07/10/13

IN MEMORIAM: EDMUND D. PELLEGRINO (1920-2013)


Edmund Daniel Pellegrino nasceu em Newark, no estado norte-americano de New Jersey, em 1920. Terminou a licenciatura em medicina em 1944, especializando-se em Medicina Interna. Interessou-se inicialmente pela investigação sobre fisiologia e patologia renal, publicando mais de 50 trabalhos científicos nesta área.

Na década de 80, assumiu a Direção do Kennedy Institute of Ethics, o primeiro centro universitário do mundo dedicado à Bioética, após o falecimento de Andre Hellegers, fundador e primeiro Diretor desta prestigiada instituição.

Reconhecido como um dos pioneiros da Bioética e um dos mais brilhantes e aclamados dos seus cultores, foi um dos maiores apologistas de uma ética das virtudes no exercício da medicina. Foi também um dos principais responsáveis pela introdução do ensino das Humanidades nas Faculdades de Medicina dos EUA.

Edmund Pellegrino foi autor, co-autor ou editor de 23 livros e escreveu mais de 600 artigos em revistas científicas. As suas obras mais conhecidas e com maior influência na área da Bioética são: Humanism and the Physician (University of Tennessee Press, 1979), A Philosophical Basis of Medical Practice (Oxford University Press, 1981), For the Patient’s Good: Toward the Restoration of Beneficence in Health Care (Oxford University Press, 1988), The Virtues in Medical Practice (Oxford University Press, 1993), The Christian Virtues in Medical Practice (Georgetown University Press, 1996) e Helping and Healing: Religious Commitment in Health Care (Georgetown University Press, 1997). Todos os livros, com exceção do primeiro, foram escritos em co-autoria com o filósofo dominicano David C. Thomasma, falecido em 2002, que durante vinte e cinco anos foi o seu principal colaborador.

Numa época marcada por uma profunda transformação dos cuidados de saúde, em que se verifica a preponderância de modelos de relação médico-doente como o comercial e o contratual, centrados na autonomia do paciente, mas que encaram a medicina como um negócio e uma profissão como qualquer outra, Pellegrino e Thomasma propuseram um modelo de beneficência fiduciária. Este modelo promove a confiança entre médico e paciente, essencial para que a relação clínica seja uma relação terapêutica, e minimiza a assimetria de poder do encontro clínico protegendo o doente, que se encontra habitualmente num estado de vulnerabilidade e dependência de natureza ontológica, devido à doença.

Entre muitos cargos e funções que o Prof. Pellegrino desempenhou, destacaria o facto de ter sido membro da Academia Pontifícia para a Vida desde a sua instituição em 1994 pelo Papa João Paulo II, bem como do Comité Internacional de Bioética da UNESCO, para o qual foi convidado em 2004.  Edmund Pellegrino integrou o comité responsável pela redação da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, adotada pela UNESCO no ano seguinte.  

Em 2005, com 85 anos de idade, foi nomeado para presidir ao Conselho Presidencial de Bioética dos EUA. A um jornalista espanhol que o interrogou se a sua idade não seria um obstáculo para o desempenho deste importantíssimo cargo, respondeu: «porque iria deixar de pensar a partir dos 85?». Sob a sua Direção neste Conselho, foram concluídos e apresentados os seguintes documentos: Human Dignity and Bioethics: Essays Commissioned by the President's Council on Bioethics, The Changing Moral Focus of Newborn Screening: An Ethical Analysis by the President's Council on Bioethics, e Controversies in the Determination of Death: A White Paper by the President's Council on Bioethics.

No decurso da sua longa carreira académica, Edmund Pellegrino foi um exemplo e fonte de inspiração para várias gerações de estudantes de medicina, salientando o valor da honestidade intelectual e da centralidade do estabelecimento de uma relação de confiança entre o médico e o doente no exercício da profissão. Muitos dos seus antigos alunos e colaboradores, de várias universidades de diferentes estados norte-americanos, contribuíram com textos para o livro The Health Care Professional as Friend and Healer: Building on the Work of Edmund D. Pellegrino, editado por David Thomasma e Judith Lee Kissell em 2000. No ensaio que escreveu para esta publicação, Courtney Campbell considera Pellegrino «uma voz profética para a profissão médica, procurando chamar a comunidade de volta aos compromissos morais fundamentais da sua vocação».

