30/09/10

CANCRO DO CÓLON E RETO: O QUE É?

O cancro do cólon e reto é um tumor maligno que afeta o intestino grosso.

Como se desenvolve?
A grande maioria dos casos desenvolve-se, lentamente, ao longo de anos, a partir de lesões benignas, os pólipos adenomatosos. Esta evolução é geralmente silenciosa, sem sintomas.
 
Qual a sua importância?
Devido ao estilo de vida e alimentação que praticamos, o número de novos casos tem vindo a aumentar, em Portugal, de ano para ano. Mais de metade dos casos não são curáveis, resultando na morte da pessoa afetada. Atualmente, este é o cancro que mais mata em Portugal. Cerca de 10 portugueses morrem por dia em consequência desta doença.
 
É curável?
A maioria dos pólipos pode ser removida sem necessidade de intervenção cirúrgica, durante um exame designado colonoscopia. A deteção precoce da lesão e a sua remoção endoscópica levam à cura da doença. Fica assim quebrada a cadeia da sua evolução, que poderia terminar no cancro do cólon e reto. O tratamento é habitualmente cirúrgico, acompanhado ou não de outros métodos, como a quimioterapia e/ou radioterapia.
 
Quem está em risco?
Na generalidade, o risco individual de se vir a sofrer de um carcinoma colo-retal é de, aproximadamente, 6 por cento. Verifica-se nos homens e mulheres, sendo mais significativo a partir dos 50 anos. Nas pessoas com familiares do primeiro grau (pai, mãe, irmãos) com cancro do cólon e reto ou pólipos adenomatosos, o risco é mais elevado, começando a ser mais significativo a partir dos 40 anos de idade. Mais raramente, em algumas famílias que podemos identificar, o risco é ainda mais elevado, iniciando-se em idades mais jovens. Os doentes com colite ulcerosa ou doença de Crohn envolvendo uma área significativa do intestino grosso, por longos períodos de tempo, têm também um risco mais elevado.
 
Como prevenir?
Alguns comportamentos estão associados a maior risco de cancro do cólon e reto. Uma dieta rica em vegetais, sopa, frutas e cereais integrais e pobre em gorduras, particularmente, as de origem animal, ajuda a reduzir esse risco. O exercício físico e o combate à obesidade são, também, comportamentos benéficos.
 
Como detetar precocemente?
Diversos métodos de rastreio permitem a deteção dos pólipos adenomatosos e de cancro do cólon e reto em fase inicial, ainda sem sintomas. Estes métodos estão amplamente divulgados e são acessíveis. Existem diversas opções de rastreio: teste de sangue oculto nas fezes, sigmoidoscopia, colonoscopia.
 
Informe-se junto do seu médico. O rastreio pode salvar a sua vida. Viva mais, prevenindo.

Texto da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

27/09/10

A VULGARIZAÇÃO DO ABORTO

Em 2007, participei ativamente na promoção do “não” à despenalização do aborto, através de artigos, entrevistas e conferências, tentando contrariar a falta de isenção e desinformação dos media nacionais contra quem manifestasse opinião a favor da vida dos nascituros. Três anos volvidos desde a aprovação desta lei iníqua, o balanço é desastroso. Num artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias, Maria José Nogueira Pinto afirma: “Eram já conhecidos indicadores preocupantes no que se refere ao aborto após a aprovação da lei, mas ficámos agora a saber, pela voz do presidente do Conselho Nacional de Ética, que os resultados vão no sentido oposto do que foi propagado pelos que promoveram a liberalização e viabilizaram a lei: 50% das mulheres que fazem aborto faltam à consulta de planeamento familiar obrigatória 15 dias depois; há mulheres que fazem, no Serviço Nacional de Saúde, dois ou três abortos por ano; o número de abortos aumentou de 12 mil para 18 mil em 2008 e para 19 mil em 2009”.

Tal situação confirma a falácia de muitos argumentos dos partidários do “sim”, amplamente propagandeados durante a campanha de 2007, e atesta a vulgarização da prática do aborto em Portugal, que para muitas mulheres não passa de mais um método contracetivo custeado pelo Estado.

20/09/10

O MEU TEMPO

DR.ª BERTINA TOMÉ

Sentada no meu gabinete, espero pela entrada de mais um utente. Será um toxicodependente ou um alcoólico que vem a uma entrevista para possível admissão na comunidade terapêutica onde trabalho. É tudo o que sei. Cada caso tem características próprias e aguardo com alguma expectativa a pessoa que virá. Sei que se trata de alguém em sofrimento, a precisar de alterar a sua condição de vida. Sinto-me bem-disposta, e vou procurar dar o meu melhor no contacto que estabelecerei com ele. É um trabalho a que tenho prazer em dedicar-me, uma oportunidade de servir a Deus e os outros.
 
Cansada? Não, ainda não estou. O dia vai a meio. A minha expressão facial denota a frescura de uma noite bem dormida.
 
Acabou de entrar. É um indivíduo de trinta e poucos anos, magro, de expressão ansiosa. Esboço um sorriso e convido-o a sentar-se. Começamos a conversar – uma primeira abordagem que eu desejo que seja parte da mudança que ele anseia e precisa de viver.
 
