29/03/10

EU PARO QUANDO QUISER


Acaba de ser editado o livro “EU PARO QUANDO QUISER - Como lidar com vícios em crianças e adolescentes”, da Dr.ª Mena Casaleiro, cujo prefácio (que aqui publico) tive a honra de escrever:

O título do livro que tem entre mãos, «Eu Paro Quando Quiser – Como lidar com vícios em crianças e adolescentes», confronta-nos e desafia-nos. Alguns poderão considerá-lo excessivo e mesmo contraditório. Será possível as crianças, cuja candura e encanto tanto apreciámos, terem vícios?
Os dicionários definem «vício» como sendo qualquer «hábito ou costume prejudicial». A autora está consciente de que muitos dos comportamentos descritos no seu livro, sobretudo na infância, quando ocasionais ou até executados com uma certa regularidade, são relativamente inofensivos. Podem mesmo fazer parte do processo normal de crescimento e desenvolvimento da criança. O seu potencial destrutivo surge a partir do momento em que se tornam de tal maneira arreigados e compulsivos que constituem uma verdadeira adicção ou dependência, ou seja, se tornam autênticos vícios a combater.
Mena Casaleiro, com a sua sensibilidade de mulher e mãe, além de uma rica experiência clínica em terapia da fala e aconselhamento, escreve uma obra de referência sobre um assunto crucial e pertinente. Num estilo claro, fluente e bem estruturado, aborda com frontalidade e realismo uma preocupação de muitos educadores, nem sempre devidamente discutida e valorizada.
Na obra «Eu Paro Quando Quiser», a autora não se limita a identificar detalhadamente os hábitos e comportamentos nocivos mais comuns na infância e adolescência. Ao explicitar quais os “passos para a mudança” oferece a esperança de solução do problema e restauração integral da pessoa que se deixou controlar por ele. Por outro lado, tranquiliza os pais e encarregados de educação de crianças e adolescentes que apresentam algum dos vícios descritos no livro e acumulam sentimentos de culpa por esse motivo. A causa do aparecimento do vício é geralmente multifactorial e não por terem sido negligentes ou “maus pais”. No entanto, o seu contributo para a resolução do problema é essencial e inestimável. Ignorar o vício ou esperar que desapareça com o tempo é a pior atitude. O facto deste livro ter suscitado o seu interesse e ter iniciado a sua leitura demonstram o seu empenho e determinação em assumir o seu papel de formador consciencioso e esclarecido.
Para tirar o máximo proveito destes textos, a leitura deverá ser efectuada com espírito aberto e sem preconceitos, não se deixando influenciar pela atitude de permissividade e relativismo tão em voga nos dias de hoje.
Mena Casaleiro reconhece e valoriza a dimensão transcendente do ser humano, bem expressa nas palavras de Teilhard de Chardin, «Nós não somos seres humanos que têm uma experiência espiritual; somos seres espirituais que têm uma experiência humana». A sua fé cristã e conhecimento da Bíblia, conferem-lhe uma perspectiva ainda mais abrangente e completa na abordagem e tratamento dos vícios descritos no seu livro, até porque muitas vezes existem sentimentos de culpa envolvidos que não é possível escamotear.
Todos os pais e educadores que se preocupam com o desenvolvimento integral e saudável das suas crianças e jovens irão ser grandemente enriquecidos, esclarecidos e ajudados pela sua leitura.