Numa entrevista que tive o privilégio de fazer ao Professor Pellegrino em 2011, perguntei-lhe o que considerava ser o aspeto mais preocupante na evolução da Bioética na atualidade. Na sua opinião, sempre que a Bioética deixar de procurar a sua fundamentação na Ética, que é um ramo da filosofia, e procurar estabelecer normas e doutrinas a partir da sociologia, da psicologia ou da política, estará mais permeável à influência de opiniões pessoais, políticas ou ideológicas. Essas disciplinas podem dar importantes contributos à reflexão ética e bioética mas não devem constituir a base da filosofia moral.

O Professor Pellegrino faleceu no passado dia 13 de Junho em Washington D. C., poucos dias antes de completar 93 anos. O seu legado será sempre uma referência obrigatória na história da Bioética norte-americana e mundial, e indispensável para todos os que quiserem refletir e aprofundar o seu pensamento bioético sobre a educação médica, a ética das virtudes, a relação médico-doente ou as humanidades na medicina.

Revista Portuguesa de Bioética 19:143-145, 2014.

30/09/13

AINDA OS RASTREIOS EM SAÚDE

O texto seguinte, escrito pelo Prof. Walter Osswald, foi publicado pelo jornal Público em 31.07.2013.
 
O rastreio em saúde mais conhecido do público em geral, nos últimos tempos, é, ao menos supostamente, o do cancro da mama através do teste genético de determinação de anomalia no gene designado por BRCA1. Foi a positividade deste teste que levou a atriz Angeline Jolie a submeter-se à dupla mastectomia.
  
A remoção dos dois seios é uma intervenção radical que escapa à lógica usual da intervenção médica: pratica-se uma cirurgia mutilante, removem-se dois órgãos sãos, por haver uma indicação laboratorial de que as probabilidades daquela mulher vir a ter cancro mamário são mais elevadas do que as da população feminina em geral.
  
Hoje já não se aceita uma espécie de determinismo genético, reconhecendo os cientistas que os genes não governam tudo no nosso organismo nem comandam o destino individual. No caso particular do gene BRCA1 (e do seu parente próximo, o BRCA2), estamos longe de assistir a consenso entre os especialistas, no que respeita ao real significado da deteção do seu malfuncionamento.
  
Muito maior é a diversidade de opiniões em relação à atitude recomendada às mulheres com teste positivo: vigilância regular, mastectomia dupla, remoção dos ovários (o quase sempre fatal cancro ovárico está, ao que parece, relacionado com o BRCA1 defeituoso)? Deve expor-se a situação e aceitar sem mais a decisão da mulher? Deve esclarecer-se que o teste pode fornecer resultados falsos?
  
E a estas questões, relacionadas com cada mulher, juntam-se outras, de natureza bem mais vasta. Se o teste permite identificar mulheres com maior probabilidade de virem a ter cancro da mama, não é imperioso disponibilizá-lo para toda a população feminina, no intuito de virmos a reduzir a respetiva incidência (lembramos que se trata da doença maligna mais frequente na mulher)?
  
A esta questão ética não é possível dar resposta sem termos em conta o problema das prioridades em saúde, dado que os meios são reconhecidamente escassos para que possam ser implementadas todas as medidas, comprovada ou eventualmente úteis para a saúde pública. Um rastreio de toda a população feminina adulta acarretaria custos elevadíssimos (o teste custa atualmente cerca de 1000 – 1500 euros; embora a sua larga utilização conduzisse, provavelmente a uma substancial redução do preço, nunca seria um teste barato, dada a sua complexidade): no nosso país, seriam cerca de três milhões as candidatas à realização do teste. Depois, teríamos de equacionar o percurso ulterior das mulheres em que o teste fosse “positivo”: aconselhamento em consulta médica/psicológica, cirurgias especializadas, meios complementares de diagnóstico, seleção dos casos com indicação clínica (neste caso, duvidosa), acompanhamento; tudo isto com custos adicionais incalculáveis (no sentido de elevados e de não calculáveis).
  
Atendendo ao conjunto de circunstâncias, parece poder concluir-se que não há lugar para um rastreio por meio do teste genético. O que sabemos é que o programa em vigor na medicina atual (auto-exame, mamografia, ecografia, ressonância nos casos de dúvida ou suspeita) é eficaz e exequível; e que as mulheres cujas parentes próximas (mãe, irmãs, filhas) tenham tido cancro da mama estão em maior risco do que as que não tiveram familiares com a doença.
  
É preciso que a comunidade não entre em pânico ou excessiva inquietação quando notícias destas circulam nos meios de comunicação e nas redes sociais – apesar das suas debilidades e erros, a medicina está atenta e continua a ser a melhor guardiã da saúde pública.
 
