24/10/11

TERAPIAS ALTERNATIVAS: O TRIUNFO DA ILUSÃO

As terapias alternativas têm vindo a aumentar de popularidade, nos últimos anos, à medida que a medicina científica ocidental se vai tornando mais tecnicista e impessoal. São também chamadas terapias holísticas, para realçar a sua alegada preocupação pelo ser humano como um todo (corpo, alma e espírito). Isto inclui muitas vezes um componente espiritual, geralmente baseado na filosofia religiosa de cada terapia particular. Ao contrário da medicina convencional, que se fundamenta em critérios lógicos e racionais, descobertos através de uma observação rigorosa e aplicação do método científico, os princípios em que se baseiam as terapias alternativas contrariam o senso comum, as leis da natureza e os conceitos subjacentes à ciência moderna.

Razões do Fenómeno
 
No nosso entender, são várias as razões que explicam a popularidade destas terapias. Por um lado, a reconhecida crise do Serviço Nacional de Saúde, caracterizada pela falta de recursos humanos e materiais para satisfazer as necessidades dos doentes. Esta situação conduz, entre outras coisas, ao aumento insustentável das listas de espera dos que pretendem uma consulta de especialidade, exames subsidiários ou que aguardam determinadas intervenções cirúrgicas nos Hospitais do Estado. Existe também uma gritante falta de privacidade na maior parte dos Serviços de Urgência e enfermarias dos Hospitais. Há muitas vezes falta de diálogo, quer com os pacientes quer com os seus familiares, em certa medida devido ao elevado número de doentes, não sendo explicada a situação clínica de forma adequada e compreensível. Na relação médico-doente, o contacto físico (uma palmadinha no ombro, um abraço amigo) é também pouco frequente, em parte devido ao desejo do médico manter alguma distância  emocional com o paciente.
Outros fatores incluem a existência de doenças crónicas ou incuráveis, para as quais a medicina convencional ainda não encontrou solução definitiva - não obstante os enormes progressos científicos das últimas décadas - a existência de efeitos laterais dos medicamentos, a iatrogenia de certos atos médicos, a maior divulgação nos media de casos de negligência médica, assim como a atração da população pelas filosofias orientais e pelo “natural”.
Na opinião do Prof. H. Gounelle de Pontanel, membro da Academia de Medicina Francesa, “a voga atual destas terapêuticas parece resultar de um certo mal-estar induzido  na  população  pela  rapidez  dos  progressos  científicos.  Esta situação abre caminho à charlatanice, a maior parte das vezes praticada por não médicos, hábeis na exploração da crendice pública e/ou do desespero resultante da patologia clínica de base”.

Algumas Virtudes

Apesar da validade científica dúbia das “medicinas" alternativas, os naturologistas têm a virtude de dedicarem, em média,  mais tempo aos seus pacientes que a maior parte dos médicos. Para muitos pacientes, a simpatia e disponibilidade do profissional de saúde são mais importantes que a sua preparação científica. Os naturologistas dão também grande importância ao contacto físico, de reconhecido valor terapêutico, o que pode levar as pessoas a sentirem-se melhor. Por outro lado, as explicações relativamente bizarras que transmitem aos pacientes e a confiança que transmitem na eficácia de determinado tratamento, a par de esquemas posológicos invulgares, ajudam a reforçar a crença nos pacientes do sucesso da terapêutica. Trata-se do conhecido efeito placebo.
Não nos podemos também esquecer que muitas maleitas de pouca importância, e por vezes algumas de maior gravidade, curam-se por si com o decorrer do tempo, sem qualquer intervenção médica.

Perigos Potenciais

Contudo, as terapias alternativas, embora muitas vezes sejam simplesmente inúteis e desnecessárias, podem ter consequências nefastas e mesmo fatais. Por um lado, podem mascarar o diagnóstico de determinada doença, atrasando ou impedindo o seu tratamento convencional, cientificamente comprovado. Podem também ter efeitos tóxicos e, muitas vezes, são perversamente dispendiosas. As terapias relacionadas com a filosofia “New Age” podem por vezes envolver práticas mágicas ou ocultas. Concordamos, assim, com a opinião do Professor J. Martins e Silva, antigo Diretor da Faculdade de Medicina de Lisboa, que refere que “as medicinas alternativas, no seu conjunto, constituem um risco potencial para a saúde das populações”.