17/03/10

HUMANIZAÇÃO NA SAÚDE

O texto que hoje publico é uma adaptação do artigo escrito originalmente em inglês pelo meu colega e amigo Dr. Huw Morgan, um dos formadores sénior da PRIME - Partnerships in International Medical Education:
É sempre reconfortante quando a investigação científica confirma a nossa intuição. Um editorial recente do British Medical Journal (BMJ 2010; 340:c657), sobre o tratamento da infecção urinária nos cuidados de saúde primários, tem como subtítulo “O modo como os médicos prestam os cuidados é tão importante como o tratamento em si”.
Nesse texto, é referido: “A descoberta mais interessante deste estudo é chamar a atenção para um aspecto muitas vezes esquecido – não é só aquilo que é feito que tem importância mas a forma como o cuidado é prestado. Os sintomas foram de menor intensidade e duração sempre que o médico fazia uma abordagem positiva em relação ao diagnóstico e prognóstico. Mais importante ainda, numa época em que se valorizam os protocolos e cumprimento de metas, o estudo de Little e colaboradores demonstra que o modo como o médico presta os cuidados pode aumentar a eficácia dos tratamentos. Uma preocupação excessiva com o diagnóstico e terapêutica pode ocultar aspectos mais amplos acerca do que influencia o tratamento”.
Estas conclusões confirmam outra descoberta importante relatada por Little alguns anos antes (BMJ 2001; 323:908-911) – uma abordagem centrada no paciente, durante a consulta, que inclua uma atitude positiva em relação ao diagnóstico e prognóstico comunicados pelo médico, está associada a uma melhor evolução clínica, seja qual for a natureza da doença inicial.
Estes estudos reiteram aquilo que para muitos profissionais de saúde parece evidente – um relacionamento médico-paciente cuidadoso, positivo e compassivo é tão importante como um diagnóstico correcto e técnicas terapêuticas adequadas. A maneira como tratamos os doentes é tão importante como aquilo com que os tratamos.

08/03/10

COMO TER UM CORAÇÃO SAUDÁVEL


 
Todos os que se preocupam com a sua saúde e em “como ter um coração saudável” deverão ler este livro recém-editado. Aborda diversas questões práticas relacionadas com a alimentação saudável, a actividade física, os factores de risco cardiovascular e as doenças cardiovasculares. Da autoria do Prof. Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, foi lançado pela Âncora Editora.
 
Termina com dez conselhos para prevenir as doenças cardiovasculares, segundo o autor elaborados “a pensar especificamente na população portuguesa”, a saber:
1. Tenha uma alimentação saudável.
2. Faça actividade física.
3. Mantenha um peso saudável.
4. Reduza a tensão arterial.
5. Baixe o colesterol.
6. Não fume.
7. Controle o stress.
8. Beba vinho moderadamente.
9. Reduza o consumo de sal.
10. Tome o pequeno-almoço.

01/03/10

MEIAS ELÁSTICAS NA DOENÇA VENOSA

A utilização de meias de contenção elástica é um dos esteios do tratamento da doença venosa crónica (e do edema linfático), desde que não haja contra-indicações como insuficiência arterial associada ou outras patologias.
 
Se a insuficiência for proximal, ou seja, se houver varizes tronculares na coxa ou insuficiência franca acima do joelho, detectada no ecodoppler, deverá ser prescrito collant ou um par de meias elásticas até à virilha. Se a insuficiência venosa for apenas distal, poderá ser suficiente a utilização de meias até ao joelho.
 
Quanto ao grau ou classe de compressão, receito com mais frequência meias elásticas de grau II, correspondentes a 23-32 mmHg. As de grau I (18-21 mmHg) estão indicadas para alívio sintomático (de dor ou sensação de peso nos membros inferiores) quando o ecodoppler não revela alterações hemodinâmicas significativas.
 
Na insuficiência venosa crónica com história de ulceração ou com edema, pigmentação cutânea ou outros sinais de estase venosa, bem como nas situações de trombose venosa profunda, idealmente deveriam ser prescritas meias de grau III (34-46 mmHg). No entanto, na minha experiência é preferível receitar-se inicialmente meias de grau II e, se houver boa adesão do doente, grau III ou IV (>49 mmHg) numa consulta posterior.
 
Existem várias marcas à venda mas apenas algumas apresentam fiabilidade (em termos de compressão) e durabilidade comprovadas, com diferentes cores e modelos à escolha. Se apresenta doença venosa ou linfática dos membros inferiores, o seu médico de Cirurgia Vascular saberá receitar-lhe as meias elásticas mais adequadas à sua situação clínica.
 