Prof. Doutor Walter Osswald,
Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

25/09/13

HIPERATIVIDADE E DÉFICE DE ATENÇÃO


O meu colega e amigo Dr. Filipe Silva, especialista em Pediatria do Desenvolvimento, está empenhado num projeto de empreendedorismo social que tem por objetivo apoiar e promover o desenvolvimento saudável e uma integração familiar e social bem sucedida das crianças com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Poderá obter mais informações sobre este interessante projeto aqui.

23/09/13

DOENÇA VENOSA CRÓNICA: 10 CONSELHOS ÚTEIS

1. Exercitar as pernas em todas as circunstâncias
As posições prolongadas de pé e sentado (em particular as pernas cruzadas) devem ser evitadas, uma vez que elas conduzem à insuficiência venosa. O peso do sangue e a falta de exercício favorecem a estagnação do sangue nas veias. Caso a sua atividade profissional o obrigue a estar sempre sentado, ou de pé, é necessário andar um pouco durante o dia ou fazer movimentos circulares com os pés. Do mesmo modo, durante as viagens longas de carro, comboio ou avião, e sempre que possível, ande um pouco para permitir a circulação do sangue nas veias.
 
2. Escolher um desporto apropriado
A prática regular e com sapatos apropriados da marcha a pé é a atividade mais benéfica para a circulação venosa. A planta dos pés, devido a estar bastante irrigada por vasos venosos, funciona como uma bomba que movimenta o sangue. A cada passo, vai comprimir as veias dos pés, o que impulsiona o sangue para cima até às pernas. Depois, a contração dos músculos da perna favorece a subida do sangue até ao coração. Por estas razões, a prática da ginástica, do ciclismo, dança, natação ou golfe, facilita a circulação venosa. Pelo contrário, são desaconselhados os desportos que obrigam a movimentos bruscos, como o ténis, basquetebol, squash, etc. Estes desportos provocam variações na pressão do sangue nas veias, o que vai provocar a  dilatação dos vasos e menor circulação de sangue até ao coração.

3. Evitar lugares quentes
As variações de temperaturas modificam o comportamento das veias. Um aumento do calor nas pernas favorece a dilatação das veias, diminuindo a circulação venosa. Devem ser evitadas, ou diminuídas, todas as exposições ao calor: calor do sol, depilação com cera quente, banhos quentes, sauna e vestuário muito quente.

4. Procurar lugares frescos
A influência do frio é importante porque é favorável à contração das veias. Um duche de água fria nas pernas , ativa a funcionalidade das suas veias e alivia a sensação de peso e dor nas pernas. Caminhar à borda de água na praia, é muito útil porque associa o exercício à temperatura baixa.

5. Prevenir a prisão de ventre e o excesso de peso
A prisão de ventre e o excesso de peso são dois fatores responsáveis pelo aumento da pressão sanguínea nas veias, por isso, e para evitar estes problemas, deve fazer uma alimentação rica em fibras (ex. vegetais), uma boa hidratação (consumo diário de 1 litro e meio de água) e consumir menos gorduras saturadas (ex. manteiga, carne de porco).

6. Usar vestuário apropriado
O vestuário apertado comprime as veias e bloqueia a circulação do sangue nas pernas. Deve escolher um vestuário confortável e largo, evitando as calças muito estreitas, meias com elástico ou cintos apertados.

7. Usar sapatos apropriados
Os sapatos de salto alto reduzem a superfície de apoio do pé, tal como os sapatos planos sem salto que aumentam demais essa superfície, o que vai diminuir a circulação do sangue dos pés para as pernas. Por isso, os sapatos devem ter idealmente 3 a 4 cm de altura.

8. Facilitar a circulação sanguínea durante o sono
Para melhorar a circulação do sangue durante o sono, deve fazer alguns movimentos de pedalar antes de dormir e levantar os pés da cama 10 a 15 cm.

9. Reconhecer as situações que podem agravar os problemas venosos, como a gravidez ou a contraceção oral
A doença venosa é mais frequente na mulher devido à influência das hormonas (progesterona e estrogénio). Os estrogénios aumentam a permeabilidade das veias e a progesterona é responsável pela sua dilatação. Durante a gravidez, estas hormonas existem em grande quantidade, daí o elevado risco de insuficiência venosa nestas mulheres. Estas hormonas existem também nas pílulas contracetivas. Deste modo, é indispensável uma supervisão médica regular.