É assim com todos nós. Seja qual for a nossa profissão, oferecemos a essa função as melhores horas do dia, de maior vigor físico, disposição, tolerância, criatividade…
 
Para aqueles que nos são mais próximos (marido, esposa, filhos), temos a dar-lhes os fins-de-tarde e a noite. São as sobras do dia, a altura em que nos sentimos mais cansados, todos a precisar de banho, de jantar e de descanso.
 
Há famílias em que esses fins-de-dia são vividos como um tempo desagradável, de impaciência, vozes alteradas e conflitos. Muitos até vivem o desejo, habitualmente não confessado, de “não ter de voltar para casa ao fim do dia”. E para o romance do casal restará ainda a sobra…dessas sobras, depois dos filhos deitados. Quando resta…
 
De facto, não dispomos de muitas alternativas a este ritmo de vida. Na maioria dos casos, é imperioso que ambos desempenhem a sua profissão a tempo inteiro e, por vezes, um dos cônjuges tenha até mais do que uma ocupação.
 
Contudo, a compreensão desta “injustiça” pode ser o primeiro passo para considerarmos um outro aproveitamento desse tempo como família. Situemos os pontos habituais de conflito e pensemos em estratégias que permitam atenuá-los/resolvê-los. Repensemos a distribuição de tarefas, estabeleçamos de novo as nossas prioridades e timings, admitamos introduzir novas medidas e recursos de apoio (novos eletrodomésticos, adiantamento/planeamento prévio de refeições, apoio exterior no tratamento da roupa ou na limpeza da casa, babysitting, são exemplos de medidas a considerar).
 
De facto, a intimidade necessita de tempo para se construir. Precisamos de dar-lhe prioridade sobre outras solicitações ou tarefas e não nos sentirmos mal por isso. Adiar uma tarefa doméstica em favor de um tempo de intimidade de mais qualidade é uma medida sábia. É verdade que parece contrariar aquelas normas que nos acompanharam no nosso processo educativo, sustentadas pelo principio de que “primeiro a obrigação e depois a devoção”. Porém, não será a intimidade a “obrigação” ao assumirmos o compromisso de casamento? É de tal forma necessária que a louça por arrumar ou a roupa por passar a ferro terão de lhe ser secundárias.
 
Embora vivamos ocasionalmente momentos breves mas “mágicos” de intimidade, quer com um filho quer com o cônjuge, por constituírem oportunidades de maior densidade afetiva, a verdade é que o tempo é um ingrediente fundamental. Brincar com um filho ou ir passear com o marido são meios excelentes de investir tempo na intimidade que nunca deverá ser considerado desperdiçado ou inútil. Métodos de preparação instantânea ou em micro-ondas não se aplicam neste domínio.
 
Mas residirá o segredo exclusivamente no aproveitamento do tempo? Não, não basta encontrar tempo. Há casais que, beneficiando da oportunidade de desfrutar de férias num agradável local de praia, de sol abundante e águas claras e de temperatura amena ou de um quotidiano menos agitado do que noutros tempos, não saboreiam intimidade. Não basta dispor de tempo. É necessária… vontade.
 
Jane Austen vincou este princípio: “Não é o tempo nem a oportunidade que determinam a intimidade – é apenas a disposição. Sete anos não seriam suficientes para criar proximidade em algumas pessoas, e sete dias seriam mais do que suficientes para outras”.

15/09/10

VIOLÊNCIA FAMILIAR: UM DRAMA ESCONDIDO

PROF. ADRIANO VAZ SERRA

«Refere Van der Kolk (2000) que, para as mulheres e para as crianças, mas não para os homens, os traumas que decorrem de manifestações de violência originadas por pessoas íntimas com quem se tem intimidade costumam constituir um problema muito mais grave do que os acontecimentos traumáticos infligidos por desconhecidos ou por acidentes. Em 1994, menciona Van der Kolk, 62% de quase 3 milhões de agressões feitas a mulheres nos EUA resultaram de pessoas que as vítimas conheciam. No mesmo ano, 63% de quase 4 milhões de agressões feitas a homens ocorreram com desconhecidos. Quatro em cada cinco manifestações de abuso em crianças são perpetradas pelos próprios pais. Mais de 1/3 das agressões domésticas determina lesões graves nas vítimas, o que só acontece em ¼ das vítimas de agressões feitas por desconhecidos. Estes factos, comenta Van der Kolk, levam a considerar que as agressões cometidas “por alguém conhecido” não são menos graves do que as realizadas por desconhecidos.

A violência doméstica pode manifestar-se de quatro formas distintas. A pessoa pode ser vítima de uma só ou chegar a ser vítima de todas elas.

1) Abuso emocional e verbal: usualmente ocorre de uma forma insidiosa e repetitiva, produzindo um grande desgaste emocional. Devido a estas características deixa na vítima feridas psicológicas muito marcadas, difíceis de atenuar, em que é atingida particularmente a sua auto-estima. Em que consiste? A vítima é frequentemente humilhada no confronto consigo e perante os outros, são-lhe chamados os piores nomes possíveis, é manipulada nos seus desejos e sentimentos e é constantemente inferiorizada naquilo que diz e no que realiza.

2) Isolamento: nestes casos a vítima é impedida de ter contacto com familiares ou amigos e, muitas vezes, igualmente com outras pessoas ou situações que possam ser gratificantes. O abusador, a fim de obter um controlo completo sobre a vítima, leva-a e vai buscá-la ao local de trabalho ou a quaisquer outros sítios onde refira que precisa de ir.