As chamadas “meias de descanso” apresentam um grau de compressão variável, situado entre 6 e 14 mmHg. São classificadas, de acordo com a espessura da linha, em 70 ou 140 deniers. As últimas são um pouco mais grossas mas não necessariamente mais compressivas. Embora seja melhor que os doentes com insuficiência venosa utilizem este tipo de meias do que nenhum, não são as que recomendo no tratamento da doença venosa estabelecida.

09/02/10

HOSPITAL CENTRAL DE MAPUTO


Tive a oportunidade de visitar recentemente o Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo (o maior Hospital de Moçambique) e posso testemunhar o trabalho altruísta, dedicado e competente dos profissionais de saúde e voluntários que ali trabalham, apesar das profundas carências de recursos.
 
O Hospital não dispõe de radioterapia, o que impossibilita o tratamento curativo de vários tipos de cancro, nem de medicação considerada indispensável em países desenvolvidos. Mas graças à dedicação, perseverança e empenho destes profissionais, pequenos milagres acontecem todos os dias na vida de crianças e adultos internados nestas enfermarias.

08/02/10

HOMOSSEXUALIDADE: O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Foi recentemente tornado público que o Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, de Portugal, defende não haver qualquer tratamento para a homossexualidade, considerada uma variante do comportamento sexual e não propriamente uma doença. No entanto, vale a pena conhecer o que dizem outros investigadores acerca do assunto, pois esta posição não é consensual. Poderá ler a opinião da National Association for Research & Therapy of Homosexuality (NARTH) aqui.

25/01/10

ESTADO VEGETATIVO PERSISTENTE

O estado vegetativo persistente (EVP) é uma entidade clínica que resulta, normalmente, de um episódio de interrupção temporária do fluxo sanguíneo cerebral, por exemplo durante uma paragem cardíaca seguida de reanimação bem sucedida, mas que acarreta uma destruição extensa do córtex cerebral, ficando o tronco cerebral relativamente preservado. Pode também ser consequência de uma doença neurológica, degenerativa ou metabólica, que afecte gravemente o cérebro. Nestas situações, a actividade cardiovascular e os reflexos neurológicos dependentes do tronco cerebral estão presentes, o que inviabiliza o diagnóstico de morte cerebral.
Os doentes em estado vegetativo têm padrões relativamente normais de vigília e de sono, podem abrir os olhos, respirar e deglutir espontaneamente e inclusive ter reacções de sobressalto perante ruídos intensos, mas perderam de forma temporária ou permanente a capacidade de pensarem e de agirem conscientemente. A maioria têm reflexos anormalmente exagerados, bem como rigidez e movimentos espásticos dos membros. Pode também ser registada actividade eléctrica no electroencefalograma
Apesar da gravidade dos casos de EVP, muitos doentes podem efectuar movimentos descoordenados dos membros e ocasionalmente podem sorrir, chorar ou mesmo gritar. Contudo, aparentemente não existe qualquer reconhecimento psicológico por detrás destas actividades motoras.
Um dos aspectos mais notórios do EVP é a incapacidade destes doentes se alimentarem por si próprios. Embora alguns apresentem o reflexo de deglutição, se lhes forem colocadas substâncias sólidas ou líquidas na boca, a tentativa de alimentá-los deste modo seria extremamente morosa e arriscada, pelo perigo de poder ocasionar pneumonia de aspiração. Por esta razão, os doentes em EVP são habitualmente alimentados através de sondas nasogástricas ou de gastrostomia, estas últimas inseridas através da parede abdominal.
Alguns doentes podem viver décadas em EVP, desde que lhes sejam facultados alimentação, hidratação e cuidados de higiene adequados, apresentando uma esperança de vida idêntica à da população em geral. Por vezes os pacientes recuperam do EVP, apesar de se tratar de um acontecimento raro. Outras vezes, como provavelmente se verificou no caso relatado neste artigo, o diagnóstico de EVP teria sido incorrectamente formulado.
Embora seja evidente que os doentes em EVP não preenchem os critérios que permitem diagnosticar a morte, há quem defenda a eticidade de se retirarem as sondas nasogástricas ou de gastrostomia, consideradas um tratamento médico inútil e inadequado, de modo a que lhes sobrevenha a morte por inanição, tal como se verificou com Anthony Bland no Reino Unido, em 1993, ou com Terri Schiavo nos EUA, em 2005.
Na minha opinião, ainda que possa ser questionada a utilização de medidas terapêuticas extraordinárias, como a antibioterapia ou a reanimação cardio-respiratória, em situações de mau prognóstico, discordo que os cuidados básicos de higiene, hidratação e nutrição sejam interrompidos em doentes em EVP clinicamente estáveis. Por um lado, porque não estão mortos. Por outro lado, porque há sempre a possibilidade e esperança, ainda que remota, da sua recuperação.