10. Massajar as pernas o mais frequentemente possível
A massagem das pernas, de baixo para cima, melhora a circulação do sangue para o coração.

Recomendações da Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular (SPACV)

18/09/13

MELANOMA: É MELHOR PREVENIR




Mais uma apresentação muito elucidativa do Dr. Mike Evans, desta vez sobre o melanoma cutâneo e a melhor forma de o prevenir.

16/09/13

QUESTÕES ÉTICAS NOS RASTREIOS EM SAÚDE

O texto seguinte, escrito pelo Prof. Walter Osswald, foi publicado pelo jornal Público em 26.06.2013.

Nos últimos tempos, e sem dúvida com a intervenção de casos ou figuras mediáticas, tem-se debatido o papel em saúde pública dos variados rastreios que é possível levar a cabo, no intuito de detetar precocemente situações de doença que possam ser tratadas em tempo útil – ou até diagnosticar riscos elevados de contrair determinada doença, em indivíduo sem manifestações patológicas, que se pode pois considerar são.

Os rastreios parecem reunir todas as condições para serem incentivados e levados à prática: é óbvio que a Medicina vê na prevenção uma das suas mais prementes e importantes tarefas. Se o auto-exame, as consultas médicas a intervalos regulares e a realização de ecografias e mamografias são hoje consideradas medidas aconselháveis a toda a população feminina de certos estratos etários (limite mínimo geralmente estabelecido nos 40 anos) para diagnóstico precoce do cancro da mama, não é possível falar-se de um plano nacional que configure essas mesmas medidas.

De forma similar, o despiste de lesões malignas ou pré-malignas do cólon (por colonoscopia, recomendada a partir dos 50-60 anos, a realizar a intervalos regulares) não encontrou institucionalização no âmbito do plano nacional de saúde. Ainda menos se vislumbra a eventualidade de incluir nesse plano outros rastreios, como o do cancro da próstata ou o do melanoma cutâneo.

Em recentes anos, surgiu uma nova e perturbadora possibilidade de proceder à determinação do genoma de uma pessoa e de nele detetar características genéticas indiciadoras do futuro aparecimento de determinada doença. Note-se, desde logo, que excluindo raras doenças ligadas a um carácter dominante, na maioria dos casos os dados obtidos apenas podem ser expressos em graus de probabilidade e que a margem de erro desses testes (isto é, a obtenção de resultados falsos, positivos ou negativos) é considerável. Levantam-se, neste caso, dúvidas muito sérias, relativas a questões éticas (confidencialidade dos dados, responsabilidade dos analistas, direitos de familiares, capacidade de exigir a análise, etc.) e económicas (custos, comparticipação), mas o problema essencial tem a ver com o facto de tais testes poderem ser livremente adquiridos no mercado da internet, sem indicação ou prescrição médica; e de terceiros facilmente poderem ter acesso a material biológico de uma pessoa (ex. saliva) e de procederem à respetiva análise, sem autorização e no desconhecimento do indivíduo visado.

A recente revelação, por Angeline Jolie, de que tinha procedido a mastectomia bilateral, por ter realizado um teste que revelou uma anomalia num gene, de que resultou uma elevada probabilidade de poder vir a ter cancro da mama, desencadeou uma onda de inquietação, receio e angústia em inúmeras mulheres, que não encontraram lenitivo nos comentários tranquilizadores dos clínicos e especialistas. Este é mais um caso em que a informação veiculada pelos meios de comunicação não se revelou socialmente útil, antes gerou medo e sofrimento psicológico.
 
 
 
 
Prof. Doutor Walter Osswald,
Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

11/09/13

DEITAR CEDO E CEDO ERGUER…


A sabedoria popular reconhece há séculos a importância de uma noite bem dormida, para o que contribui deitar cedo e manter hábitos de sono regulares
 
 Eis alguns conselhos para dormir bem, ou pelo menos melhor:
  
- Evite refeições pesadas e muitos líquidos à noite;
- Não beba café e outras bebidas com elevado teor em cafeína a partir das 14 horas;
- Apague todas as luzes;
- Evite atividades estimulantes antes de deitar, como ver televisão ou trabalhar no computador;
- Adquira colchões confortáveis e silenciosos.
 
Dormir a sesta poderá ser benéfico para quem tiver esse hábito. Caso contrário, não há geralmente grande vantagem em dormir durante o dia, pois poderá prejudicar o período de sono noturno. Segundo alguns especialistas, a regularidade na hora de deitar é ainda mais importante que o número total de horas de sono.

