", Gawande explora a extraordinária eficácia das checklists. Explica a lógica subjacente, o modo como potenciam o trabalho de equipa, como podem ser aplicadas com resultados espantosos em áreas tão distintas como a banca ou a aviação. Um exemplo? O autor conseguiu reduzir, em quase 50 por cento, a mortalidade nos blocos operatórios de oito hospitais com a aplicação de uma revolucionária lista de controlo. "O Efeito Checklist" é um ensaio brilhante sobre um mundo cada vez mais dependente da tecnologia – e onde, paradoxalmente, o erro humano pode ser evitado de forma tão simples».
 
Consciente das vantagens deste modelo, a Direcção-Geral de Saúde adotou, em Junho deste ano, o programa "Cirurgia Segura Salva Vidas" que inclui a utilização da “Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica”, proposta pela Organização Mundial de Saúde, em todos os blocos operatórios do Serviço Nacional de Saúde.

04/10/10

TROMBOSE VENOSA PROFUNDA: PODE SER FATAL!

A trombose venosa profunda (TVP) é uma doença frequente, sobretudo nos membros inferiores. As suas principais complicações são, na fase aguda, a embolia pulmonar, potencialmente fatal e, numa fase tardia, a doença venosa crónica com eventual ulceração.
 
A doença venosa, imobilização prolongada, doença oncológica, grandes cirurgias (nomeadamente ortopédicas), obesidade, voos de longo curso e gravidez são alguns dos fatores de risco da TVP e tromboembolismo pulmonar.
 
As manifestações clínicas mais comuns da TVP são o edema (inchaço) do membro, a dor espontânea e/ou à palpação dos eixos venosos profundos, bem como a palidez ou a cianose do membro. Contudo, numa percentagem elevada de doentes com TVP, que pode chegar aos 50%, pode não haver quaisquer sinais ou sintomas ou apenas os resultantes da sua complicação mais temida - a embolia pulmonar, como a dor torácica e a falta de ar. Só nos EUA, morrem todos os anos 300 000 pessoas na sequência de embolia pulmonar.
 
É assim necessário um alto grau de suspeição para se chegar ao diagnóstico, sendo o ecodoppler venoso dos membros inferiores o exame de primeira linha. O tratamento inclui medicação anticoagulante e a utilização de meias elásticas.