20/01/10

A CRIANÇA QUE VAI MORRER

PROF. DANIEL SERRÃO

"Ela não conseguia adormecer. Era a noite do dia mais triste da sua vida.
Luísa, a sua menina de 10 anos, morrera, ao fim da manhã, após um ano de luta contra um tumor maligno. No silêncio da noite, sozinha no seu quarto, evocava os doze meses vividos na dúvida, no sofrimento, na esperança, na revolta.
Luísa sempre fora uma criança feliz, mesmo sem ter conhecido o pai, que abalara para a França logo após o seu nascimento e nunca mais dera notícias.
A Mãe criou-a com o seu trabalho sofrido, de casa em casa, a fazer limpezas. Mas as Senhoras deixavam-na levar a Luísa, ainda pequenina; até que atingiu a idade escolar e tudo foi sendo mais fácil. Boa aluna, Luísa era, como disse, uma criança feliz. Até adoecer.
Dores abdominais vagas, difusas, e algum emagrecimento. Devem ser lombrigas, disse o Médico de Família. Mas não eram.
Com o agravamento dos sintomas dolorosos e da perda de peso a Mãe conseguiu uma consulta Hospitalar, ao fim de três meses de espera, graças à ajuda do marido de uma das Senhoras onde trabalhava a dias, que era Médico.
Um mês se passou,de exames analíticos, ecografias e tomografias; disseram-lhe no fim que a Luísa tinha de ficar internada.
Porquê, senhor Doutor? Perguntou a Mãe, aflita. Para ser melhor estudada; ainda não sabemos o que tem a sua filha.
À Luísa ninguém disse nada. Afinal era uma criança de dez anos que nada compreenderia do que lhe estava a acontecer.
Os técnicos faziam nela o seu trabalho, colhiam o seu sangue, metiam-na e tiravam-na de máquinas que zumbiam, assustadoras, e ela só ouvia: esteja quieta, não respire; pode sair.
A Mãe mal tinha tempo para ir ao Hospital porque não podia faltar às Senhoras; era um trabalho a dias e a horas, sem direito a ausências, a falhas, a baixas ou a férias.
Mas não esquece o dia em que a chamaram e que até lhe custou uma manhã sem ganhar nada.
De cara fechada, o médico, informou-a, secamente, que a Luísa tinha cancro e continuaria internada para tratamento.
Foi como se o mundo inteiro desabasse sobre ela. Cancro, a sua menina, a sua companheira, a razão da sua vida de trabalho e o sentido da sua existência! Cancro!
Não podia ser, era engano. Procurou os fugidios olhos do médico que parecia não lhe dar atenção depois de ter proferido a sentença – a sua filha tem cancro.
Senhor doutor, mas tem salvação? – conseguira perguntar.
O médico compulsava um dossier e deu a resposta técnica correcta, sem a olhar nos olhos: depende da forma como aguentar e reagir aos tratamentos; uns casos escapam, outros não. É pena que já não possa ser operada; seria melhor; agora vai fazer apenas quimioterapia. Depois vê-se.
À Luísa ninguém disse nada. Afinal era uma criança de dez anos. Que saberia ela da vida e da morte?
Iniciou um calvário de perfusões venosas repetidas, deitada horas numa cadeira esquisita, com o soro a correr-lhe nas veias; os enjoos e vómitos, a queda do cabelo, a fraqueza e uma fadiga total, do corpo e da mente.
Da doença só sabia o que a Mãe lhe dizia: Luisinha, vais ficar boa, vais voltar para a nossa casa, vais ser outra vez a minha companhia, vais outra vez para a Escola. Mas tens de aguentar os tratamentos; o Doutor diz que tens de aguentar os tratamentos, que é para ficares boa.
Luísa aguentou, com o sentimento interior de que era a sua obrigação; que devia isso à Mãe, que só chorava quando estava com ela, e ao Médico, a esse senhor doutor omnipotente que dava ordens a todos e mal a olhava quando passava pela cama onde ela permanecia, encolhida, fechada num sofrimento silencioso; e bem mais cruel por ser silencioso.