3) Ameaças e intimidações: o abusador costuma igualmente fazer ameaças de violência física em relação à vítima, pessoas da sua família de origem, filhos ou animais domésticos de que a vítima goste. Igualmente faz ameaças de “correr com ela” ou “de a deixar sozinha”, levando consigo os filhos.

4) Abuso físico: este costuma surgir como uma sequência natural de escalada quando já ocorreram os pontos anteriores. Quando há períodos em que deixa de haver abuso físico, o facto não significa que as circunstâncias anteriormente mencionadas não vão continuando a surgir e a produzir o seu desgaste emocional.

Infelizmente, em grande número de casos, a vítima tem tendência a esconder o que lhe acontece, por uma questão de vergonha, de dependência económica ou por falta de testemunhas que comprovem o que se passa. Não toma, por isso, as medidas adequadas à sua própria defesa. Por vezes, pessoas que testemunharam os factos, não desejam assumir o seu papel para não se envolverem em conflitos familiares desagradáveis.
 
Biden (1993) refere a este propósito: “Todos os dias, a todas as horas, na realidade em todos os minutos, uma mulher nos EUA sofre a dor e a violência de uma agressão física. Por cada 6 minutos que passam uma mulher é violada”...”a violência doméstica é a causa principal das lesões sofridas pelas mulheres entre os 15 e os 44 anos”...”O abuso conjugal é mais comum do que o número de acidentes de automóvel, assaltos e as mortes por cancro no seu conjunto”. Este autor menciona ainda:”...um terço das mulheres, vítimas de homicídio, morre às mãos do seu próprio marido ou do seu namorado”.

Em Portugal, de acordo com dados do Ministério da Administração Interna, as denúncias de violência doméstica têm vindo a aumentar progressivamente, para valores superiores a 11% ao ano, tendo-se registado 11.162 queixas em 2000, 12.697 queixas em 2001, 14.071 queixas em 2002, 17.427 queixas em 2003, tendo subido para 20.000 em 2006. A violência contra a(o) cônjuge ou companheira(o) é a mais frequente, constituindo 84% das denúncias.
 
Segundo o Serviço de Informação a Vítimas de Violência Doméstica a quase totalidade das chamadas recebidas é feita por mulheres (97,8%), pertencendo predominantemente às faixas etárias dos 25 aos 34 anos e dos 35 aos 44 anos.

A Assembleia Geral da ONU definiu, em 1993, a violência contra as mulheres como qualquer acto de violência com base na diferença de género que resulte ou tenha a probabilidade de resultar em lesão ou sofrimento físico, sexual ou mental, incluindo as ameaças de tais actos, coacção ou privação arbitrária de liberdade, quer ocorra em público quer na vida privada.
 
Judith Herman (1997) refere que os sobreviventes de condições traumáticas, prolongadas e repetidas, desenvolvem frequentemente mudanças persistentes da sua personalidade, incluindo distorções no seu relacionamento com os outros e na sua identidade pessoal. Torna-se uma situação crónica e debilitante que usualmente corresponde a uma história de submissão a um controlo totalitário, durante um período prolongado de tempo, que pode oscilar entre meses e anos.

Van der Kolk et al. (1996) referem que esta entidade clínica, usualmente ligada a circunstâncias traumáticas precoces, costuma apresentar um conjunto complexo de sintomas, nomeadamente:
- Alterações na regulação dos impulsos afectivos, incluindo dificuldade na modulação das manifestações de cólera e comportamento auto-destrutivo;
- Alterações da atenção e da consciência, levando a estados de amnésia, a episódios dissociativos e a fenómenos de despersonalização,
- Alterações na auto-percepção, comprovadas por um estado permanente de culpabilidade, responsabilidade e vergonha;
- Alterações no relacionamento com as outras pessoas, em que o indivíduo se revela incapaz de confiar nos outros e de desenvolver uma relação de intimidade;
- Manifestações de somatização, em que o indivíduo se queixa de sintomas somáticos para os quais não se encontra explicação médica e
- Alterações nos sistemas de significação (perda da fé e sentimentos de desespero e de desesperança).
Como casos típicos assinalam-se as situações de sobreviventes de exploração sexual organizada, de abuso físico ou sexual na infância e de maus-tratos domésticos».

O texto que hoje publico, com a autorização do Prof. Adriano Vaz Serra, integra a excelente comunicação que proferiu em 2008, intitulada "Violência não visível nas sociedades modernas (“A dor que não tem nome”)". Recomendo a leitura do texto integral aqui.

06/09/10

DOENÇA VENOSA: CONSELHOS GERAIS

Algumas das recomendações que faço aos meus doentes com varizes ou com sinais ou sintomas de insuficiência venosa dos membros inferiores:

Praticar actividade física moderada (p.e. andar a pé, ginástica, dança, natação, ciclismo).
Evitar exposição ao calor e água quente (p.e. sol, lareira, sauna, jacuzzi).
Evitar o uso de roupas apertadas e sapatos de salto alto ou sem salto. Os sapatos devem ter 3-4 cm de altura no calcanhar.
Evitar períodos prolongados em pé ou sentado/a, principalmente na mesma posição.
Evitar o excesso de peso e a prisão de ventre.
Dormir com os pés da cama elevados 10-15cm.