Conclusão

A Ordem dos Médicos de Portugal e todas as organizações médicas representadas no Comité Permanente dos Médicos  Europeus “opõem-se em absoluto ao reconhecimento de métodos de diagnóstico ou de terapêutica de doentes e doenças, que não possuam a necessária validação científica”.
O crescimento explosivo das terapias alternativas desafia os médicos a exercerem a sua profissão com maior integridade e dedicação, na linha da tradição hipocrática, reconhecendo as suas limitações, mas procurando a solução mais adequada a todos os níveis para cada paciente. Só assim poderão contrariar as práticas primitivas, incongruentes e fraudulentas, da maior parte das terapias alternativas.

17/10/11

ATIVIDADE FÍSICA E SAÚDE

Os benefícios para a saúde da atividade física regular são bem conhecidos desde há vários anos. Um estudo recente, publicado na revista Lancet, revelou que bastam 15 minutos diários ou 90 minutos semanais de exercício físico de intensidade moderada para proporcionarem uma redução da mortalidade e aumento da esperança previsível de vida. Estes resultados aplicam-se a todos os grupos etários e a ambos os sexos.

Conforme sublinham os responsáveis por este estudo, "saber que com apenas 15 minutos de exercício por dia se pode reduzir substancialmente o risco de morte pode encorajar mais pessoas a desempenhar algum tipo de atividade física nas suas vidas ocupadas".

10/10/11

Dar sangue é um gesto altruísta e solidário, sendo sobejamente conhecida a carência de sangue e derivados nas unidades hospitalares. No entanto, ainda existem algumas dúvidas e mitos relacionados com a sua dádiva, como por exemplo:

Nunca ninguém me pediu para dar sangue
Considere-se convidado desde já. Esse convite silencioso não é formal, é real: é-lhe dirigido por todas as crianças e adultos que carecem de sangue ou dos seus componentes, pelas vítimas de acidentes de trabalho ou rodoviários, por todos aqueles que aguardam disponibilidade de sangue para serem operados e que, por isso, ocupam uma cama que muitos precisam de utilizar.
O meu sangue não deve prestar porque já tive várias doenças
A sua dúvida deverá ser esclarecida junto do seu médico assistente. Mas, mais simplesmente, pode oferecer-se para dar sangue, pois será submetido a um exame clínico, no decurso do qual o médico lhe aconselhará a atitude correcta, pensando na preservação da sua saúde e bem-estar.
O sangue faz-me falta
Num adulto normal existem entre cinco e seis litros de sangue. Uma pessoa saudável pode dar sangue regularmente, sem que esse facto prejudique a sua saúde.

Francamente, tenho medo de dar sangue
Uma grande parte das pessoas sente isso, quando vão dar sangue pela primeira vez. Mas logo depois, perdem o receio e a dádiva de sangue torna-se natural e simples. Observe o à-vontade e descontracção das pessoas que regularmente vão dar sangue e tire as suas conclusões.

Receio sentir-me enfraquecido se der sangue
Apenas lhe são colhidos cerca de 4,5 decilitros de sangue. As proteínas e as células sanguíneas existentes neste volume são rapidamente repostas em circulação pelo organismo. Momentos após a dádiva de sangue, qualquer pessoa pode voltar à sua ocupação normal. Contudo, algumas actividades como por exemplo, pilotos de aviões, maquinistas de comboios, mergulhadores, não devem ser exercidas nas horas seguintes à dádiva.

Já há muita gente que dá sangue
É verdade, mas a procura de sangue, componentes e derivados não cessa de aumentar, graças aos progressos da ciência médica e à crescente extensão dos benefícios de uma assistência que se pretende de melhor qualidade, a um numero cada vez maior de pessoas. As necessidades terapêuticas dos doentes exigem cada vez mais dadores, isto é, pessoas em boas condições de saúde e com hábitos de vida saudáveis, como você.
Não sei como ou onde dar sangue
Em Portugal, dirija-se aos Centros Regionais de Lisboa, Porto e Coimbra do Instituto Português do Sangue (IPS) ou ao hospital mais próximo. A sua visita será bem recebida e terá todas as informações que desejar.