Ao fim de uns meses a Mãe foi de novo chamada ao Hospital. Um outro médico, que ela nunca tinha visto, disse-lhe de forma terminante e sem espaço para nenhuma contestação: vamos dar alta à sua filha, já não temos mais nada para fazer por ela; vai para casa com esta carta para o médico de família.
A Mãe não queria acreditar que era uma sentença de morte que estava a receber nas palavras burocráticas do médico. Mas era.
A vida de Luísa e da Mãe tornou-se assustadoramente penosa. Luísa ficava sozinha, de manhã e numa parte da tarde. Não tinha dores mas precisava de ajuda para a sua higiene pessoal e para se alimentar. Percebeu que já não tinha cura, que ia morrer, mas não podia falar à mãe que continuava a dizer-lhe que iria curar-se. Quando pôde, a Mãe foi ao Centro de Saúde levar a carta do Hospital.
O experiente Clínico Geral que a leu – e ela pouco mais dizia do que: “sarcoma retroperitoneal, de células indiferenciadas, inoperável; três ciclos de quimioterapia sem regressão significativa da massa tumoral; alta para o domicílio” - compreendeu o drama que iria ser o período terminal daquela menina a viver, sozinha, o seu sofrimento.
Visitou-a logo nesse dia e tiveram uma longa e calma conversa, os três, sobre o que seriam as próximas semanas.
Desocultada, assim, a realidade escondida a Mãe teve a mais estranha surpresa da sua vida. Pela primeira vez, Luísa falou, com emoção, do tempo passado no Hospital, de como, ouvindo as conversas dos profissionais entre si, percebeu que tinha uma doença grave, muito difícil de curar e de como estava bem consciente de que a sua vida acabaria em breve. E queria consolar a Mãe da pena e sofrimento que a sua morte lhe ia causar.
A Mãe olhava-a e ouvia-a quase sem poder fazer um gesto ou articular uma palavra. Mas abraçou-a e beijou-a como nunca tinha feito desde o aparecimento da maldita doença.
Luísa sentiu-se acolhida, de novo, no amor da Mãe, naquele amor que sempre tinha sido o seu seguro porto de abrigo nas dificuldades e surpresas da sua infância.
O Clínico Geral, como bom médico de família, também um pouco emocionado disse-lhes finalmente: virá cá todos os dias, uma Enfermeira do Centro que tem a preparação adequada para vos acompanhar e apoiar nos tempos difíceis que se aproximam (referia-se a uma Enfermeira com a Especialidade de Cuidados Paliativos).
A enfermeira era de facto competente. Começou por reorganizar os espaços na pequena casa para que Luísa pudesse falar com ela, com a privacidade possível, e receber as colegas que passaram a visitá-la por sugestão sua, feita na Escola que Luísa frequentara até adoecer. Luísa, enfraquecida, tirava força destas visitas das antigas colegas para fazer planos como se tivesse todo o tempo para viver. E, em certos dias, quando aparecia um colega que era um amigo especial, parecia aquela Luísa, alegre e feliz, de há um ano atrás, quando corria nos recreios ou descobria, debaixo da frondosa tília do terreiro, de mão dada com o Pedro, que há um mistério nas relações humanas que aproxima as pessoas pela sua intimidade mais profunda, de uma forma subtil, inesperada e extasiante.
Mesmo num corpo doente, o íntimo de Luísa vivia, nas visitas do Pedro, a mesma exaltação dos primeiros passeios dos dois, das conversas sem assunto e da descoberta do amor; não nas palavras mas nas mensagens silenciosas dos olhares que se fitam, se prendem um no outro e se revelam, um ao outro, como intimidades pessoais. Era como se a doença a tivesse feito crescer.
A Mãe descobria, agora, porque a doença fora desocultada, uma outra Luísa, uma filha que ela não conhecia, com uma vida interior própria, da qual nunca suspeitara. Esta descoberta tornou possível o desenvolvimento de uma comunicação nova entre a Mãe, que viveu sempre obcecada pelo futuro da Luísa, e a filha que vivia, no presente, a consumação do seu próprio tempo de viver.