02/09/13

COLESTEROL: O QUE PRECISA DE SABER


O colesterol – substância lipídica normal, que circula no nosso sangue ligado a proteínas, pode condicionar ao longo dos anos, quando elevado, o aparecimento de aterosclerose: o tipo de arteriosclerose que facilita a progressiva ou súbita obstrução das nossas artérias, dificultando a passagem do sangue, e provocando as mais graves doenças cardiocerebrovasculares: angina de peito, enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral, etc. Estes perigos derivam essencialmente da sua fração LDL (Low Density Lipoproteins) enquanto a fração HDL (High Density Lipoproteins) funciona como protetora. Quanto mais altos forem o colesterol total e a fração LDL (“colesterol mau”) pior, e quanto mais elevado o HDL (“colesterol bom”), melhor.
  
2. Os níveis de colesterol podem subir gradualmente com a idade dependendo de muitos fatores, uns genéticos (por exemplo hipercolesterolémia familiar), alguns síndromes metabólicos, outros derivados do nosso estilo de vida: erros alimentares, falta de atividade física, etc. É sobre estes últimos que podemos atuar – procurando corrigir a alimentação, o sedentarismo e o excesso de peso, para que o colesterol suba menos (e isso é também verdadeiro mesmo quando há tendência genética).
  
3. Todos nós, devemos procurar saber o valor do nosso colesterol no sangue: “saiba o seu número” dizem os americanos.
• Se for normal (igual ou menor que 190 mg/dl) só é preciso repetir a análise em novo check-up (cada 3 ou 4 anos).
• Entre 190 e 220 deve adotar uma alimentação mais “correta, equilibrada e inteligente” e um estilo de vida mais saudável (isto é sem tabaco e com mais exercício) e repetir a análise dentro de 2 ou 3 meses, falando com o seu médico sobre o seu risco em conjunto com os outros fatores de risco de doença cardiocerebrovascular, sexo, idade, tabaco e açúcar no sangue.
• Se for maior que 220 mg., consulte o seu médico de família, pois poderá ter de fazer mais qualquer coisa, p. ex. medicamentos.
• Se for menor do que 150 é bom, mas deverá ouvir também o seu médico.
• O tratamento deverá trazer o colesterol total para valores ≤190 e o LDL para ≤115. Todavia, se já é doente cardiocerebrovascular, ou tem doentes precoces na família, aponta-se para LDL ≤100 (alguns pedem 70). O HDL deverá ser maior que 45 na mulher e 40 no homem.
  
4. A necessidade de conhecer o valor do colesterol no sangue é imperiosa, inclusive nas crianças – cuide bem dos seus sub-20 (dos 0 aos 19 anos de idade) no caso de terem antecedentes familiares de doença ou mortes precoces por patologia aterosclerótica: doença cerebrovascular, doença coronária ou de outras artérias (membros inferiores, etc.), ou grave hipercolesterolémia (isto é, maior que 300 mg/dl) ou com manifestações cutâneas suspeitas – xantelasmas ou xantomas – que são acumulações de colesterol sob a pele, mais frequente nas pálpebras ou nos cotovelos. Em todos os casos a prevenção ativa (dieta e exercício) ajuda a reduzir os riscos.
 
5. Devem vigiar o colesterol com particular cuidado, todos os fumadores, os doentes diabéticos (ou com intolerância à glicose) e todos os que tenham hipertensão arterial ou doença vascular (p. ex. cerebral, coronária, das carótidas ou dos membros inferiores).
  
6. A principal arma para prevenir o aumento do colesterol é a alimentação.
Uma alimentação correta, equilibrada, saudável e inteligente implica:
• Um nível baixo na quantidade total de gordura.
• Eliminar o mais possível as gorduras ditas “saturadas” (gorduras da carne, manteiga, queijo e leite gordos, ovos, miolos e vísceras, gorduras vegetais tratadas industrialmente (margarinas duras) ou transaturadas por sucessivas frituras.
• Preferir gorduras vegetais, mono ou poli-insaturadas (azeite e outros óleos vegetais como milho, girassol, soja, grainha de uva) ou gordura de peixe (também monoinsaturada).
• Preferir carnes brancas (p. ex. de aves: frango, peru, tirando-lhes a pele).
• Consumir peixe 3 ou 4 vezes por semana (ricos em ácidos gordos ómega 3 ou ómega 6, que são particularmente benéficos).
• Aumentar muito o consumo de vegetais (para mais de 400 gr. por dia): sopas de hortaliças, todos os legumes, saladas, fruta.
• Optar por um maior consumo de cereais (pão de segunda ou preparados ricos em fibras como p. ex. trigo ou arroz integral, farelo ou gérmen de trigo).
• Consumir mais leite magro ou outros produtos lácteos (iogurtes, queijo, etc.) também magros.
• Pode consumir bebidas alcoólicas, mas apenas de forma moderada (2 ou 3 dl de vinho tinto/dia ou 2 cervejas), se já tiver esse hábito e não tiver contraindicações (doença do fígado, excesso de peso ou obesidade).
  