12/07/10

O DESEJO DO FILHO E A TECNOLOGIA (2.ª parte)

DR. JORGE BISCAIA

Mas a grande intervenção tecnológica dos nossos dias na área da maternidade/paternidade foi a reprodução medicamente assistida. Curiosamente foi no meio dum mundo dominado pela contraceção que o sofrimento da esterilidade impulsionou o enorme salto das técnicas de reprodução humana.
 
Quando há pouco mais de 20 anos nasceu Louise Brown (o primeiro bebé a ser formado in vitro), o filho ainda embrião passou a ser acessível aos médicos e aos cientistas. O que até ali não era mais do que um sopro de vida nascido duma relação amorosa, dissimulado nove meses na profundidade do corpo materno, passou a ser visível e aparentemente controlável. Controlável pelo progresso da ecografia que o permitia visualizar, tornando-se um dos métodos do chamado diagnóstico pré-natal de doenças e anomalias cada vez mais sistemático e menos invasivo.
 
Aos casais estéreis foi anunciada a certeza de que, através da técnica, a esperança de que a sua vida e o seu amor se poderiam concretizar num descendente perfeito que lhes estava geneticamente ligado. Contudo esta possibilidade de manipulação de duas células para delas nascer uma nova vida humana colocou alguns problemas a toda a complexa formulação do desejo do filho.
 
O primeiro foi o da intromissão da tecnologia na intimidade relacional do casal que se pretende unido numa pessoa conjugal. A colheita de espermatozoides, a estimulação ovárica, a colheita do óvulo, a introdução dos gâmetas, do zigoto ou do embrião na cavidade uterina são próteses muitas vezes chocantes que culminam toda a anterior contrafação de exames e de investigações sobre uma vida a dois, que sempre tinham sonhado como livre, íntima e espontânea. Só um profundo amor conjugal aliado a uma grande humanidade da equipa que trata a esterilidade permite superar, sem feridas psicológicas, todo este longo caminho algumas vezes com insucessos sucessivos sempre possíveis com uma técnica que dá 20 a 25% de êxitos.
 
Depois, a confirmação de que havia uma infertilidade de causa masculina cada vez mais importante, conduziu ao recurso a bancos de esperma inicialmente protegidos por um anonimato que hoje praticamente nenhuma legislação atual já defende. De resto o avanço técnico que permite a fecundação por injeção intracitoplasmática com espermátide do marido, apesar de algumas dúvidas quanto ao futuro filho, cada vez mais os torna desnecessários.
 
Mais tarde foi possível congelar igualmente ovócitos, para utilizar em mães que os não possuíam, repetindo deste modo o mesmo tipo de manipulações atrás sugeridas.
 
Começou a criar-se assim a possibilidade duma enorme dissociação entre o pai e mãe genéticos e os pais em cuja intimidade tinha nascido a ideia dum filho. Essa dissociação era ainda muito grosseira quando se utilizava, para se conseguir uma gestação, um outro útero que não o da mãe genética (como aconteceu com as chamadas mães hospedeiras, benévolas ou pagas), ou se prescindia mesmo dum pai pessoal para gerar um filho numa mulher que tinha decidido substituir a presença masculina por um pouco de esperma anónimo ou mesmo esperma dum pai, já morto na altura da fecundação. A paternidade perdia muito do seu sentido de encontro de pessoas para se identificar com simples encontro de células.
 
O congelamento de embriões para os utilizar mais tarde, criou depois verdadeiros embriões do frio, que podiam permanecer eternamente órfãos de pais na solidão das arcas de ultracongelação. Abriu-se, assim, caminho à ideia de utilizar muitos destes embriões abandonados para experiências de carácter puramente especulativo coisificando mais esse começo de vida humana.
 
A seleção de embriões por diagnóstico pré-implantatório após fecundação in vitro, para escolher os sãos, ou de um único sexo, pode ter conotações eugénicas. E só os progressos no desenvolvimento de embriões in vitro, levou a não implantar no útero mais do que um ou, no máximo, dois embriões, como as legislações mais modernas agora impõem, tornando inútil a eliminação de alguns pela chamada redução embrionária.
 
Também aqui, uma tecnologia que tinha por fim responder ao desejo dos pais, criando uma nova vida, deixou que subtilmente nela se introduzisse uma cultura de morte, de que hoje com muita dificuldade se está a libertar.
 
Assim, os desvios no tratar a esterilidade, dentro dum espírito de amor mútuo do casal que via no filho alguma coisa que ultrapassava a relação genital, tornaram obrigatória uma profunda reflexão ética sobre o filho que se deseja.
 
Mas será que o filho representará a única e verdadeira fecundidade conjugal?
 
Ora a grande verdade é que, amar o outro, é ter esperança nele, é acreditar que cada um tem sempre mais futuro do que passado e é nesse acreditar que acaba por estar o grande e verdadeiro sentido da fecundidade gerada pelo casal.
 
O desejo do filho está contido nesse mesmo apelo permanente da esperança. Só assim ele será verdadeiramente assumido como dom, criado para uma autonomia. Por isso a técnica que admite a sua programação excessiva pode ameaçar o futuro a que ele tem direito já que, ter um filho, é um aceitar o risco da sua liberdade realizada no tempo.
 
Os limites éticos, quer do controle da natalidade, quer na procura duma fecundidade genética, passam assim também pela recusa de toda a obstinação terapêutica. Só essa atitude fará com que a tecnologia ligada à procriação deixe de ser a verdadeira senhora do homem futuro e não a grande servidora do seu bem e da sua dignidade.
 