Luísa, agora acamada durante quase todo o dia, recebia os cuidados de conforto que a Enfermeira lhe prodigalizava, com o rigor técnico necessário mas com uma atitude de afecto e simpatia. Duas vezes por dia Luísa tinha aquela presença, vinda do mundo lá de fora, que, enquanto lhe prestava cuidados, contava as novidades de conhecidos e desconhecidos, das cantoras pop que casavam e descasavam, que iam ficando grávidas ou davam à luz e, até, das famosas que assumiam, publicamente, que tinham cancro e esperavam curar-se.
Um dia, na visita da tarde, fez-lhe uma pergunta que era, afinal, uma afirmação ou um pedido de confirmação: eu não me vou curar, pois não?
A Enfermeira fez um curto silêncio e confirmou com simplicidade – não vais.
Parecendo, até, aliviada, Luísa não falou, nunca mais, da sua morte próxima, mas começou a conversar com a sua Mãe sobre aquele Deus que lhe tinham ensinado a conhecer na catequese: um Deus castigador das meninas que se portavam mal, um Deus severo, longínquo e inacessível. E parecia incomodada e inquieta.
A Mãe queria sossegá-la mas não sabia como.
Deveria chamar o Padre? Mas então o Padre não era para aplicar aos moribundos a Extrema-unção, quando já nem percebessem o que se estava a passar?
Luísa estava bem lúcida e iria assustar-se vendo entrar o Padre no seu quarto, pensava a Mãe.
Mas foi Luísa que resolveu a dificuldade pois disse à Mãe que queria falar com o Padre da Igreja onde andara na catequese.
O Pároco, agora, era um jovem sacerdote que usava jeans e visitava os paroquianos de bicicleta.
Ouviu a Mãe com muita atenção e respondeu logo: vou lá hoje.
Chegou sereno, até alegre; ouviu os temores de Luísa, o medo das chamas do inferno e da condenação eterna, no juízo final.
Reformulou, logo ali, toda a catequese.
Sabes Luísa, começou o Padre Manuel, Deus ama todas as criaturas, mesmo as mais perversas; mas só o podemos imaginar e conhecer quando amamos outras pessoas em vez de sermos maus para elas. No amor que tu tens à Mãe e no profundo amor que ela tem por ti está a revelação de Deus. Deus ama-te como tu amas a tua Mãe. E como ela te ama a ti. Lembras-te como ela sempre te perdoou quando te portavas mal e logo te arrependias e pedias desculpa? Pois é assim mesmo que Deus te perdoa.
Neste amor de Deus tu vais viver sempre, mesmo quando o teu corpo, o de tua Mãe ou o meu, não estiverem já nesta terra.
Não me perguntes como, porque eu não sei. Nem ninguém sabe. É um mistério.
Só te posso dizer - e disto estou bem certo - que é o amor de Deus por todos os homens que faz aparecer, no nosso espírito, esta confiança na imortalidade.
Alguém disse que cada vida humana, como a tua e a minha, não acaba. Apenas se transforma. Sinto-me bem, como Padre, porque espero esta outra vida, num outro mundo que há-de vir. Esta esperança é o autêntico e real sentido da minha vida e da tua.
Luísa percebeu quase tudo e ficou calma.
Durante as poucas semanas que ainda viveu esteve sempre calma e com longos períodos de silêncio.
Que pensamentos habitariam estes silêncios?
Não sabia a Mãe, nem a Enfermeira, nem o Padre.
E eu, que vos estou a contar esta história real, também não sei.
Porque a vivência do processo de morrer é, talvez, a mais rigorosamente íntima e incomunicável de todas as vivências pessoais.
Luísa viveu tranquila, e um pouco alheada, os seus últimos dias. Pediu à Mãe que não chorasse e que não se sentisse só.
Talvez quisesse dizer, mas não o disse, que estaria sempre presente no amor que as unia."