7. Contribuem também para reduzir os efeitos do colesterol aumentado (ou mesmo reduzir o colesterol LDL e aumentar o HDL) a correção de algumas atitudes e comportamentos de risco, e de alguns fatores biológicos, a saber:
• Reduzir o excesso de peso e a obesidade, se possível para o peso normal (não exceder em Kg os centímetros acima do metro. Outra forma de avaliação será o índice de massa corporal (manter entre 18,5 e 25 kg/m2).
• Reduzir o perímetro do abdómen para menos que 82 cm para as mulheres e 94 cm para os homens.
• Vigiar a glicemia (< 126 mg em jejum ou hemoglobina glicada < 6%) e prevenir ou tratar a diabetes.
• Controlar a hipertrigliceridémia (para menos que 150 mg/dl após 12h de jejum), com atenção especial ao álcool e ao abuso de açúcar e doces, outros hidratos de carbono, e total de calorias.
• Reduzir o stress excessivo na vida de todos os dias.
• Diminuir o sedentarismo aumentando a atividade física diária – passeio a pé de 30 a 60 min/dia todos os dias, ou iniciar mesmo uma atividade desportiva (após exame médico).
  
8. O tratamento da hipercolesterolémia depende, na maioria dos casos, da dieta (para baixar o colesterol LDL - o “mau”), do exercício (que faz baixar o colesterol total e o LDL e subir o colesterol HDL - o “bom”), da medicação se for necessária, e do controlo médico dos outros fatores de risco que, para níveis iguais de colesterol, agravam muito os seus efeitos prejudiciais:
• Tabaco (parar já).
• Hipertensão arterial (normalizar a pressão para valores ≤ 130/85 mm Hg ou 120/80 mm Hg se for diabético ou tiver doença renal crónica).
• Diabetes ou intolerância à glicose (controlar com dieta e exercício, ou também com medicação).
• Obesidade e excesso de peso – corrigir com dieta e exercício, e eventualmente com medicação, aconselhamento nutricional e acompanhamento psicológico.
  
9. Quando a hipercolesterolémia não normaliza com dieta rigorosa (em termos de gorduras saturadas, e de colesterol, na alimentação) e com o incremento da atividade física (para além dos passeios diários a pé) pode ter de recorrer a uma terapêutica farmacológica: são vários os medicamentos ativos que baixam o colesterol “mau”, e alguns até fazem subir o “bom”. Podem mesmo associar-se novos medicamentos que começam por reduzir a absorção intestinal das gorduras. A responsabilidade e orientação destas terapêuticas cabem ao seu médico assistente.
  
10. De notar que todas as recomendações que atrás fizemos (para prevenir ou reduzir a hipercolesterolémia) se tornam particularmente importantes, ou mesmo obrigatórias, se se tratar de pessoas que já tiveram qualquer manifestação clínica de:
• Insuficiência vascular cerebral (isquemia transitória, ou mesmo trombose ou hemorragia cerebral)
• Doença das artérias coronárias (angina de peito, enfarte do miocárdio ou arritmias graves)
• Insuficiência arterial periférica (vasos do pescoço, dos membros ou de outros territórios vasculares).
 
Fonte: Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva (Prof. Fernando de Pádua)

28/08/13

S. TOMÉ E PRÍNCIPE

Mais um interessante documentário realizado por Catarina Furtado em S. Tomé e Príncipe, onde o trabalho altruísta de profissionais de saúde irá certamente contribuir para se alcançarem alguns dos objetivos do desenvolvimento do milénio neste país carenciado.


21/08/13

VACINAR CONTRA O CANCRO

A infeção pelo Papilomavírus Humano (HPV) é a doença de transmissão sexual mais comum, atingindo mais de 80 % das mulheres em algum período da sua vida. Existem atualmente duas vacinas que previnem a infeção dos 2 tipos mais frequentes do HPV, conforme explica o Dr. Mike Evans no vídeo seguinte. Se pretende saber mais sobre este tema, em língua portuguesa, pode clicar aqui.