Não tenho tempo
Se por um instante pensar no bem que fez com a sua dádiva de sangue, rapidamente concluirá que essa não é uma razão: verá que não está tão ocupado como julga.

Já dei sangue este ano
Fez bem mas pode repetir a dádiva sem qualquer inconveniente para a saúde e bem-estar. Qualquer pessoa pode dar sangue varias vezes por ano (os homens de 3 em 3 meses e as mulheres de 4 em 4 meses). Esta informação tem uma base científica segura e recolhe uma vasta experiência de muitos anos, abarcando milhões de dádivas em todas as partes do mundo.
 

29/08/11

POEMA DE LUÍS DE CAMÕES

Verdade, Amor, Razão, Merecimento
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento,
E não sabe a que causa se reporte;
Mas sabe que o que é mais que vida e morte
Que não o alcança humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas,
Mas são experiências mais provadas,
E por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas,
E cousas cridas há sem ser passadas;
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.

Luís de Camões (1525-1580)

05/08/11

SOBRE O CRISTIANISMO

Eu creio no Cristianismo tal como creio que o sol nasceu, não apenas porque o vejo, mas porque, através dele, eu vejo todas as outras coisas.
  
C. S. Lewis (1898-1963)
  
I believe in Christianity as I believe the sun has risen, not only because I see it, but because by it I see everything else.

03/08/11

15 Mandamentos da Cortesia ao Volante

1. Não utilizarás o veículo como instrumento de ameaça ou de agressão.
2. Se conduzires, não consumirás bebidas alcoólicas ou produtos que alterem o teu estado normal de consciência.
3. Darás sempre prioridade aos peões, mesmo fora das passadeiras ou antes de nelas entrarem.
4. Zelarás pelo transporte seguro dos ocupantes do teu veículo, em especial das crianças.
5. Aceitarás o ritmo de condução dos outros condutores e respeitarás os limites de velocidade legais.
6. Não utilizarás o telemóvel durante a condução.
7. Não estacionarás onde prejudicares a passagem e visibilidade dos peões, em especial crianças, idosos e deficientes.
8. Vigiarás o estado do veículo de modo a contribuir para a segurança e respeito de todos os utentes das estradas.
9. Não perderás a paciência quando a via se encontrar obstruída e não impedirás a ultrapassagem por outro veículo.
10. Pararás sempre nos sinais de Stop e abrandarás com o aparecimento da luz laranja.
11. Não estacionarás nas passadeiras de peões, faixas BUS, lugares de deficientes, e saídas de emergência.
12. Manterás a calma quando circulares atrás de um veículo de instrução.
13. Reduzirás a velocidade em locais de transito de peões.
14. Em auto-estrada ou via rápida, não conduzirás encostado à traseira do carro que circula à tua frente.
15. Adequarás a tua condução às condições atmosféricas e condições da via.

Fonte: Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.

05/07/11

SOBRE O JURAMENTO HIPOCRÁTICO

Hipócrates de  Cós (460-377 a.C.) é considerado o maior dos médicos da Antiguidade e mesmo o pai da medicina. No entanto, pouco sabemos acerca da sua vida, a não ser que possuía uma mente de génio e um acutilante espírito de observação. Sabe-se que formou provavelmente a primeira Faculdade de Medicina de que há memória, juntando à sua volta um grupo de alunos interessados na arte médica. O contributo fundamental de Hipócrates para a medicina deve-se à coletânea de textos que lhe são atribuídos (embora muitos, se não todos, tenham sido escritos pelos seus discípulos), que abordam questões de ordem clínica, ética e profissional da prática médica. Mas a sua influência mais marcante reside no denominado Juramento Hipocrático, que modificou radicalmente os conceitos básicos da medicina da Antiguidade. O Juramento de Hipócrates, embora de raízes pagãs, foi posteriormente adotado na Europa ocidental, pois os seus princípios coincidiam com os do cristianismo, bem como pelos árabes e, mais tarde, pelos eruditos do Renascimento.
 