Na verdade, o controle de natalidade ou a cura da infertilidade não podem fazer do filho uma simples terapêutica que satisfaça qualquer desejo dos pais. Pelo contrário ele tem o direito de esperar que vai ser acolhido por quem pensa nele mais como um ser para os outros, do que um filho para si.
Isto implica também que os pais sejam capazes de assumir a dois os limites, quer à riqueza da natalidade, quer à pobreza da infertilidade, em que não poderão ser separados, mesmo quando a esterilidade é só atribuível a um deles.
 
A intromissão da equipa técnica que intervém na génese dum filho de procriação assistida tornará obrigatório que ele seja, de certo modo, adotado. Viverão assim, com o seu filho genético, um sentir semelhante ao de uma adoção de um embrião congelado ou de uma criança abandonada.
Deste modo as descobertas tecnológicas e o modo de sonhar o filho têm vindo a interagir entre si. Esta interação tem mostrado, principalmente neste campo, de que modo o progresso da ciência é sempre ambíguo na sua utilização.
 
Nuns casos tanto permitiu espaçar esse sonho para proporcionar aos filhos melhores condições de autonomia futura como também pode impedir o seu nascimento para manter um egoísmo dum casal que recusa os filhos ou quer um filho único, como um consolo de custos limitados.
 
Noutros casos, a tecnologia aparece como a grande porta para acabar com uma infertilidade que exacerba o desejo do filho. Mas também essa técnica aplicada ao homem deve aceitar os seus limites. Primeiro os limites ligados ao respeito pela dignidade do casal que se assume unido numa só pessoa conjugal. Depois os limites que são inerentes à vida de um embrião visto desde sempre como um filho dos dois que deverá ser tanto mais defendido quanto mais o sabem cheio de vulnerabilidades.
 
A técnica será obrigada a descobrir os caminhos que mantenham estes critérios éticos fundamentais sem que o desejo do filho nunca o possa transformar num direito dos pais.
 
Com este objetivo a balizar-lhe o crescimento ela ajudará a descobrir que o verdadeiro sentido desse desejo só se realizará quando eles virem que o grande dom que ele lhes oferece está na descoberta de que são livremente dependentes daquele que irá nascer. Só isso lhes permitirá aprender a crescer com eles aceitando todas as fragilidades de quem se sabe finito.
 
Ao viver este caminho até à sua morte pessoal, na incerteza, na dúvida, mas também na esperança, os pais poderão assumir que o desejo do filho, muito mais do que um princípio genético, tem de conter em si a fonte de um amor em que eles serão o rosto visível do futuro.
 
Aprenderão assim nesta relação nova, que irá perdurar para lá da morte, a grande resposta ao apelo de infinito inscrito desde o primeiro momento no genoma humano.

08/07/10

O DESEJO DO FILHO E A TECNOLOGIA

DR. JORGE BISCAIA

Cada um de nós tem em si um sonho de eternidade.Por isso, quando um homem e uma mulher se encontram numa promessa de amor, assumem sem limites a perenidade do seu encontro embora a fragilidade de cada um e o passar dos anos acabe por mostrar como essa certeza de permanência é muitas vezes efémera.
 
Não admira, pois, que o desejo do filho apareça como um sinal que levará para além do tempo o compromisso do seu encontro.
 
É certo que esse desejo nem sempre é imediato e espontâneo, já que o casal se confronta com incertezas pessoais ou económicas quanto ao futuro, ou vive num certo egoísmo a dois que secundariza o filho. Com estas ou outras razões a ideia do filho, às vezes, acaba por ser afastada para momento mais oportuno.
 
Talvez por isso mesmo a primeira grande intervenção da tecnologia na reprodução começou por procurar restringir os nascimentos e não por promover a fecundidade.
 
Inicialmente a reflexão teórica predominante começou por ser puramente económica e social, como parece claro no discurso do banquete escrito por Malthus, já em 1798 na primeira edição do seu “Ensaio sobre a População”.
 
Aí defendia-se a limitação dos nascimentos como reflexo dum terrível egoísmo económico. Reproduzo o pensamento de Malthus quando disse que ...”num mundo já possuído, os vindouros (os filhos), de cujo trabalho a sociedade não necessita, só vêm perturbar a ordem estabelecida do grande banquete da natureza, obrigando à partilha não desejada dos alimentos, sempre limitados e já de si escassos. Como não há lugares vagos, mesmo se alguns convivas se apertem para lhes dar espaço, é melhor mandá-los embora antes que novos intrusos apareçam perturbando a alegria da sala com a sua penúria (...)”. Porém, como o método de contracepção preconizado era a redução ou mesmo abstenção das relações sexuais, e como eram pouco conhecidos os dias de infertilidade, o nascimento dos filhos continuou mais ou menos incontrolado.
 
Mas por muito pouco que este discurso do banquete seja hoje conhecido, nem por isso a ideia de que o filho não era inevitavelmente um bem deixou de continuar a influenciar os casais dos nossos dias. A ideia, que hoje se sabe errada, de que o aumento da natalidade, a chamada "bomba demográfica", provocava grande penúria económica e não o crescimento da economia fazia do filho um mero custo sem benefícios.
 