12/08/13

POEMA DE CAMILO



Amigos

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quási rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

09/08/13

A VIDA É UM BEM SUPREMO

“A vida é um bem supremo: porque o encanto dela reside no seu princípio mesmo, e não na abundância das suas manifestações”.

 Eça de Queirós (1845-1900), in O Mandarim

05/08/13

O QUE ESPERAR DE UM BOM MÉDICO?


Os frequentes relatos de abuso e negligência nos serviços de saúde britânicos, que os media têm noticiado, levou o General Medical Council, entidade que regula o exercício da medicina no Reino Unido, a elaborar um guia dirigido aos pacientes, que tem como título What to expect from your doctor (O que esperar do seu médico). Esse documento pode ser lido aqui e sublinha que os médicos devem prestar serviços de qualidade (competência profissional), devem colocar a segurança dos pacientes em primeiro lugar e não os seus interesses (de natureza económica ou formativa p.e.), devem tratar os pacientes como pessoas, com necessidades particulares e individuais, e devem ser honestos e merecedores de confiança.

31/07/13

CONFLITO DE INTERESSES

Foi tornado público este mês um importante Parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida de Portugal, sobre Declaração de Interesse e Conflito de Interesses em Saúde e Investigação Biomédica:
 
1. As declarações de interesse de todos os intervenientes relevantes na área das ciências da vida e da saúde (incluindo sociedades científicas, associações profissionais, associações de doentes e jornalistas na área da saúde) devem ser obrigatórias, enquanto instrumento que realiza o princípio da responsabilidade, a pública prestação de contas e a transparência do exercício profissional.
2. Quem realiza, autoriza ou avalia estudos, trabalhos, projetos, dissertações, bem como instituições de ensino e investigação ou ciclos de estudo, deve igualmente fazer declarações de interesses.
3. Tais declarações devem ser atualizadas sempre que se verifique o patrocínio: a) de qualquer intervenção/comunicação científica pública (oral ou escrita); b) de qualquer reportagem, notícia ou artigo de opinião sobre saúde ou investigação científica, na imprensa científica ou outra.

4. Os profissionais de saúde:
a) devem recusar ofertas de valor significativo (a definir por lei), sem prejuízo do legítimo pagamento de serviços prestados por parte de empresas ou entidades com interesses relevantes na área da saúde; b) não devem fazer apresentações públicas ou publicar artigos científicos que beneficiem indevidamente a indústria, que sejam por ela condicionados ou contenham partes substanciais redigidas por quem não é identificado como autor ou não seja, como tal, devidamente reconhecido; c) devem recusar a prestação de serviços de consultoria que não sejam baseados em contratos escritos.

5. As declarações de interesses devem ser públicas, estando facilmente acessíveis na página eletrónica da(s) instituição(ões) de saúde, de ensino ou de investigação em causa.

6. Os profissionais de saúde ou investigadores que tenham participado na promoção de qualquer método, procedimento, dispositivo ou fármaco que a evidência científica venha a revelar ineficiente ou desadequado têm a obrigação moral de se empenhar na divulgação desta informação.

7. A participação na formação pós-graduada deve ser feita de forma institucional de acordo com os interesses profissionais e áreas de afinidade dos investigadores e profissionais de saúde.

8. As instituições de ensino superior e investigação (faculdades de medicina, escolas na área das ciências da vida e da saúde, biomedicina e biotecnologia) devem estabelecer regras de conduta para os seus docentes e investigadores e incluir no seu curriculum formal unidades curriculares que permitam aos estudantes adquirir competências nesta área.

9. Todos os investigadores que submetam artigos e apresentem comunicações com o patrocínio da indústria, ou de qualquer outro mecenas ou financiador, devem referir o respetivo apoio no artigo, na apresentação ou no material de divulgação científica em questão.

10. As declarações de interesses dos investigadores na área clínica devem ser incluídas na informação prestada ao sujeito do estudo para efeitos de consentimento informado livre e esclarecido.

11. Tratando-se de declarações de interesse que envolvam quantias financeiras (subsídios, bolsas, viagens, alojamento, consultadoria, pagamentos), devem as mesmas ser detalhadas e do conhecimento da direção/presidência da respetiva instituição.