Esta belíssima e comovente narrativa de um caso, em parte real em parte ficcionado, de uma criança em fim de vida, foi o texto que o Professor Daniel Serrão teve a amabilidade de me enviar para publicar neste espaço. E conclui, "Claro que nem todos os médicos são apenas técnicos e cientistas, nem todos os Centros de Saúde têm enfermeiros com a especialização em cuidados paliativos, nem todas as mães são assim submissas ao “poder” médico, e são pacientes e amorosas para as suas filhas doentes. E nem todos os sacerdotes estão bem preparados para a pastoral de crianças que vão morrer de cancro. O que vos trouxe, afinal, foi uma palavra de esperança."

18/01/10

PRIME - PARTNERSHIPS IN INTERNATIONAL MEDICAL EDUCATION


A PRIME – Partnerships in International Medical Education é uma organização internacional de formadores na área da saúde, de inspiração cristã, constituída oficialmente em 2002 no Reino Unido. Na sua curta existência, tem desenvolvido actividades de formação em mais de 30 países nos cinco continentes.

O ensino da PRIME caracteriza-se por utilizar e enfatizar o modelo bio-psico-socio-espiritual na relação com o paciente, em vez do modelo biomecânico, ainda comum nos curricula das escolas de medicina e enfermagem das sociedades ocidentais, mas considerado pela própria Organização Mundial de Saúde bastante redutor e insatisfatório.

A PRIME conta com um grupo de formadores constituído por mais de 100 profissionais de saúde, incluindo docentes de várias disciplinas em faculdades de medicina do Reino Unido e de outros países, com experiência académica pré e pós-graduada e comunitária. Através do ensino e capacitação de estudantes e profissionais de saúde, em todo o mundo, pretendem contribuir para a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde prestados aos pacientes.

O trabalho altruísta e de excelência que a PRIME tem desenvolvido foi reconhecido ao mais alto nível em 2006, com a atribuição ao Dr. John Geater (diretor internacional da PRIME) do título honorífico de “Member of the British Empire”, pela rainha Isabel II de Inglaterra.

A primeira iniciativa da PRIME em Portugal foi o Curso “Saúde Global – Desafios e Oportunidades em África”, realizado em Outubro de 2008 no auditório do Hospital da Luz, com a colaboração da AMI. Em Maio de 2009 realizaram-se duas novas acções de formação – na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e no Hospital CUF Descobertas, em Lisboa. Em Maio de 2010, teve lugar outra formação da PRIME em Portugal, no Hospital CUF Descobertas e na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

HIPERTENSÃO ARTERIAL: O QUE TODOS PRECISAMOS DE SABER


Calcula-se que cerca de 43 % dos portugueses com mais de 18 anos são hipertensos. Contudo, cerca de metade desconhece que tem a doença e apenas aproximadamente 10 % estão devidamente controlados. O livro que destacamos, recentemente editado pela Lidel, é de leitura fácil, cientificamente correcto e atual, em que diversos especialistas em hipertensão arterial respondem às perguntas mais frequentes que os seus pacientes lhes fazem sobre a doença hipertensiva. Sob a coordenação dos médicos José Pinto Carmona, Jorge Polónia e Luís Martins, e com o apoio científico da Sociedade Portuguesa de Hipertensão, Hipertensão Arterial: O que todos precisamos de saber é dirigido aos doentes hipertensos e ao público em geral, acerca de uma doença comum, grave e potencialmente fatal se não for diagnosticada e tratada eficazmente.