Os historiadores sugerem que um dos fatores responsáveis pela criação deste Juramento era a atitude de suspeição generalizada dos médicos, prevalente na sociedade de então. Os médicos gregos possuíam um conhecimento vasto de uma panóplia de remédios, poções e venenos letais; tinham acesso às residências particulares e efetuavam observações íntimas e procedimentos estranhos na privacidade do lar; e eram também sabedores de muitos segredos e confidências pessoais dos seus doentes. Não será por isso de estranhar que fossem encarados com alguma desconfiança pela sociedade.
 
O código ético definido neste documento só faz sentido à luz do compromisso triplo do médico para com o seu mestre (que o introduziu na arte da medicina), para com os seus doentes e, acima de tudo, para com o(s) seu(s) Deus(es). O ensino da medicina só seria outorgado aos alunos que assumissem o compromisso de obedecerem aos valores expressos no Juramento.
 
A ética hipocrática é, pois, claramente teísta, o que torna o Juramento um código de conduta absoluto e “não-negociável”. O médico não obedece a este sistema de valores apenas porque prometeu ao seu mestre fazê-lo, ou por estar pessoalmente convencido que determinada ação é incorreta, mas sim porque prometeu a(os) Deus(es) cumpri-lo, e esse compromisso solene é irrefutável.
 
O Juramento contém certos princípios éticos fundamentais, nomeadamente de beneficência, não-maleficência, competência e confidencialidade, integridade, bem como proibições claras contra a prática do aborto, da eutanásia ou de comportamentos indignos com os doentes. Exorta também o médico a exercer a sua arte com pureza e honestidade, defendendo assim claramente uma ética das virtudes.
 
[Excerto do artigo “Em Defesa de Uma Medicina Hipocrática”, que publiquei na revista Arquivos de Medicina, vol. 14, pp. 174-176, 2001]

04/07/11

O JURAMENTO HIPOCRÁTICO


Juro por Apolo médico, por Esculápio, Higeia e Panaceia, e tomando por testemunhas todos os deuses e deusas, que cumprirei com todas as minhas posses e em plena consciência os seguintes preceitos: respeitarei os meus mestres tanto como os meus progenitores, partilhando com eles os meus bens, se necessário for; cuidarei dos seus descendentes como meus irmãos e ensinar-lhes-ei esta arte, se assim o pretenderem, sem receber qualquer pagamento e sem restrições; deixarei participar das lições orais e da prática médica em primeiro lugar os meus filhos, os filhos dos meus mestres e depois aqueles que, por compromissos e juramentos, se declarem meus discípulos e acatem as regras da profissão, e a mais ninguém além deles. Prescreverei aos enfermos, segundo o melhor juízo e o meu saber, o regime conveniente para seu benefício, preservando-os de qualquer dano. Defender-me-ei das súplicas e dos agrados de quem quer que seja para lhes ceder venenos que possam causar a morte, nem tomarei a iniciativa de tal sugestão. Do mesmo modo, não fornecerei às mulheres meios de impedir a concepção ou o desenvolvimento da criança. Em todas as circunstâncias exercerei a minha arte com pureza e honestidade. Não ousarei praticar a operação da pedra, mesmo nos enfermos em que a doença seja manifesta, confiando-os aos que se ocupem especialmente dessa prática. Em qualquer lar em que entre, terei apenas em mira o proveito dos doentes, abstendo-me de toda a acção prejudicial e corruptora, sobretudo quanto a voluptuosidade nos contactos com homens ou mulheres, sejam livres ou escravos. Tudo do que tiver dado fé, durante a cura ou fora dela, na vida familiar, conservá-lo-ei secreto, se não me for permitido divulgá-lo. Se eu mantiver e observar este juramento com fidelidade, que me sejam concedidas vida afortunada e honra na profissão, e que a minha fama se propague entre os homens e perdure no tempo; mas se eu me desviar dele ou o violar, que a sorte me seja adversa.
 
[Fernando Namora, in Deuses e Demónios da Medicina. Vol. 1. Ed. Círculo de Leitores, 1977].

10/06/11

SOBRE O BEM E O MAL

Para que o mal floresça é apenas necessário que os homens de bem nada façam.

Edmund Burke (1729-1797)

All that is necessary for evil to triumph is for good men to do nothing.