Mais tarde, a tecnologia, ao conseguir a determinação mais exacta dos períodos de fecundidade no ciclo feminino mas, principalmente, com a melhoria dos métodos de barreira, e de contracepção química e medicamentosa, iniciou a separação, hoje cada vez mais evidente, entre a fertilidade e a relação sexual.
 
Ao mesmo tempo o progresso dos direitos da mulher também ajudou a modificar o seu modo de vida que deixou de ser quase unicamente ditado pela procriação e pela educação dos filhos. A profissionalização que foi conseguindo tornou possível a sua legítima realização através de uma carreira que lhe dava satisfação, prestígio e autonomia económica. De certo modo esta evolução alterou o sentido do seu desejo de um filho até ali vivido, pelas mulheres que não tinham optado pelo celibato duma vida religiosa, como a concretização da sua dignificação como pessoa.
 
Deste modo o filho começou a correr o risco de deixar de ser desejado pelos dois como um dom que, embora nem sempre esperado, se procurava acolher. Pelo contrário, prevalecia a ideia do filho, idealmente perfeito, que só deveria ter direito a nascer quando racionalmente programado para um mundo onde a sua força produtiva fosse útil, numa espécie de complemento de outros elementos de realização do casal.
 
Porém, desde logo, as possibilidades de limitar os nascimentos levantaram algumas decisões de cariz ético. Na verdade alguns métodos impedem a nidação e destroem o embrião após a união singâmica do óvulo e do espermatozóide, como acontece com alguns dispositivos intra-uterinos e certos tipos de pílulas, principalmente na chamada "contracepção de emergência". Nestes casos, a morte embrionária configura-se como a destruição indiscriminada duma vida humana. Este filho coisa, que se elimina porque não é oportuno ou porque tem qualquer malformação, representa a negação de toda a riqueza contida no desejo do filho vivido na esperança.
 
Porém, para além destes problemas éticos, a contracepção tornou obrigatório um discernimento centrado no interesse do filho.
 
Para ele, será melhor que o casal tenha melhores condições económicas e dentro delas qual o critério para as considerar no limite ideal? Será prioritária que a ocupação dos pais lhes permita uma maior presença junto do filho mesmo à custa duma perda no salário? Será necessário que haja uma casa maior, uma maior estabilidade emocional e uma maior segurança conjugal? Será desejável ter um, dois, três ou mais filhos e com que diferença de idade?
 
Introduz-se assim um mundo de racionalidades que têm o mérito de criar o diálogo conjugal sobre um filho que nasce primeiro no pensamento dos pais do que no útero materno. Porém este imaginário corre o risco de fazer do filho alguma coisa de tal modo antecipadamente idealizada que dificultará o encontro com a pessoa real que ele um dia terá de ser.
 
Além disso, talvez diminua a capacidade para aceitar uma falha do método de contracepção e a gravidez inesperada, ou mesmo uma eventual e não previsível gravidez gemelar. E como não considerar nervosa e precocemente como esterilidade uma concepção, que uma vez decidida, se não concretiza?
 
Porém a maioria dos casais vê a tecnologia da contracepção como uma mera técnica que evita o nascimento do filho ou que permite o filho único, esquecendo muitas ponderações éticas que aqui foram feitas.

17/06/10

HOMEOPATIA: DO MITO À REALIDADE


Quando, em 1995, fui chamado a cumprir o Serviço Militar, na altura ainda obrigatório, aproveitei a interrupção laboral forçada para fazer uma pesquisa bibliográfica sobre a homeopatia. Desse estudo, realizado com espírito aberto e sem preconceitos, resultou o artigo que hoje publico, cuja versão integral com as respetivas referências bibliográficas poderá ser encontrada na revista Arquivos de Medicina (11: 59-61, 1997), onde foi originalmente publicado:

Na era do laser e da telemedicina, assistimos a um crescente interesse pelas chamadas medicinas alternativas, sendo a homeopatia uma das mais populares, embora relativamente desconhecida entre a classe médica. Pretendemos neste artigo fazer uma reflexão séria e isenta acerca desta prática, tendo em conta a aprovação, em Maio de 1995 (contrariando a posição defendida pela Ordem dos Médicos), do decreto-lei nº94/95, que legaliza a comercialização, no nosso país, de produtos homeopáticos para uso humano.
 
Curar o mal com o mal
 
A palavra “homeopatia” engloba duas palavras gregas - homoios (semelhante) e pathos (doença). A noção fundamental da prescrição homeopática encontra-se resumida no aforismo latino “similia similibus curantur”, da autoria do seu fundador (Samuel Hahnemann), que significa: “o semelhante cura o semelhante”. É o chamado princípio da similitude, segundo o qual uma substância capaz de, no seu estado natural, provocar determinados sintomas num indivíduo saudável pode tratar, quando usada em doses reduzidas, aqueles mesmos sintomas num indivíduo doente.
 
Vamos procurar explicar este princípio recorrendo a alguns exemplos. É do conhecimento geral que a cebola é irritante para os olhos. Em pessoas sensíveis, estes podem ficar congestionados, produzindo abundantes lágrimas. Sendo estas manifestações idênticas às que se verificam nas vulgares constipações, o extrato de cebola é utilizado na preparação de produtos homeopáticos usados no “tratamento” das constipações.
 
Um outro exemplo: O manuseamento frequente de gasolina ou outros derivados do petróleo pode ocasionar, em indivíduos suscetíveis, um eczema cutâneo irritativo. Assim sendo, o produto homeopático mais usado para “tratar” este tipo de afeções é, precisamente, a gasolina.
 