12. Previamente à realização de estudos e à avaliação de projetos e resultados dos mesmos, deve ser feita declaração de interesses detalhada (listando todos os potenciais interesses financeiros e não-financeiros relevantes).

13. As reitorias, as direções académicas, as direções dos centros de investigação (públicos e privados) e as direções hospitalares devem ter particular cuidado para que seja manifesto nos seus relatórios de contas ou de atividades as ações de mecenato de que beneficiem.

14. Nas instituições universitárias e de investigação deve existir uma declaração de interesses sempre que estas possuam interesses financeiros em empresas incubadas no espaço da mesma.

15. Os profissionais de saúde que exerceram cargos de direção na área da saúde na gestão pública e que exerceram atividade em instituição privadas devem facultar uma declaração de interesses antes da sua nomeação.

16. Em princípio, quem ocupe cargos de direção nas áreas da saúde não deve acumular outros cargos de direção na mesma ou noutras instituições de saúde (ou a elas associadas). E, bem assim, quem seja responsável pela gestão da carreira de familiares diretos que lhe estejam subordinados, deve, tanto quanto possível e com bom senso, evitar tais situações.

17. Os membros de grupos de trabalho que elaboram normas de orientação clínica, assim como os membros de comissões, júris de procedimentos pré-contratuais e os consultores que apoiam os respetivos júris ou que participam na escolha, avaliação, emissão de orientações na área do medicamento e do dispositivo médico no âmbito dos estabelecimentos e serviços do Serviço Nacional de Saúde, bem como de outros serviços do Ministério da Saúde, devem tornar públicas as respetivas declarações de interesse. Na constituição destes grupos deve garantir-se:
a) que entre os seus membros exista uma maioria de elementos sem conflito de interesse; b) que o seu presidente não esteja em situação de conflito de interesses; c) a exclusão de elementos que tenham relações financeiras e/ou comerciais com empresas que produzam fármacos ou dispositivos que possam ser afetados pelas normas a produzir; d) a divulgação pública da declaração de interesses.

18. A política de gestão da instituição no que respeita ao pagamento de prémios e incentivos, incluindo a avaliação e os serviços contratualizados, deve ser devidamente publicitada.

19. Devem ser elaboradas e divulgadas “Normas de Orientação” e formulários em sítios de instituições e agências relevantes para investigação em Ciências da Vida, como o Ministério da Saúde ou o Ministério da Educação e Ciência, procurando homogeneização e coerência, sempre que possível numa perspetiva europeia.

20. Os membros das Comissões de Ética devem, em cada reunião, fazer a respetiva declaração de interesses relativamente aos pontos da ordem de trabalho prevista, não devendo participar na discussão e votação desses pontos.

21. A análise e gestão das declarações devem fazer parte do trabalho das Comissões de Ética institucionais.

22. A veracidade e completude das declarações podem ser verificadas por uma entidade eventualmente criada para o efeito.

23. Declarações de interesse falsas ou incompletas devem ser objeto de sanção. Do mesmo modo, o não cumprimento do dever de recusa em participar em decisão sobre a qual tenha conflito de interesses deve também ser objeto de sanção.

Pode ler este documento na íntegra aqui.

29/07/13

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos

E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira (1927-1996)


24/07/13

PRODUTOS NATURAIS E O MITO DO “MAL NÃO FAZ”


São cada vez mais as pessoas que consomem suplementos vitamínicos e dietéticos nos países desenvolvidos. A sua utilização pode justificar-se, por vezes, para colmatar alguma carência nutricional, como p. ex. durante a gravidez ou em certas doenças crónicas. Mas como já aqui referimos, na maioria das vezes tais medicamentos e análogos são inúteis e mesmo prejudiciais.

Um dos mitos que importa derrubar é a afirmação, que tantas vezes se ouve, de que “mal não faz”. No entanto, um artigo publicado este mês no Journal of the National Cancer Institute revelou que os homens que consumiam regularmente medicamentos ricos em gorduras ómega-3 apresentavam um risco aumentado (44%) de desenvolverem cancro da próstata. Neste estudo, realizado por investigadores do Fred Hutchinson Cancer Research Centre, de Seattle, os homens que apresentavam níveis mais elevados de ómega-3 na corrente sanguínea apresentavam um risco superior a 70% de desenvolverem formas mais agressivas de cancro da próstata.

Fica assim demonstrado o efeito deletério, pelo menos nos homens, de medicamentos artificialmente enriquecidos em gorduras ómega-3, e esta investigação representa mais um alerta contra o consumo de produtos “naturais”.