A maior parte das substâncias utilizadas no fabrico de produtos homeopáticos é proveniente de plantas, minerais, ou mesmo venenos (p. e. arsénico, veneno de serpente, etc.). Se muitas destas substâncias fossem usadas no seu estado natural provocariam a morte. Assim, um segundo princípio fundamental da homeopatia é o da infinitesimalidade ou das doses mínimas. Contrariando o senso comum, afirmam que toda a substância que, em dose ponderal, é capaz de provocar determinada sintomatologia no indivíduo são, pode tratar esses mesmos sintomas quando usada em doses infinitesimais. Por outras palavras, quanto mais diluída a substância original (chamada tintura-mãe), maior a sua atividade e eficácia.
 
Para a obtenção do produto final, procede-se à diluição da tintura-mãe, a partir da qual é retirado um volume e misturado com 99 volumes de solvente (água pura ou álcool), obtendo-se uma primeira diluição centesimal (1C), também chamada primeiro centesimal hahnemanniano ou 1CH. Desta diluição inicial é retirado novo volume e misturado novamente com 99 volumes de água, obtendo-se uma segunda diluição centesimal (2C), que representa 1/100 da precedente. E assim sucessivamente, durante 12, 30 ou mais vezes. Uma diluição 12C, frequentemente usada, representa a mistura de um mililitro da substância original com 100.000.000.000 mililitros de solvente. Alguns homeopatas vão ainda mais longe, usando diluições de 30C, preferidas pelo próprio Hahnemann.
 
Se a substância natural de base for insolúvel, procede-se à sua trituração em pó de lactose também na proporção de 1 para 100. Todas as diluições são intercaladas pela agitação ritmada e vigorosa da solução, tendo em vista a sua “dinamização” ou “potenciação”.
 
Após a nona diluição centesimal (9C), mesmo as análises mais delicadas, utilizando produtos radioativos, não permitem já detetar qualquer molécula da substância natural de base no produto homeopático final. Confrontados com os resultados dessas pesquisas da Organização Mundial de Saúde, os homeopatas argumentam que “o efeito curativo não é material, mas envolve um outro fator - a energia”, a que também chamam “força vital”, resultante da agitação vigorosa das soluções.
 
Para chegar a alguma conclusão acerca de qual o produto mais indicado para determinada situação, o homeopata regista todos os sintomas e queixas referidos pelo doente, mesmo os mais triviais e incongruentes, tais como a recente aversão a um alimento, um sonho repetitivo ou mesmo as esperanças do paciente quanto ao futuro. Recorre então ao receituário homeopático, de modo a encontrar uma substância que produza os “sintomas” que mais se assemelhem aos transmitidos pelo doente. No entanto, a duas pessoas com os mesmos sintomas poderão não ser prescritos os mesmos produtos, que poderão também variar de ano para ano, ainda que a doença seja a mesma. Isto porque a personalidade individual do paciente e seu estado de espírito, na altura da consulta, são considerados essenciais na determinação da substância mais eficaz.
 
Que verdade?
 
Até ao momento, não se encontrou qualquer evidência, cientificamente comprovada, do mecanismo de ação e eficácia da homeopatia. Os princípios em que se baseia contrariam o senso comum, as leis da natureza e os conceitos subjacentes à ciência moderna e à medicina convencional.
 
Refira-se, a este propósito, o veredicto da prestigiada Academia de Medicina Francesa, num relatório sobre as chamadas medicinas paralelas, feito a pedido do Ministério de Saúde desse país, em 1987. O Prof. H. Gounelle de Pontanel, sintetizando todos os estudos, realizados por especialistas de diferentes áreas, concluiu não terem sido encontradas quaisquer bases científicas válidas em favor da eficácia terapêutica dos produtos homeopáticos.
 
No ano anterior, a Associação Médica Britânica tinha já concluído que a única explicação plausível para o relativo sucesso, em algumas situações, dos produtos homeopáticos, se devia simplesmente ao chamado efeito placebo. Este efeito traduz a ação de um produto não ativo, do ponto de vista farmacológico, que em determinadas situações, em alguns doentes, produz um efeito real benéfico para a situação clínica em causa. Para isso contribuem diversos fatores, nomeadamente do foro psicológico, tais como a confiança do doente no produto, a convicção do médico ou uma boa relação médico-doente, assim como o próprio aspeto dos medicamentos ou um esquema posológico invulgar.
 
Vários estudos posteriores têm sido realizados e publicados em revistas médicas e científicas. Alguns deles, envolvendo homeopatas, concluíram ser a homeopatia terapêutica eventualmente eficaz de patologias como a febre dos fenos, asma ou diarreia aguda nas crianças. No entanto, estudos repetidos por outros autores em outros centros, não confirmaram os mesmos resultados favoráveis. A maioria das investigações têm sido inconclusivas ou negam claramente a eficácia da homeopatia no tratamento de diversas patologias. Algumas têm mesmo demonstrado que o recurso a esta forma de “medicina alternativa” pode ter consequências nefastas em patologias suscetíveis de tratamento médico ou cirúrgico, ao atrasar ou impedir uma atuação médica curativa eficaz, bem como pelo seu potencial tóxico.
 
Conclusões
 
Numa conferência da New York Academy of Sciences, ocorrida em Junho de 1995, várias dezenas de conceituados cientistas norte-americanos, apreensivos com o crescimento das “medicinas alternativas” e a atração das massas pelo esoterismo e irracional, fizeram a defesa da ciência contemporânea. Esta baseia-se em princípios racionais e interligados, descobertos através de uma observação rigorosa e aplicação do método científico.
 
A atuação dos fármacos convencionais é disso um exemplo bem característico. De um modo geral, conhecem-se os seus mecanismos de ação. Podem atuar em recetores específicos, modificar o transporte celular, atuar como inibidores enzimáticos, como substitutos de componentes endógenos em falta ou ainda como quelantes. Por outro lado, os efeitos farmacológicos dos medicamentos dependem das suas concentrações no seu local de ação. Dentro de certos limites, quanto maior for a sua concentração, maior o efeito farmacológico resultante.
 
A avaliação do efeito terapêutico dos fármacos não se pode basear apenas na experiência pessoal do médico, altamente falível e subjetiva, nem na acumulação de experiências individuais ao longo do tempo, mas deve ser o resultado de rigorosos ensaios clínicos repetidos, cientificamente controlados. Porém, muitos homeopatas afirmam que os efeitos dos seus produtos não podem ser objeto de investigação científica, alegando as características subjetivas da prescrição homeopática.
 
Em conclusão, a homeopatia é uma prática pseudocientífica que não resiste a uma avaliação séria, rigorosa e isenta, com base no método científico, não devendo nunca substituir uma correta prática médica. A legalização da comercialização de produtos homeopáticos, no nosso país, desde Maio de 1995, imposta por interesses puramente económicos, constitui um retrocesso face aos valores que estão na base da Medicina e Ciência modernas.

04/06/10

EUTANÁSIA: UMA QUESTÃO PERSISTENTE

Subscrevo integralmente a Declaração seguinte, do Centro de Estudos de Bioética, sobre o tema antigo mas sempre actual da eutanásia.
 
Entre as questões éticas respeitantes à vida humana, a eutanásia permanece sempre actual. A morte provocada a uma pessoa, a seu pedido, tem sido apresentada, por alguns, como expressão de compaixão por quem sofre e como sinal de respeito pela autonomia do doente terminal. Ao contrário desta ideia que tentam banalizar, pertencemos ao grupo claramente maioritário para quem é inaceitável matar um doente, seja qual for a explicação que se pretenda dar para essa morte provocada O mais importante é fornecer-lhe todos os cuidados, de modo a tratar a dor e outros sintomas, de forma a proporcionar-lhes uma vida com qualidade, até ao fim natural. O direito comparado aceita esta posição, verificando-se a proibição da eutanásia na esmagadora maioria dos países.
 
Entre nós, num destes surtos cíclicos de abordagem da questão, o problema tem sido ultimamente de novo agitado, não faltando sequer propostas “fraturantes”.
 
Perante esta situação, o Centro de Estudos de Bioética, que foi pioneiro na análise e no aprofundamento deste problema, como aliás de resto em todo o esforço de difusão da Bioética em Portugal, entende dever pronunciar-se nos seguintes termos:
 
1. A vida humana é inviolável ( artigo 24 nº1 da Constituição da República Portuguesa. É pois, dever inalienável do Estado e da Sociedade tudo fazer para minorar a solidão e o sofrimento físico dos que precisam de acompanhamento técnico e humano de “consultas de dor” e de cuidados paliativos nas situações de doença grave ou de incapacidade prolongadas. O papel dos profissionais de saúde é o de proporcionar aos doentes toda a atenção necessária para poder dar-lhes uma vida com qualidade.
 
2. Para tal, urge implementar o direito de acesso a bons cuidados paliativos, como de resto existem já em Portugal , infelizmente em número claramente não suficiente para quem deles necessita.
 
3. A proibição da eutanásia na lei justifica-se pela protecção de um bem fundamental, que é o da vida do doente. Defende ainda o paciente de possíveis abusos de uma hipotética autorização para matar a pedido, mesmo quando ela não existe, como tem sucedido na Holanda (eutanásia involuntária de doentes adultos e mesmo de menores). Essa protecção é exigida pela ética médica, que seria gravemente comprometida se o papel dos médicos e dos enfermeiros que com eles colaboram, como garantes da defesa da vida, se transformasse no de prestadores oficiais da morte.
 
4. Nestas condições, o Centro de Estudos de Bioética exprime, através da sua Direcção, um parecer positivo quanto à mais rápida e total implementação da rede de cuidados paliativos, certo de que a resposta a um (raro) pedido de eutanásia é a compassiva e total prestação de cuidados, de modo a que o doente terminal viva em paz a sua vida até morrer. Esta é, na verdade, a morte medicamente assistida a que todos temos direito.
 
A Direcção do Centro de Estudos de Bioética: Jorge Biscaia, Daniel Serrão, António de Almeida e Costa, Michel Renaud, Vasco Pinto de Magalhães s.j.

01/06/10

O MÉDICO, Samuel Luke Fildes (1891)


Esta é, provavelmente, a pintura mais famosa representando a profissão médica. O seu autor, o pintor inglês Sir Luke Fildes (1843-1927), perdera o seu filho 14 anos antes, vitimado por uma das múltiplas doenças infecciosas da infância, para as quais não havia na época terapêutica eficaz.